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Um Bolsonaro sedutor aparece em vídeo de encontro para atrair o Centrão

Tales Faria

Tales Faria largou o curso de física para se formar em jornalismo pela UFRJ em 1983. Foi vice-presidente, publisher, editor, colunista e repórter de alguns dos mais importantes veículos de comunicação do país. Desde 1991 cobre os bastidores do poder em Brasília. É coautor do livro vencedor do Prêmio Jabuti 1993 na categoria Reportagem, ?Todos os Sócios do Presidente?, sobre o processo de impeachment de Fernando Collor de Mello. Participou, na Folha de S.Paulo, da equipe que em 1986 revelou o Buraco de Serra do Cachimbo, planejado pela ditadura militar para testes nucleares.

Colunista do UOL

23/04/2020 12h03

O presidente Jair Bolsonaro se elegeu prometendo acabar com a velha politica.

Mas quem disse que, depois de 28 anos de exercício do mandato de deputado federal, ele não sabe fazer a velha política?

Bolsonaro transitou pelos principais partidos do Centrão, os mais experientes no toma lá dá cá do Congresso.

O vídeo acima tem um registro de seu encontro, na segunda-feira, dia 20, com Arthur Lira, líder do PP na Câmara. Aliás, um partido do qual Bolsonaro já foi filiado.

Nele, Bolsonaro mostra-se simpático como poucas vezes se vê. Sedutor, com recomendações à família do líder pepista que quer trazer para o seu lado. E Lira parece mesmo seduzido.

O deputado é hoje uma das principais lideranças do Centrão. É pré-candidato a presidente da Câmara, contra a vontade do atual presidente da Casa, Rodrigo Maia.

Vale lembrar que Maia, um deputado eleito pelo DEM do Rio de Janeiro, mesma base eleitoral de Bolsonaro, é considerado pelo presidente da República como um dos seus maiores inimigos.

Bolsonaro está movendo mundos e fundos para influir na eleição do sucessor de Rodrigo Maia no comando da Câmara. E Lira é um forte candidato.

O presidente aproveitou o feriado estendido de Tiradentes nessa semana para se encontrar com os presidentes e líderes de diversos partidos do Centrão.

Usou toda sua experiência na velha política, acenou com uma reforma ministerial e uma mudança drástica na política econômica que ameaça até a permanência no cargo do ministro da Economia, Paulo Guedes.

O velho PTB presidido pelo amigo Roberto Jefferson, voltou a ser cotado para comandar um Ministério do Trabalho a ser recriado e retirado do Ministério da Economia...

Enfim, vale tudo para permanecer no poder.

Bolsonaro sentiu que sua política de enfrentamento com tudo e todos acabou deixando-o isolado, o que, na prática, ameaça até sua permanência no cargo.

É esse temor que o levou a incentivar manifestações de bolsonaristas radicais contra o Congresso e o Supremo Tribunal Federal, e pela volta do AI-5.

Mas aí ele exagerou na dose. Foi com o grupo para a frente do comando do Exército em Brasília, dando a entender que a caserna estava pronta para o golpe.

Os generais não gostaram. O comandante do Exército soltou nota em defesa da Constituição e os militares do Planalto precisaram blindar e tutelar ainda mais o presidente.

É nesse contexto de cerco e isolamento que Bolsonaro procura acertar-se com a velha política, aquela que ele nega mas que sempre o abrigou.

Como tem afirmado o ex-presidente Fernando Collor de Mello esse filme não costuma dar certo. Collor sabe o que fala. Ele fez exatamente assim: negou e depois recorreu à velha política. E se deu mal.

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