Comerciantes ameaçam atear fogo ao corpo para evitar derrubada de barracas na BA

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Em Salvador

  • Lúcio Távora/Agência A Tarde/AE

    Com tratores, funcionários da Prefeitura de Salvador derrubaram barracas de praia na orla da cidade; os trabalhos começaram ontem e continuam hoje

    Com tratores, funcionários da Prefeitura de Salvador derrubaram barracas de praia na orla da cidade; os trabalhos começaram ontem e continuam hoje

No segundo dia de operação para demolir barracas nas praias da Bahia, um grupo de comerciantes ameaça atear fogo ao próprio corpo caso as autoridades efetuem a derrubada de 66 barracas na tarde desta terça-feira (24), na praia de Ipitanga, em Lauro de Freitas (região metropolitana de Salvador).

Os comerciantes estão com garrafas de gasolina presas ao corpo. Técnicos da Prefeitura de Salvador, policiais federais, militares e da guarda municipal ainda não iniciaram os trabalhos. Eles aguardam o resultado de uma ação cautelar, movida pela prefeita de Lauro de Freitas, Moema Gramacho (PT), pedindo o adiamento da derrubada das barracas. O argumento é o de que, embora oficialmente a praia pertença à cidade de Salvador, ela é administrada pela prefeitura da cidade vizinha.

Ontem, no primeiro dia da ação, os barraqueiros impediram a ação dos fiscais, montando barricadas e bloqueando o trânsito em ruas próximas à praia. Ao todo 102 barracas foram demolidas, de acordo com informações da prefeitura.

A determinação de demolição dos empreendimentos partiu do juiz Carlos D’Ávila, da 13ª Vara da Justiça Federal. De acordo com ele, as barracas foram construídas ilegalmente porque ocupam uma faixa de areia que pertence à União. Em sua sentença, o juiz escreveu que a orla de Salvador está “favelizada, imunda, entupida de armações em alvenaria”, e a construção das barracas “reduziu as praias da cidade, outrora belas, no mais horrendo e bizarro trecho do litoral das capitais brasileiras”, tudo isso, “sob o beneplácito de desastrosas permissões de uso, outorgadas pelo Executivo local”.

3.000 desempregados
A decisão da Justiça Federal de mandar demolir todas as 353 barracas de praia de Salvador (outras 127 foram derrubadas no primeiro semestre) deixou 3.000 pessoas desempregadas, segundo o presidente da Associação de Barraqueiros, Alan Rabellato, e acabou com o sonho de alguns empresários que chegaram a investir até R$ 500 mil em seus estabelecimentos nos últimos anos.

“Tenho uma filha de oito anos para criar e não sei o que vai ser da minha vida”, disse a cozinheira Ana Rita de Mendonça, 35, que há quase duas décadas trabalhava em uma barraca construída na praia de Patamares e que foi derrubada na manhã desta terça-feira (24).

Chorando muito, a comerciante Aline Brito de Souza disse que investiu R$ 400 mil em seu estabelecimento. “O que estão fazendo com a gente é um crime. Em poucos segundos, a minha vida ruiu também.” Fornecedora de sombreiros para os comerciantes, Adriana Furtado teve a mesma reação. “Tenho 16 funcionários, todos com carteira assinada. A partir de agora, não tenho alternativa, a não ser efetuar a demissão de todos eles.”
O advogado da Associação de Barraqueiros, João Maia, responsabilizou a Prefeitura de Salvador pelas demolições. “O prefeito pediu a demolição e, agora, quer se fazer de vítima.”

Em nota, o prefeito João Henrique Carneiro (PMDB) disse que sempre procurou uma solução negociada para o impasse.

Estabelecimentos luxuosos
Muitas das barracas derrubadas por decisão da Justiça Federal ofereciam luxo e conforto para os seus clientes. Os estabelecimentos localizados na praia do Flamengo, por exemplo, colocavam à disposição dos baianos e turistas internet sem fio, sessões de massoterapia, música eletrônica, seguranças particulares, DJs, espaços gramados para as crianças se divertirem e locais para a realização de festas e casamentos.

O empresário Sílvio Ferreira, dono da barraca Cancún Beach, disse que investiu cerca de R$ 600 mil no estabelecimento. “Durante o verão, aos domingos, chegava a lucrar R$ 12 mil. Isto é o investimento de uma vida inteira”, acrescentou o empresário, que tinha 12 funcionários contratados. “Nos dias de grande movimento eu também dava emprego a alguns diaristas.”

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