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Com 7 prefeitos em 5 anos, Mariana tem crise política e economia em risco

Divulgação/Facebook
Duarte Júnior (PPS) é o sétimo prefeito de Mariana em apenas cinco anos Imagem: Divulgação/Facebook

Wellington Ramalhoso

Do UOL, em São Paulo

12/11/2015 11h38

Afetado pelo desastre ambiental e humanitário provocado pelo rompimento de duas barragens da mineradora Samarco, o município de Mariana (MG), a 115 km de Belo Horizonte, tem vivido sucessivas crises políticas. Teve nada menos do que sete prefeitos em cinco anos. Nenhum dos três últimos eleitos conseguiu concluir o mandato.

Adversários políticos admitem que as constantes mudanças prejudicaram o município e aumentaram a dependência dele em relação à atividade mineradora.

A Samarco, controlada pela Vale e pela anglo-australiana BHP Billiton, é responsável por mais de 80% da receita de Mariana, segundo o prefeito Duarte Eustáquio Júnior (PPS).

O orçamento da prefeitura para 2015 previa uma arrecadação total de R$ 324 milhões, valor que não deve ser atingido. Antes mesmo do desastre, a administração demitiu funcionários e rescindiu contratos de prestação de serviço.

Nesta quarta-feira (11), Júnior estimou em R$ 100 milhões o prejuízo em infraestrutura do município por causa da tragédia. Depois do rompimento das barragens, o governo de Minas Gerais determinou a suspensão das atividades de mineração da Samarco em Mariana, o que deve diminuir ainda mais a arrecadação municipal. 

“Atrasada”

“Havia um clima de muita disputa política. Até de insensatez. Na medida em que se troca de prefeito constantemente, não dá para levar um plano adiante. Não houve continuidade administrativa, e os danos são irreparáveis”, afirma o ex-prefeito Roque José de Oliveira Camello (PSDB), cassado pelo TSE (Tribunal Superior Eleitoral) em 2010.

“[A sucessão de crises] enfraqueceu e muito a cidade. Havia um plano sendo desenvolvido para que a cidade não ficasse dependente de uma única fonte, que é o minério. Havia um programa para sair devagar dessa dependência.”

Para o tucano, Mariana tem de apostar no turismo e na expansão do ensino universitário para diminuir a dependência da mineração. O turismo depende em parte da recuperação do patrimônio histórico --Mariana foi a primeira cidade e a primeira capital de Minas.

Ildeu Alves da Silva, presidente do diretório municipal do PTB, partido que tem rivalizado com o PSDB, diz que a descontinuidade administrativa prejudica os projetos de reforma de construções históricas. “Mariana está muito atrasada nisso.”

Diante do desastre ambiental que ameaça a economia da cidade, tucanos e petebistas dizem que o momento é de apoio ao prefeito Duarte Eustáquio Júnior, que era o vice na chapa de Celso Cota (PSDB), cassado em junho.

“A gente não está fazendo oposição. Estamos caminhando junto [com o prefeito] pelo bem da cidade”, declara o petebista Alves da Silva.

“O PSDB está solidário ao prefeito, continua apoiando. Tem que apoiar mesmo porque está em jogo um bem maior, o presente e o futuro do município”, diz Camello.

O tucano entende que a Samarco é a responsável pelo desastre, mas, como o prefeito, defende a retomada das atividades da empresa. Se a suspensão da mineradora for mantida, Camello diz que o município precisará de ajuda financeira dos governos mineiro e federal.

Idas e voltas na prefeitura

A primeira troca fora do calendário eleitoral aconteceu em fevereiro de 2010, quando Roque Camello foi condenado pelo TSE. Acusado de compra de voto na campanha eleitoral de 2008, ele teve de deixar o comando de Mariana pouco mais de um ano depois de assumir o cargo. Acabou condenado por perder o prazo de apresentação de sua defesa.

A Justiça Eleitoral determinou que Therezinha Ramos (PTB), segunda colocada na eleição de 2008, assumisse o cargo. Seu mandato logo sofreu uma interrupção. Acusada de gasto ilícito de verbas na campanha eleitoral, ela foi condenada pela Justiça Eleitoral e afastada em maio de 2010.

Coube ao então presidente da Câmara Municipal, Raimundo Elias Horta (PDMB), comandar a prefeitura até o fim de 2010. Como o Legislativo realiza eleições a cada dois anos, os vereadores tiveram de escolher o novo presidente da Casa e a administração de Mariana trocou de mãos outra vez.

Eleito pelos colegas, o vereador Geraldo Sales de Souza, o Bambu (PDT), tornou-se prefeito no começo de 2011 e ficou no cargo até agosto, quando Therezinha Ramos conseguiu reverter no TRE-MG (Tribunal Regional Eleitoral de Minas Gerais) a decisão judicial de maio de 2010.

Reconduzida em setembro, Therezinha ficou novamente por um período curto à frente do Executivo municipal. Ela sofreu um processo de impeachment por causa da acusação de usar verbas públicas para pagar R$ 98 mil a seus advogados de defesa e acabou cassada pela Câmara.

Roberto Rodrigues (PTB), seu vice, assumiu a prefeitura em 15 de fevereiro de 2012. Lançou-se candidato nas eleições daquele ano, mas perdeu para Celso Cota (PSDB), que tomou posse em 1º de janeiro de 2013.

Cota havia sido prefeito por dois mandatos (2001 a 2008) e trazia daquele período uma condenação por improbidade administrativa. A acusação era de promoção pessoal com verbas públicas. Foi condenado a devolver R$ 80 mil aos cofres do município, a pagar multa de R$ 160 mil e teve seus direitos políticos suspensos.

O tucano obteve uma liminar na Justiça para poder concorrer na eleição de 2012. No último mês de junho, no entanto, o Tribunal de Justiça de Minas Gerais julgou o caso novamente e manteve a condenação anterior, o que representou a cassação de Cota e a chegada de Duarte Júnior ao comando da administração.