Na infância, preconceito fez Benedita da Silva querer deixar de ser negra

Luciana Pioto

Do UOL, em São Paulo

  • Lula Marques/Folhapress

    Benedita da Silva

    Benedita da Silva

O cargo político não me livrou do preconceito", afirma a deputada Benedita da Silva (PT-RJ), 72 anos, ao lembrar que, na infância, a discriminação racial a fez ter vontade de não ser negra.

"Tive atitudes horrorosas de negação da cor da minha pele. Mas o apoio de uma criança branca me fez dar a volta por cima antes de chegar à adolescência", afirmou.

Ao tomar conhecimento de um creme clareador de manchas na pele, promovido por uma estrela pop africana que ficou branca após usá-lo, a deputada defende o direito dos negros de fazer tratamentos estéticos na pele e no cabelo, mas alerta: "Não podemos chegar ao ponto de perder nossa identidade".

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Para ela, a situação dos negros brasileiros atualmente é muito melhor do que na década de 1960, quando a imagem vinculada a eles era a de pessoas ignorantes e feias.

Benedita conta que, no período em que a África do Sul viveu o apartheid, o Brasil tinha exemplos mais sutis de segregação: "Não havia placas restringindo negros de frequentarem locais públicos, mas os brancos não sentavam ao nosso lado no ônibus", recorda.

A deputada entende que, hoje, há muito mais referências de negros belos e bem sucedidos, mas que o padrão de beleza continua sendo branco, assim como jovem e magro. Nesse sentido ela acredita na força da televisão, como um meio rápido e direto de valorização da diversidade, e da escola, como fonte de transmissão da cultura negra.

Negros rejeitam creme clareador e falam de preconceito em SP

Filha de pais analfabetos, e única entre 15 irmãos a cursar ensino superior, Benedita diz ainda enfrentar barreiras: "O discurso é mais refinado. As sutilezas vão se colocando. Mas quando se sentem ameaçados pelos negros, eles [brancos] colocam as coisas claramente", desabafa.

A deputada diz que poucos colegas se interessam em lutar por políticas públicas favoráveis à igualdade racial. Para ela, tanto as cotas, quanto o programa federal Mais Médicos, são alvo de preconceito.

"As pessoas rejeitaram cubanos e negros que chegaram para ocupar um espaço até então dominado por brancos", analisa.

"Não adianta o negro ocupar os espaços, porque mesmo sendo um bom médico, ou um bom jogador de futebol, pode ser chamado de macaco", lamenta ela, complementando que, mesmo no cargo de deputada, continua lutando contra a discriminação racial.

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