Contra estupro, Elza Soares pede união das mulheres e diz ser hora de ir às ruas

Lúcia Valentim Rodrigues

Do UOL, em São Paulo

  • Eduardo Martins/AgNews

    Na Virada Cultural de SP, Elza Soares canta "A Mulher do Fim do Mundo"

    Na Virada Cultural de SP, Elza Soares canta "A Mulher do Fim do Mundo"

Elza Soares usa uma imagem de seu próprio show para exaltar a luta contra a opressão das mulheres: uma rainha negra sentada num trono "pedindo a ajuda de todo mundo".

"Esses símbolos são muito importantes", diz a cantora, que se transformou ela mesma em um símbolo feminista ao tornar públicas as agressões de seu primeiro marido. 

Ela já disse ter levado muita porrada. Literalmente. Foi pobre. Viu filhos morrerem. Teve de enfrentar preconceitos e o vício pela bebida de Garrincha, com quem foi casada por 16 anos. Conseguiu se reinventar por diversas vezes e dar a volta por cima. Hoje alcançou um status de cantora consagrada, que pode cantar palavrão sem chocar, pode falar de sexo, de amor e de perdas.

Já viu muita coisa em seus 78 anos, mas Elza não deixou a dureza da vida a amortecer. Por isso logo se indignou com o estupro coletivo ocorrido com uma jovem de 16 anos no Rio.

Ao tomar conhecimento da notícia, se manifestou nas redes sociais. Em entrevista ao UOL, reclama que a garota teve de se expor para ser ouvida. "Foi preciso que ela caísse nessa emboscada e nessa tortura. A vida dela acabou. Até ela conseguir ter uma vida normal vai ser muito difícil."

E se indigna de novo: "É tão absurdo que até me dói a cabeça". "Não quero acreditar nisso, acreditar que [nós mulheres] ainda temos de passar por isso."

Pedindo mais atitude e mais mulheres na rua, diz que as mulheres precisam protestar. "Vamos reagir, vamos fortalecer. Conta comigo", afirma, para ressaltar que estaria nas ruas com a mulherada, apesar de recentemente ter feito uma cirurgia séria na coluna. "Juro que eu iria, apesar de não estar podendo andar muito, mas iria tranquilamente. Seria ótimo abraçar a bandeira da mulher."

"Tá muito difícil"

"As mulheres têm de ter consciência do que está acontecendo, usar o 180 para denunciar", afirma ela, divulgando o Ligue 180, canal criado pela Secretaria de Políticas para as Mulheres da Presidência para denunciar a violência contra a mulher. A ligação é gratuita.

Ela ressalta que é complicado mudar a sociedade. "Mas podemos dar uma acalmada, sim. Tá muito ruim, tá muito difícil. Temos de denunciar. Disca 180, denuncia, por favor", pede.

"A mulher precisa se guardar, se proteger, denunciar. Além de ter mais cuidado com o corpo, porque a violência está aí."

Ela critica a enxurrada de especialistas que vieram a público dizer como mudar a cultura do estupro: "Agora se fala tudo. Só se fala, mas nada se faz. Não adianta. O negócio é a união da mulher mesmo e acabar com isso. A mulher estando unida tem uma força muito grande. A mulher não sabe a força que tem. Ela estando unida acaba com essa pouca vergonha, com esse disparate, essa coisa indecente, imoral".

Como permitir que a mulher seja tão, tão, meu Deus do céu, tão jogada como lixo?

Ela diz que a sociedade precisa de uma mudança maior e não vê paralelo na violência que sofreu no casamento e a da jovem no Rio. "O mundo mudou muito. Mas precisa mais. Estupro acontece todo dia, toda hora. Tem de parar. Se as mulheres fizerem uma corrente forte, tudo muda."

"Essa menina [vítima do estupro coletivo] precisa se cuidar, passar por um psicólogo e se proteger, porque ela deve estar muito desorientada. Tem de se cercar de quem dê bons conselhos."

A reportagem pergunta se a cantora gostaria de dar um conselho para ela: "Ter mais cuidado com quem anda e com quem fala. Ela se expôs muito. Não se exponha tanto. Ela é muito bonita e não devia ter passado por isso".

E a política? Tem futuro?

"Eu não sei te dizer se tem futuro. No momento, a gente tem de esperar o que vai acontecer, para ver o que vai dar. Eu não sei o futuro. O futuro é muito incerto. Tem de esperar."

Um Congresso com tão poucas mulheres acaba afetando as conquistas feministas e das minorias. Atualmente a proporção de mulheres nas duas Casas Legislativas não supera os 10%. Segundo a última edição do Censo, de 2010, no entanto, são 93,4 milhões de homens no Brasil e 97,3 milhões de mulheres. "Por isso que precisamos de mais mulheres no poder. A gente fala, fala, fala, fala e ainda continua não tendo."

Tenho certeza de que já somos a maioria. Já somos e não sabemos

Elza reforça o discurso da união e de manter a luta: "Precisamos de força, de bastantes mulheres lutando, com atitude. Unindo todas as lutas, os gays, negros, mulheres, seremos a maioria".

"As mulheres cantam com uma força imensa. Elas devem ir para a rua cantando. 'Maria da Vila Matilde' deveria ser o hino das mulheres nas ruas. A música tem muita força e tem o poder de mudar as coisas, sim. Para mostrar o que está acontecendo, contestar o que está aí. Mulheres unidas jamais serão vencidas."

Como inspiração, veja a íntegra da letra de "Maria da Vila Matilde" (do disco "A Mulher do Fim do Mundo", 2015, de Elza Soares; a letra, de autoria de Douglas Germano, tem um subtítulo que faz referência à Lei Maria da Penha: "Maria da Vila Matilde (Porque Se a da Penha É Brava, Imagine a da Vila Matilde!)" e foi gravada com arranjos de Kiko Dinucci, Rodrigo Campos, Marcelo Cabral, Felipe Rosena e Guilherme Kastrup):

Cadê meu celular?

Eu vou ligar pr'180

Vou entregar teu nome

E explicar meu endereço

Aqui você não entra mais

Eu digo que não te conheço

E jogo água fervendo

Se você se aventurar

Eu solto o cachorro

E, apontando pra você,

Eu grito: péguix guix guix guix

Eu quero ver

Você pular, você correr

Na frente dos vizinhos

Cê vai se arrepender de levantar a mão pra mim

E, quando o samango chegar,

Eu mostro o roxo no meu braço

Entrego teu baralho

Teu bloco de pule

Teu dado chumbado

Ponho água no bule

Passo e ofereço um cafezim

Cê vai se arrepender de levantar a mão pra mim

E, quando tua mãe ligar

Eu capricho no esculacho

Digo que é mimado

Que é cheio de dengo

Mal acostumado

Tem nada no quengo

Deita, vira e dorme rapidinho

Você vai se arrepender de levantar a mão pra mim

Cê vai se arrepender de levantar a mão pra mim

Cê vai se arrepender de levantar a mão pra mim

Cê vai se arrepender de levantar a mão pra mim

Cê vai se arrepender de levantar a mão pra mim

Mão, cheia de dedo

Dedo, cheio de unha suja

E pra cima de mim? Pra cima de muá? Jamé, mané!

Cê vai se arrepender de levantar a mão pra mim

 

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