Com depoimentos semelhantes, Nardonis choram, se dizem inocentes, atacam polícia e investigações

Rosanne D'Agostino*
Do UOL Notícias

Em São Paulo

Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá levaram aproximadamente cinco horas cada para apresentarem suas versões sobre a morte de Isabella Nardoni, 5, que caiu do 6º andar da janela do edifício London, em São Paulo, em março de 2008. Este foi o quarto e mais tenso dia de júri popular do pai e da madrasta da menina, réus por homicídio triplamente qualificado e fraude processual. A sessão foi interrompida às 20h53 desta quinta-feira (25) e será retomada nesta sexta, quando deve sair o veredicto: culpados ou inocentes.

Ao júri, o casal se disse inocente, embora sua própria defesa admita que a chance de absolvição é pequena. Alexandre foi às lágrimas ao ver a mãe, Maria Aparecida, que foi pela primeira vez ao plenário, e pediu para falar de frente para os jurados. Jatobá demonstrou desespero no início do depoimento, soluçando e parecendo chorar. Ana Oliveira, mãe de Isabella, passou mal, foi examinada por um psiquiatra e liberada ainda pela manhã após a desistência da defesa em fazer uma acareação, saída somente divulgada ao final do dia.

Falta de socorro x acordo por confissão x terceira pessoa
Alexandre Nardoni disse que teve desentendimentos no edifício London, mas não suficientes, segundo ele, para justificar alguém fazer aquilo com Isabella. “Perdi o que tinha de mais valioso na minha vida”, afirmou, chamando a filha de princesinha. Chorou. Depois, disse que chegou a receber uma proposta de acordo para assumir sozinho um homicídio culposo (quando não há intenção de matar), livrando a mulher, e que sofreu achaque da polícia, ficando praticamente detido na delegacia na noite e no dia seguinte ao crime.

O advogado de defesa, Roberto Podval, mostrou um vídeo do Instituto de Criminalística com toda a dinâmica de como a polícia acredita que tudo aconteceu. Nardoni apontou para a tela cortada da janela e disse que estava diferente. “Era um buraco menor, não dava para passar uma cabeça.” Mais tarde, seria questionado pelo promotor Francisco Cembranelli: “A sua cabeça tem 1,5 metro?”, provocando a reação de Alexandre. O juiz Maurício Fossen pediu o fim das perguntas irônicas.

Outro ponto levantado pelo promotor, que chegou a dizer que Nardoni tinha um “choro sem lágrimas”, foi o de Alexandre não ter chamado socorro ao ver a filha estirada no jardim. A resposta foi evasiva, e o pai chegou a dizer que foi porque se tratava de uma situação “embaraçosa”. Já sobre se teria gritado que havia ladrão no edifício, Alexandre negou, diferente do que já havia afirmado sobre a presença dessa terceira pessoa na cena.

Fralda x Buraco em tela x ciúme
Já Anna Jatobá fez questão de frisar pontos mesmo antes de ser questionada. “Excelência, eu quero é deixar bem claro que não tinha fralda no carro” e “quero deixar claro que a camiseta dele estava seca, normal, não tinha vômito”, ao contrário do que dizem as investigações. Ela também disse que a polícia tentou que ela delatasse Alexandre, dizendo que ela não tinha ensino superior, por isso, se daria mal na cadeia caso fosse presa.

Sobre a vida em família, concordou com Alexandre que o casal tinha brigas que eles consideram normais. Disse amar os filhos e afirmou que sempre cuidou de Isabella “com muito amor e carinho”. “Ela queria ficar na minha casa, diziam até que eu gostava mais dela do que dos meus filhos.” Sorriu pela primeira vez no júri quando o advogado pediu que ela se acalmasse. Depois, disse que nunca mais entrou em contato com a mãe de Isabella. “Na cabeça dela, fui eu que tirei a vida da Isa”, disse, logo questionada pelo promotor sobre como ela tinha certeza daquilo. “Eu vi na televisão que ela falou na polícia.”

A perguntas dos jurados, Jatobá disse, assim como Alexandre havia dito, que nunca tirou sangue para fazer exames. Não soube explicar para onde foi uma picape preta que entrou na garagem, segundo ela, com o som alto, no dia em que ela esperava por Nardoni no apartamento com Isabella. Afirmou que usou a tesoura para cortar carne, mas não a faca, que não estava amolada.

Ela questionou ainda o tamanho do buraco na tela de proteção, mostrando com as mãos o tamanho, menos de 30 centímetros de diâmetro. “Era do tamanho de uma cabeça. Eu lembro que até falei ‘que estranho o tamanho do buraco’.” Segundo a madrasta, Alexandre encostou na tela com o filho Pietro no colo.

A assistente de acusação, Cristina Christo Leite, tentou ainda tirar a credibilidade da madrasta, trazendo boletins de ocorrência em que ela havia mudado de ideia sobre uma agressão do pai. Jatobá admitiu que mentiu quando disse que o pai não a havia agredido. Ela também trouxe uma acusação de estelionato a que ela teve que responder por causa do pai.

Jatobá também disse que, depois que conheceu Alexandre, não tinha mais amigos e virou dona-de-casa. E que não se incomodava de ter o mesmo nome da ex do marido. “Uma vez ela [Oliveira] até me falou, não me lembro bem, que era ‘errar duas vezes é burrice’, o ditado, mas não me recordo”, disse a madrasta.

Já a defesa focou no sonho do casal, que acabara de se mudar para uma nova casa. E questionou ambos se eles tinham explicação para tudo aquilo que tinha acontecido. “É um mistério para o mundo inteiro, para mim também é um mistério. Me pergunto todos os dias o que aconteceu”, disse Jatobá. “Não tem explicação”, afirmou Alexandre Nardoni.

 

O que ainda deve acontecer
Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá são réus por homicídio triplamente qualificado e fraude processual (entenda as acusações). O julgamento teve início nesta segunda-feira (22), quando o casal se encontrou pela primeira vez desde maio de 2008, e deve durar até o final desta semana.

O casal é julgado por quatro mulheres e três homens, sorteados no primeiro dia de sessão. Destes, cinco nunca participaram de um júri.

Em seguida, foram tomados os depoimentos das testemunhas. Os réus foram os últimos a serem ouvidos. Depois, ocorrem os debates, quando defesa e acusação apresentam seus argumentos. São duas horas e meia para cada (por se tratarem de dois réus), o que deve ocupar toda a sessão de sexta-feira (26). Se o Ministério Público pedir réplica, de duas horas, a defesa tem direito à tréplica, também de duas horas.

Ao final, o júri se reúne em uma sala secreta para responder a quesitos formulados pelo juiz. Eles decidirão se o casal cometeu o crime, se pode ser considerado culpado pela atitude, e se há agravantes ou atenuantes, como ser réu primário. De posse do veredicto, se houver condenação, o juiz dosa a pena com base no Código Penal. Se houver absolvição, os Nardoni deixam o tribunal livres. A sentença deve sair ainda na noite de sexta.

Primeiros dias de julgamento
No primeiro dia do júri, prestou depoimento Ana Carolina Oliveira, mãe de Isabella. Ela chorou por pelo menos três vezes, provocou o choro de ambos os réus e relatou o amor de Alexandre pela filha e o ciúme que a madrasta teria da relação do marido com a menina e com sua ex-mulher.

O segundo dia de júri foi marcado pelas fotos do corpo de Isabella no IML (Instituto Médico Legal), que chocaram muitos dos presentes. Um dos peritos convocados disse que alguém tentou calar os gritos de Isabella, que morreu de asfixia, fruto de uma esganadura, e da queda do prédio. Pouco antes, ela teria sido atirada com força ao chão, segundo a perícia.

Já o terceiro dia de julgamento finalizou a fase das oitivas das testemunhas, com a desistência da defesa em ouvir os depoimentos que havia convocado. Pela acusação, a perita Rosângela Monteiro, do Instituto de Criminalística, afirmou que marcas na camiseta de Alexandre Nardoni são compatíveis com as de alguém que atirou Isabella pela janela do apartamento. Irônica, ela provocou a reação indignada do réu.

* Com informações de Daniela Paixão

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