Reinaldo Azevedo

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Opinião

O governo atua contra o crime organizado; já a Bancada da Bala faz o oposto

As coisas têm de ser ditas assim: enquanto o governo brasileiro, por intermédio da Polícia Federal e do Ministério da Justiça, está combatendo o crime organizado, a chamada Bancada da Bala, na Câmara, quer fazer precisamente o contrário. E é importante que as coisas sejam ditas rigorosamente deste modo. É preciso que a população saiba que um dos mais poderosos e ricos lobbies do mundo também atua por aqui. E é um dos maiores financiadores clandestinos de campanhas eleitorais. De vários modos, é uma atividade que custa muito caro: enriquece os pilantras envolvidos com a tese homicida e, pois, custa milhares de vidas.

Volto ao ponto mais tarde.

Vocês não verão nem ouvirão os "patriotas" de sempre a aplaudir a ação da PF, em parceria com órgãos de investigação do Paraguai e dos Estados Unidos, que chegou, nesta terça, a uma organização criminosa transnacional ligada ao tráfico internacional de armas. Foram presas 19 pessoas — 14 no Paraguai e cinco no Brasil — e se cumpriram 54 mandados de busca nos três países. No centro, está o argentino Diego Hernan Dirísio, que mora em Assunção e está foragido.

Os detalhes da operação estão em todo canto, mas vale destacar alguns números para que se lembre a dimensão da coisa. A PF informa que, entre novembro de 2019 e maio do ano passado, a empresa de Dirísio — chamada IAS, com sede no Paraguai — comprou 7.720 pistolas de vendedores da Croácia, 2.056 fuzis oriundos da República Tcheca e mais cinco mil rifles, pistolas e revólveres produzidos na Turquia. Da Eslovênia, outras 1.200 pistolas, num total de 16.669 unidades. Todas elas foram vendidas para facções criminosas do Brasil, especialmente do Rio e de São Paulo, com a ajuda de doleiros e empresas de fachada paraguaias e norte-americanas.

Que coisa notável! Os adversários ferrenhos da indicação de Flávio Dino, ministro da Justiça, ao Supremo plantam no terreno envenenado do colunismo pilantra que a segurança pública será um dos pontos frágeis da gestão aser explorada na sabatina do dia 13 na Comissão de Constituição e Justiça do Senado. Os dados das operações da PF no combate ao crime organizado neste ano desautorizam a crítica, mas é inegável que as organizações criminosas estão, a cada dia, se me permitem o emprego da mesma palavra em outra classe gramatical, mais organizadas e profissionalizadas.

Prestem atenção a uma informação relevantíssima: não importa o ramo de atuação dos criminosos, uma prática os liga a todos: a venda ilegal desses instrumentos de poder e morte. Ela serve aos narcos, às milícias, aos desmatadores, ao garimpo ilegal, ao tráfico de pessoas, ao jogo clandestino. Nem todos os bandidos vendem cocaína; nem todos os bandidos vendem madeira; nem todos os bandidos vendem ouro; nem todos os bandidos vendem pessoas; nem todos os bandidos vendem a sorte. Mas todos os bandidos compram armas.

E não! Eu não acho, obviamente, porque é mentira, que todos os que compram as ditas-cujas são bandidos. Mas não tenho a menor dúvida de que o discurso em favor do liberou-geral serve à bandidagem. O que Bolsonaro fez com os sucessivos decretos facilitando a posse e o porte e multiplicando escandalosamente os chamados CACs, além de ter posto fim ao rastreamento, foi música, na modalidade saraivada, aos ouvidos das facções e das milícias.

LEGAIS E ILEGAIS
"Ah, mas o problema está nas armas ilegais..." Balela. Um estudo feito no Espírito Santo, no ano passado, mostra que 30% das que foram usadas em crimes tinham origem no mercado legal, com proprietários registrados no sistema da Polícia Federal, mas caíram nas mãos de criminosos.

Pesquisa mais ampla em São Paulo traz a mesma evidência. O Instituto Sou da Paz mostrou que, no estado, a maioria das armas de fogo usadas em crimes foi, originalmente, comprada de forma legal. Na última década, pelo menos 33 mil caíram nas mãos de criminosos no Estado. Por mais de 23 mil boletins de ocorrência de 2011 a 2020, descobriu-se que há menos de 24 horas entre o momento do furto ou roubo até o seu uso em delitos.

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E notem que estou considerando aqui, em princípio, os eventos de boa-fé. Há evidências crescentes nas Polícias de que há a falsa comunicação de roubo. Há quem empresta seu nome ao registro e depois passa a mercadoria adiante. E como não havia mais rastreamento, o país virou um grande mercadão informal.

OS DECRETOS
A chamada Bancada da Bala está tentando organizar um PDL -- Projeto de Decreto Legislativo -- para tentar derrubar os decretos do governo Lula que põem limites à insanidade que vigorou na gestão Bolsonaro. A quem atendem esses valentes?

Eduardo Bolsonaro, que gosta de publicar fotos ao lado de fuzis, não disse uma miserável palavra sobre a ação da PF nesta terça. Em vez disso, estava produzindo delinquência política na Câmara contra Dino. Também silenciaram outros valentes da chamada Bancada da Bala. Por alguma razão, a ação da PF, com o concurso de dois outros países, não mereceu a deferência desses amigos do povo.

"Ah, são coisas distintas..." Não são, não. Como apontam as evidências empíricas, o arsenal que está hoje em poder do crime organizado não tem origem apenas em quadrilhas como a que começou ser desbaratada ontem. A facilitação para a aquisição desses instrumentos transformou o Brasil num feirão macabro.

O governo federal, por intermédio do Ministério da Justiça e da PF, atua para dificultar a ação dos criminosos. A tal Bancada da Bala quer fazer o contrário. Não posso crer que pugne em favor de um dos lobbies mais organizados e endinheirados do mundo por amor à causa. Fosse assim, esses monumentos morais poderiam ter se interessado pelas criancinhas pobres. Mas o que podem elas?

A propósito: qual causa? Autodefesa é que não é. Jair Bolsonaro, o pai de todos, já deixou muito claro que sua intenção sempre foi outra. Naquela famigerada reunião ministerial de 22 de abril de 2020, que vazou para o público, disse com todas as letras:
"Por isso que eu quero, ministro da Justiça e ministro da Defesa, que o povo se arme! Que é a garantia que não vai ter um filho da puta aparecer pra impor uma ditadura aqui!
(...)
Por que que eu tô armando o povo? Porque eu não quero uma ditadura! E não da pra segurar mais! Não é? Não dá pra segurar mais.
(...)
Quem não aceitar isso, está no governo errado. Esperem pra vinte e dois, né? O seu Álvaro Dias. Espere o Alckmin. Espere o Haddad. Ou talvez o Lula, né? E vai ser feliz com eles, pô! No meu governo tá errado! É escancarar a questão do armamento aqui. Eu quero todo mundo armado!"

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O sonho, parece óbvio, era uma guerra civil. Não veio. As pesquisas apontam que a maioria dos brasileiros é contra a facilitação da posse e do porte.

Milícias, PCC e Comando Vermelho, entre outros, concordam, obviamente, com Bolsonaro e com a Bancada da Bala. Talvez também chamem a tese de "a nossa liberdade".

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Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

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