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Covid: Bolsonaro mente ao dizer que OMS é contra vacinar adolescentes

16.set.2021 - O presidente Jair Bolsonaro participa de live ao lado do ministro da Saúde, Marcelo Queiroga (à esquerda na imagem) - Arte sobre reprodução/YouTube
16.set.2021 - O presidente Jair Bolsonaro participa de live ao lado do ministro da Saúde, Marcelo Queiroga (à esquerda na imagem) Imagem: Arte sobre reprodução/YouTube

Juliana Arreguy e Beatriz Montesanti

Do UOL e colaboração para o UOL, em São Paulo

16/09/2021 21h26Atualizada em 16/09/2021 22h08

O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) mentiu, em live hoje à noite, ao alegar que a OMS (Organização Mundial da Saúde) é contra a aplicação de vacinas para o combate à covid-19 entre adolescentes. A organização reconhece que o imunizante da Pfizer pode ser dado a jovens a partir de 12 anos.

A alegação falsa de Bolsonaro foi dita algumas horas depois de o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, ter anunciado a suspensão da vacinação de adolescentes sem comorbidades, voltando atrás em orientação da própria pasta. Segundo a Folha, a mudança ocorreu após pressão de Bolsonaro e apoiadores. A Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) mantém a autorização da vacina da Pfizer para adolescentes.

Veja abaixo o que o UOL Confere checou:

A OMS é contra a vacinação entre 12 e 17 anos."
Presidente Jair Bolsonaro em live semanal

As orientações públicas da OMS não são contrárias à vacinação em adolescentes. Por isso, a alegação de Bolsonaro é FALSA.

A OMS afirma que pessoas mais jovens apresentam tendência de casos mais leves de covid do que adultos e que a imunização deles, no momento, é menos urgente. A organização também reconhece que a vacina da Pfizer é eficaz na faixa compreendida entre 12 e 15 anos.

"Crianças e adolescentes têm a tendência de apresentar casos mais leves em comparação a adultos, então a não ser que sejam parte de um grupo de risco da covid-19, é menos urgente vaciná-los do que em relação a pessoas mais velhas, estados crônicos de saúde e profissionais de saúde", diz comunicado da OMS atualizado em julho deste ano.

Tem uma lei federal aqui. Você sabe o parlamentar que apresentou essa emenda, o artigo quinto, mandando vacinar o pessoal com comorbidade. Foi baseado em quê, que estudo científico ele apresentou isso? Os deputados e senadores aprovaram isso baseado no quê? Qual a comprovação, qual o estudo nesse sentido?"
Presidente Jair Bolsonaro em live semanal

O artigo mencionado por Bolsonaro propõe a inclusão de crianças e adolescentes com comorbidades no Plano Nacional de Operacionalização da Vacinação Contra a Covid-19. Trata-se de uma emenda do senador Fabiano Contarato (Rede-ES) a um projeto de lei proposto pelo senador Jean Paul Prates (PT-RN).

O texto de Contarato foi apresentado em 15 de junho, quatro dias após a Anvisa autorizar a aplicação da vacina da Pfizer para jovens entre 12 e 15 anos. O senador justificou a sugestão de emenda alegando que crianças e adolescentes com comorbidades possuem mais chances de desenvolver covid, citando dados de pesquisas da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e da USP (Universidade de São Paulo), assim como casos divulgados pelo CNJ sobre infecções pelo coronavírus no sistema socioeducativo.

Além de ignorar o fato de que a Anvisa havia aprovado a vacinação para adolescentes com o imunizante da Pfizer, Bolsonaro omitiu que ele mesmo sancionou a alteração na lei após a aprovação no Congresso.

Quando você fala 'registro emergencial', [a vacina] não tem comprovação científica. A CoronaVac continua [com registro emergencial]."
Presidente Jair Bolsonaro em live semanal

A declaração do presidente é FALSA. Todas as vacinas contra a covid-19 que são usadas no Brasil têm comprovação de eficácia, qualidade e segurança após testes com milhares de pessoas. Por causa disso, tiveram sua utilização aprovada pela Anvisa, mesmo que para uso emergencial, como é o caso da CoronaVac e da Janssen. Pfizer e Astrazeneca já têm registro definitivo aprovado pela agência.

O uso emergencial é uma aprovação que as agências regulatórias dão a determinados produtos em caráter provisório e por um tempo determinado. Isso não significa que as vacinas não tenham comprovação científica, mas que a decisão é tomada com base em análises preliminares dos testes clínicos, dada a urgência de uma pandemia global.

O cara que não tomou vacina está prejudicando a si próprio. Se você já tomou, fique tranquilo, você está imunizado."
Presidente Jair Bolsonaro em live semanal

É FALSO dizer que não se vacinar prejudica apenas a pessoa que tomou essa decisão. Somente com a imunização de um grande número de pessoas, o coronavírus deixará de circular. Do contrário, a covid não será controlada.

Mesmo países com altas taxas de vacinação, como é o caso de Israel, experimentaram picos significativos de transmissão por não terem atingido a imunidade coletiva necessária.

Além disso, há uma parcela expressiva da população que ainda não se imunizou completamente ou que, por questões de saúde, não pode se vacinar. Quem pode se imunizar e não o faz coloca essas pessoas em risco.

Você toma vacina para quê? Para ter anticorpos, não é isso? A minha taxa de anticorpos está lá em cima."
Presidente Jair Bolsonaro em live semanal

É FALSO dizer que quem já contraiu covid não precisa se vacinar pois já tem anticorpos. É preciso garantir a proteção mais completa possível, pois as pessoas têm respostas imunes diferentes ao vírus. Há quem tenha contraído a doença, por exemplo, mais de uma vez.

É necessário levar em conta também o fato de que não se sabe ainda, ao certo, quanto tempo a proteção dura. Pessoas que contraíram a doença no começo da pandemia apresentaram, depois de alguns meses, taxas baixas de anticorpos. Ou seja, a imunidade adquirida por pessoas que tiveram a doença provavelmente não é duradoura, normalmente diminuindo progressivamente com o passar de poucos meses.

E como já dissemos, a vacinação é peça-chave para coibir a circulação do vírus e evitar que surjam novas variantes que podem ser resistentes tanto às vacinas, quanto aos anticorpos desenvolvidos por quem já contraiu a doença.

Quando se fala em inflação no mundo todo, vem em função, em grande parte, daquela política do 'fica em casa, a economia a gente vê depois'."
Presidente Jair Bolsonaro em live semanal

A declaração de que a atual inflação está relacionada com as políticas de isolamento social durante a pandemia é FALSA, como o UOL Confere já mostrou em checagens anteriores.

Segundo especialistas ouvidos pelo UOL Economia, a alta nos preços não tem relação com as medidas de restrição para conter o coronavírus.

A aceleração da inflação tem uma série de causas. Há uma quebra da infraestrutura logística no mundo todo, desde o início da pandemia, e isso fez com que alguns produtos essenciais ficassem escassos, o que aumentou os preços.

Além disso, o dólar subiu de maneira considerável, fazendo com que os produtos importados e insumos lá de fora necessários para produção aqui no Brasil também sofressem fortes altas.

Há também fatores que vêm surgindo nos últimos meses, como a crise hídrica, que encarece a conta de luz no país todo. Outro fator foram as ondas de frio deste inverno, que prejudicaram a produção de alimentos e fizeram com que os preços disparassem. Mais um elemento responsável por puxar a inflação foi o combustível, que teve alta porque a Petrobras optou por seguir os preços internacionais do petróleo.

O marco temporal é um perigo, é um risco para a segurança alimentar do Brasil e para a segurança alimentar do mundo."
Presidente Jair Bolsonaro em live semanal

Não há evidências de que a não aprovação do marco temporal causará escassez de alimentos. Portanto, a afirmação é INSUSTENTÁVEL. A medida, da qual o presidente é defensor, prevê o direito à demarcação apenas aos povos indígenas que estavam na área quando a Constituição de 1988 foi elaborada. Do outro lado, povos indígenas alegam terem sido expulsos de seus territórios e buscam destravar mais de 310 disputas judiciais sobre o tema.

O diretor de Políticas Agrícolas e Informações da estatal Conab (Companhia Nacional de Abastecimento), Sergio De Zen, declarou à agência Reuters que a expansão da produção brasileira não deve ser afetada caso o STF (Supremo Tribunal Federal), que está julgando a tese, rejeite a ideia.

Segundo ele, o agronegócio brasileiro deve continuar crescendo, mas com base em aumento da produtividade, e não em expansão de terras. De Zen afirmou ainda que é possível crescer a área plantada usando o mesmo território, investindo em ações como segundas safras de milho e soja e integração com a floresta, usando tecnologia e métodos modernos.

Ambientalistas e defensores dos direitos indígenas afirmam que as áreas indígenas atualmente reivindicadas e que poderiam ser demarcadas caso seja rejeitada a tese do marco temporal têm uma extensão bem menor do que aponta Bolsonaro.

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