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Cotidiano

Dois anos após ocupação no Alemão, moradores contam realidade que não passa na novela

Felipe Martins

Do UOL, no Rio de Janeiro

28/11/2012 06h00

Logo no primeiro capítulo da novela "Salve Jorge", da TV Globo, uma emblemática cena é apresentada ao espectador. O capitão do Exército interpretado por Rodrigo Lombardi finca a bandeira do Brasil no alto de um dos morros do complexo do Alemão, segundos depois de uma voz ao fundo pronunciar “Vencemos. Trouxemos a liberdade pra população do Alemão”.  A reportagem do UOL caminhou pelas comunidades do Alemão e encontrou uma realidade diferente; sob a aparente tranquilidade, moradores se sentem acuados diante do poder oficial e do chamado poder paralelo, dois anos após a entrada das forças de segurança no local, em 28 de novembro de 2010.

Um sintoma do medo que ainda impera no Alemão: muitos moradores concordaram em falar apenas ao ter a certeza de que seus nomes não seriam publicados.  Um morador da comunidade Coqueiros contou: “Os moradores perderam o respeito com os soldados do Exército quando viam eles [sic] fumando maconha atrás das estações do teleférico”.

Outro disse mais: “O problema é que veio muito soldado da Rocinha, que é dominada por outra facção, esculachar morador, dar tapa na cara de morador, isso só foi diminuindo quando os moradores denunciavam e esses caras eram tirados daqui”, relatou.

O fotógrafo Maycom Brum, 25 anos, criado no complexo, descreveu as dificuldades que os militares impunham para o exercício de sua profissão. “Me abordavam diversas vezes, eles queriam me proibir de fotografar o local onde eu moro há 25 anos”, disse Maycom, integrante do Instituto Raízes em Movimento, ONG com atuação social no Complexo do Alemão. 

Em setembro de 2011, um retrato da difícil convivência. Militares da Força de Pacificação entraram em confronto com moradores da comunidade Alvorada. A versão do Exército dá conta que pessoas alcoolizadas em um bar insultaram os soldados e atiraram uma garrafa, dando início ao tumulto. Segundo os moradores, soldados ordenaram que o volume do som do bar fosse diminuído, causando a revolta de quem estava ao redor.

Um cinegrafista amador gravou a confusão e postou em uma página de vídeos na internet. Balas de borracha, spray de pimenta e até bombas de efeito moral foram lançados pelos militares contra a população, que revidou arremessando paus e pedras. Pelo menos cinco moradores ficaram feridos. 

“O Exército tinha um problema muito grande de convivência, pois eles não são treinados para mediação de conflito ou em espaços de diálogo com a sociedade. O Exército prendeu muitos jovens no Alemão por simplesmente estarem nos lugares de sociabilidade, qualquer coisa era desacato”, disse o jovem fotógrafo.

Relação entre Exército e moradores é distante no Alemão

A polícia e o medo

Em 9 de julho deste ano, após um ano e sete meses, o Exército deixou definitivamente os complexos do Alemão e da Penha. As UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora) comandadas pela Polícia Militar já eram realidade nas comunidades.  São quatro UPPs no Complexo do Alemão, com efetivo de 1.238 policiais, e mais quatro no complexo da Penha, com 920 PMs. Um modelo que ganhou apoio da população com resultados expressivos na redução da violência. Ainda durante a presença do Exército, a taxa de homicídio, segundo dados oficiais, apresentou queda de 86% em 2011, comparada ao ano anterior.

Com a saída do Exército e a entrada definitiva da PM, o tráfico deflagrou nova ofensiva. Policiais foram vítimas de ataques consecutivos até que, em 23 de julho deste ano, um atentado à sede da UPP Nova Brasília vitimou a policial Fabiana Andrade de Souza, 30.

Os moradores do Complexo do Alemão abordados por esta reportagem, entretanto, ou não quiseram comentar a ocupação policial ou criticaram a presença dos agentes. A melhor opinião veio de uma senhoras na comunidade das Palmeiras que afirmou que “as coisas melhoraram mais ou menos”, disse.  “Mas eu não sei de nada não moço, minha vida é ficar em casa e ir para a igreja”, desconversou.

Lucia Cabral, presidente da ONG Educap, que promove ações de educação, saúde e cidadania no complexo do Alemão, faz severas críticas à atuação dos agentes da Polícia Militar. Segundo ela, inocentes são vítimas constantes do abuso policial nas favelas. “Persiste a cultura na polícia de que morador de comunidade não presta, é bandido. Para parte deles, o pobre é vagabundo que não se dá o respeito. Esse estigma ainda é muito forte”, disse.

  • Reprodução/TV Globo

    Na novela, capitão do Exército interpretado por Rodrigo Lombardi finca bandeira do Brasil no Complexo do Alemão

Um morador que preferiu não se identificar contou que sofreu agressão moral por parte de um PM quando estava indo comprar um ingresso no cinema da comunidade Nova Brasília. “Uma vez eu não deixei que um amigo que estava bêbado agredisse um PM que foi chamado para separar uma confusão. Esse policial me marcou. Fui dias depois comprar um ingresso e esse policial apontou a arma na minha cara e disse que eu era um porco vindo do chiqueiro”, contou.

“Eu vi um menino que estuda aqui na ONG ser perseguido por um policial empunhando um fuzil. Esse menino carregava dois sacos de pão cada um em uma mão, mas o policial já achou que pudesse ser algo suspeito, achou que fosse droga. Um poder que deveria transmitir segurança só transmite insegurança”, disse a presidente da ONG Educap.

Voz a favor das UPPs nos complexos do Alemão e da Penha, um morador que, apesar disso, também pediu para não ter o nome identificado, apontou o fim da guerra entre facções rivais como um alívio trazido pela ocupação policial. “Antigamente, na Estrada do Itararé [acesso às comunidades da Grota e Nova Brasília] não dava para andar à noite. Volta e meia tinha guerra entre o Terceiro Comando e o Comando Vermelho. Isso acabou. Com certeza, tá melhor para o morador”, afirmou.

“Minha casa antes da pacificação valia R$ 8.000, e ninguém queria comprar. Agora, com a polícia aqui, vale R$ 40 mil e chove gente querendo”, completou.

Procurado pela reportagem do UOL, o comando das UPPs informou em nota que na estrutura da Coordenadoria de Polícia Pacificadora existe um setor destinado à investigação policial e outro destinado à correção de condutas atuando de modo integrado, além da SME (Supervisão de Médio Escalão), que ronda diariamente as UPPs fiscalizando o trabalho dos agentes. Ainda segundo a nota um telefone é destinado a denúncias por parte da população sobre atuação policial (21 2334-7599).

A nota informa ainda que apenas 1% do efetivo total das UPPs, hoje em 6.811 policiais, responde a algum processo disciplinar.

Já o Exército informou em nota que os militares que integraram a Força de Pacificação passaram por intenso programa de instrução, o qual incluiu rigorosa padronização de procedimentos, particularmente com civis. As denúncias de incidentes isolados geraram investigações e apurações dos responsáveis, conforme o que está previsto no ordenamento jurídico vigente.

De acordo com o Exército, a atuação das tropas no Complexo do Alemão teve por objetivo proporcionar um ambiente de segurança à população, alterando o mínimo possível a vida da comunidade. Segundo a nota, os integrantes da Força de Pacificação interagiram muito bem com o público durante todo o período de ocupação, obtendo elevado índice de credibilidade e confiança dos residentes das comunidades.

Por fim, o Exército declara que a presença das tropas contribuiu para o desenvolvimento social das comunidades, na medida em que agências de serviços públicos essenciais, bem como estabelecimentos comerciais e de entretenimento, foram instalados.

De poder paralelo a poder oculto

A personagem Morena, interpretada pela atriz Nanda Costa na produção da TV Globo, tem um filho com um dos chefes do tráfico do Alemão. Não fica claro na novela a origem do relacionamento, mas na vida real moradores do Alemão contaram que algumas jovens acabam seduzidas pelo poder local do traficante.

“Até antes da pacificação, era comum os traficantes desfilando nos bailes com fuzil na mão. Eles pegavam muita mulher, muita menina novinha que achava que teria respeito ao lado deles”, afirmou um jovem morador.

Em um vídeo divulgado pelo Exército, crianças debocham dos militares fazendo com as mãos os símbolos do CV (Comando Vermelho) e do TC (Terceiro Comando). Para Ignácio Cano, professor de Ciências Sociais e membro do Laboratório de Análises da Violência da UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), a relação entre morador e traficante caminha em duas vias paralelas. “Uma relação construída ao longo do tempo, sempre com dois componentes, intimidação e sedução que afirma sua identidade com a força, com a arma”, disse o professor.

“Em parte, a polícia substitui esses dois componentes do tráfico nas comunidades ocupadas. Esse discurso tem que ser combatido, não tem porque existir nem para o tráfico, nem para a polícia. As crianças não têm porque se identificar com essa ideia de força física”, concluiu.

Para Lúcia Cabral, entretanto, o fato de todos viverem desde a infância no mesmo ambiente acaba tornando a convivência natural. “Muitas vezes, essas meninas crescem ao lado desses garotos e não os discriminam pelo fato de serem bandidos. Também é verdade que para muitos desses moradores esses jovens que são considerados monstros pela maioria da sociedade são vistos como heróis”, disse. “Essa é uma identidade cultural difícil de quebrar. Na minha opinião, são jovens que foram marginalizados pela sociedade e sem opção de mudança.”

O secretário de Segurança Pública, José Mariano Beltrame, afirma constantemente que o objetivo das UPPs não é pôr fim definitivo ao tráfico de drogas, mas devolver o território ao Estado para que as políticas sociais possam entrar nas comunidades pacificadas.  Lucia Cabral aponta o fim da presença ostensiva do armamento do tráfico na comunidade como fator positivo das UPPs. “Sem dúvida o fato de não se ver mais traficante portando fuzil na comunidade é algo bom, não tem mais o poder bélico, não tem mais o criminoso fortemente armado, armamento pesado agora só com a polícia”, disse.

“Aqui é assim, amigo: a gente não pode falar nada. Se “caguetar”, morre. Já vi X9 passar amarrado na minha frente pra ir pra vala porque descobriram que falou demais”, disse um homem antes de perguntar cinco vezes se seu nome não seria publicado na reportagem.

Mais um morador que pediu para não ser identificado presenciou um instante da tensa relação entre morador e traficante. “Os traficantes mais novos já não tinham respeito pelo morador. Eu vi um deles ameaçar bater na minha vizinha, uma senhora de idade, porque ela pediu que ele saísse da porta da casa dela com o fuzil”, contou.

“O tráfico nunca vai acabar no Alemão. Isso não tem jeito. A polícia quer levar o seu. O traficante quer levar o seu. Claro que tem conchavo entre polícia e tráfico. Tem um policial chamado Careca que ameaça os moradores de morte. O que eles (os policiais) querem é ganhar dinheiro”, disse a moradora de um barraco em uma das áreas mais pobres do Alemão.

“Estamos no meio de duas ações, uma lícita e outra ilícita, que se comunicam entre si e ao mesmo tempo vivem em conflitos. Sofrem os mais fracos. Esse é o único jeito de ser feliz, a neutralidade entre os moradores. É uma guerra calada que vivemos e não sabemos nunca quem são os vitoriosos”, sintetizou Lucia Cabral.

A ocupação

A ocupação nos complexos do Alemão e da Penha foi uma resposta do poder do Estado à onda de violência iniciada em 21 de novembro de 2010 pelo Comando Vermelho em bairros das zonas sul, norte e oeste da capital, Niterói, Sâo Gonçalo, municípios da Baixada Fluminense e da Região dos Lagos.  Veículos foram incendiados, cabines da polícia metralhadas, além de ocorrências de arrastões e tiroteios.

Os criminosos, armados de fuzis em plena via pública, rendiam os donos dos veículos em ações que desafiavam a polícia. A secretaria de Segurança Pública atribuía os ataques à reação dos bandidos à política de UPPs iniciada pelo Governo do Estado. O secretário José Mariano Beltrame pediu com urgência a transferência de criminosos para presídios federais.

O serviço de inteligência da Secretaria de Segurança detectou que a ordem dos ataques partia do complexo do Alemão, o quartel-general do Comando Vermelho. No dia 25, a primeira reação das forças do Estado, uma megaoperação articulada entre as polícias do Rio e as Forças Armadas foi iniciada no Complexo da Penha. O comandante do Estado Maior da PM, Álvaro Garcia, pedindo aos cariocas que não saíssem de casa naquele dia, sintetizou o ambiente instalado no Rio: “Estamos em uma guerra”.  Uma imagem ganhou o mundo: traficantes correndo em fuga pela mata na Vila Cruzeiro, no Complexo da Penha, em direção ao Alemão.

Mais de 50 pessoas foram mortas durante a onda de violência, segundo a polícia, a maioria ligada ao crime organizado. Dentre os inocentes atingidos, quatro moradores foram mortos atingidos por balas perdidas em um confronto de policiais e traficantes no complexo da Penha e um motorista foi morto durante um arrastão em São Gonçalo. Mais de cem veículos foram queimados e cerca de 300 pessoas foram presas durante os dias dos atentados.

Em 28 de novembro de 2010, a ocupação do Alemão. Cerca de 2.600 homens das polícias Civil e Militar e combatentes das Forças Armadas ocupam o complexo. Tanques de guerra dos fuzileiros navais e do Exército adentravam as favelas, destruindo barricadas do tráfico.  Mais de quatro toneladas de maconha foram apreendidas durante a ação.  O traficante conhecido como Zeu, acusado de participar do assassinato do Jornalista Tim Lopes, foi preso.  Por volta de 14h, a bandeira do Estado do Rio de Janeiro foi hasteada por policiais ao lado da bandeira do Brasil no alto do local onde mais tarde seria inaugurado o teleférico do Alemão.

A TV Globo afirmou em resposta a UOL, por meio de sua central de comunicação, que as novelas são obras de ficção sem compromisso com a realidade. Segundo a emissora, em “Salve Jorge”, são recriadas livremente situações tendo como um de seus panos de fundo o Complexo do Alemão. A Globo informa ainda que o tema principal da novela é o tráfico de pessoas e não a pacificação, mesmo assim igualmente tratado no campo ficcional.

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