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Reinaldo Azevedo

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Putin, Zelensky e Biden investem todos os dias na continuidade da guerra

Joe Biden e Vladimir Putin: por enquanto, os respectivos discursos dos donos do mundo só dão em mais guerra - Jim Watson/AFP; Grigory Dukor/Pool
Joe Biden e Vladimir Putin: por enquanto, os respectivos discursos dos donos do mundo só dão em mais guerra Imagem: Jim Watson/AFP; Grigory Dukor/Pool
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Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo, que publicou aqui o primeiro post no dia 24 de junho de 2006, é colunista da Folha e âncora do programa "O É da Coisa", na BandNews FM. No UOL, Reinaldo trata principalmente de política; envereda, quando necessário - e frequentemente é necessário -, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

Colunista do UOL

18/03/2022 06h53

Vladimir Putin fez um discurso assustador na noite de quarta-feira. Habitualmente chamado de "autocrata" pela imprensa ocidental, dados os métodos a que recorre — embora esse "auto" possa ser questionado já que conta com o apoio da maioria do povo russo —, ele não rejeitou o figurino. Prometeu caçar e expelir os traidores, comparados a moscas que se metem na boca das pessoas. Referiu-se como "quinta coluna" a milionários que estão fora da Rússia e que se opõem à guerra. Também na quarta, Joe Biden, presidente dos EUA, chamou o homólogo russo de "criminoso de guerra". Qual dos dois colabora para o fim do conflito?

Ainda que a imprensa reporte com frequência que há negociações em curso entre a Rússia e Ucrânia e que as forças invasoras estão sofrendo severas baixas, o que se vê até agora são mais de três milhões de refugiados e um rastro impressionante de destruição, mesmo com EUA e Europa fornecendo à Ucrânia recursos praticamente ilimitados e armas às milhares de toneladas. Tudo colabora para criar a mística da resistência, que alimenta os discursos de Volodymyr Zelensky com metáforas sempre ousadas, o que, por certo, não concorre para pôr fim ao desastre.

Falando ao Congresso americano, o presidente ucraniano comparou a ação do inimigo ao ataque a Pearl Harbor e ao 11 de Setembro, o que é um despropósito. Aos alemães, acusou Putin de querer isolar a Ucrânia por uma espécie de muro. E insistiu na criação da zona de exclusão aérea, que oporia frontalmente EUA e Europa à Rússia. No fim dessa linha de argumentação — fim mesmo! —, estão seis mil ogivas nucleares.

Vale dizer: negociação de verdade não há. Putin é o agressor e é aquele que transgrediu regras do direito internacional. Ainda que apoiado pela maioria do seu país, comanda uma ditadura — nas democracias, não se pune a divergência com cadeia; aliás, não se pune de modo nenhum: só com o voto. A invasão é indefensável — e isso está posto aqui desde o primeiro dia. Mas cabe indagar: Zelensky está mesmo interessado em pôr fim ao conflito? Todos os seus discursos, reconheça-se, fazem o contrário. Tem sido muito bem-sucedido em mobilizar o mundo contra Putin e contra a Rússia. A esmagadora maioria das pessoas ignora que a guerra é um ponto numa trajetória de confrontos e pensa que o doidão acordou de veneta e resolveu invadir a casa do vizinho.

A menos que Putin seja deposto por um golpe de estado — e não creio que isso tornasse o mundo mais seguro —, os ataques vão continuar, mais pessoas vão morrer, haverá ainda mais destruição. E assim será porque, no terreno bélico propriamente, é claro que a Ucrânia está perdendo a guerra. Mas Zelensky seduz plateias mundo afora. Não indagar a que custo isso se dá é essencialmente imoral. A que custo? A paz está muito distante.

Falemos um pouco sobre Joe Biden, o guerreiro que passou uns bons anos envergando as vestes de um cordeiro — embora democratas nunca tenham sido vegetarianos, não é? Quando o assunto é guerra, note-se, tendem a ser mais carnívoros do que os republicanos. A diferença é que parte considerável da imprensa tende a ver com olhos mais generosos as guerras travadas pelos "liberais". As barbeiragens perpetradas por Barack Obama durante a tal "Primavera Árabe", por exemplo, foram lidas quase como poesia... A propósito: quantos civis a Otan matou na Líbia? Jamais saberemos. É como se dissessem: "Eram apenas líbios".

Quando o presidente americano acusa o russo de cometer "crimes de guerra", está a dizer que não há negociação possível. Putin teria de voltar para casa, sem levar nada do que pediu, e ainda de arcar também pessoalmente com o custo de sua escolha. Se é como diz Biden, interrompa-se qualquer esforço contra a guerra porque não é aceitável dialogar com criminosos de guerra. Eles têm de ser vencidos e punidos. Digam-me: essa perspectiva é minimamente realista?

Nesta sexta, Biden conversa com Xi Jinping, presidente da China. Com que propósito? Os EUA usaram a imprensa para vazar a suposta informação de que Putin pedira ajuda aos chineses em equipamentos militares, recebendo sinal positivo. China e Rússia negam. De todo modo, a segunda maior economia do mundo (logo será a primeira) foi alvo de algumas ameaças feitas pelos americanos.

Muito se fala que Putin escolheu o caminho da autodestruição. É possível. Mas notem que, excitado pela guerra, Biden só aceita um resultado: a queda do presidente russo. E se, milhares de mortos depois, ele não cair? Haverá negociação com um "criminoso de guerra"?