Com móveis, sem espaço, nada de carne de boi: mãe de 6 conta volta à pobreza

Guilherme Azevedo

Do UOL, em São Paulo

  • Reinaldo Canato/UOL

    Afetada pela crise econômica, Rosângela de Santana teve de amontoar seus móveis na entrada da casa por falta de espaço

    Afetada pela crise econômica, Rosângela de Santana teve de amontoar seus móveis na entrada da casa por falta de espaço

Rosângela de Santana, 40, está envergonhada e contrariada com a vida. Ela acabou de sair do banho e tem o cabelo negro, crespo e comprido ainda molhado, tingindo de um azul mais escuro o vestido de algodão azul-claro. Ela sorri timidamente e cora, convidando para entrar.

Rosângela representa o perfil mais característico de uma família da periferia pobre de São Paulo, segundo a Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social: um lar chefiado por uma mulher, que precisa ser mãe e pai e cuidar dos filhos sozinha (no caso dela são cinco filhos, já foram oito, dois morreram e um mora com o pai) e ainda foi vítima de maus-tratos na infância e de violência doméstica em algum momento da vida.

Estatísticas de gênero do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), de 2010, demonstram o avanço do protagonismo das mulheres nos lares: 37,4% dos 57,3 milhões de domicílios registrados no Brasil são chefiados por mulheres. O número de lares chefiados por elas sobe para 41% do total, quando a renda do domicílio é de meio salário mínimo por mês. Nos lares de pessoas pretas ou pardas, com renda de meio salário mínimo, a chefia por uma mulher é ainda maior: 41,5%.

Agora, ela é vítima da crise econômica, que produziu a maior recessão da história brasileira e deixou sem emprego 12 milhões de trabalhadores. Segundo o Banco Mundial, a crise poderá levar 3,6 milhões de brasileiros para abaixo da linha da pobreza, isto é, obrigar uma pessoa a viver com menos de R$ 140 por mês. Entre esses brasileiros em risco, muitos dos que saíram da situação de miséria ao longo das duas últimas décadas.

Trabalhadora doméstica, para Rosângela rareiam agora os dias da faxina com que arruma parte da renda, com um agravante: o aluguel social que a Prefeitura de São Paulo lhe pagava foi cortado (auxílio de R$ 500 interrompido em dezembro de 2016 por falta de recursos, ainda na gestão do prefeito Fernando Haddad, PT).

Uma das consequências foi que, em janeiro, logo no momento em que confiava que a vida estivesse, enfim, melhorando de vez, Rosângela teve de voltar para a casa da mãe. Mas onde acomodar todos os filhos na casa pequena, de apenas três cômodos?

A maior parte dos móveis e utilidades que tinha teve de ficar na parte da frente do imóvel, amontoada nos cantos. E a mãe de Rosângela não aceitou a vinda do neto de 15 anos, que precisou se abrigar na casa do namorado da filha, também adolescente. A família se partiu.

"Até os 26 anos ainda fiz muita coisa errada"

A história de Rosângela é a história de outras Rosas e Ângelas nascidas e abrigadas nas franjas pobres da cidade. Vítima de maus-tratos em casa (ela cresceu sem o pai), fugiu pela primeira vez aos 12 anos e foi morar na rua. Acabou violentada.

Da revolta com a situação de vida para as drogas e daí para a criminalidade foi um caminho infelizmente natural. Enquanto isso, os filhos foram vindo: o primeiro, aos 14, quando arrumou o primeiro namorado. O homem era caminhoneiro e foi quem criou o menino, hoje com 25 anos, que diz há tempos não ver. O último filho, a Lorena, de cabelo cacheado negro, tem pouco mais de 2 anos. Está ali no quarto, sentada sobre a cama de casal da avó, assistindo a um programa infantil na TV, em alto volume. Um outro ruído domina o ambiente: um tanquinho bate roupa no limiar de entrada da cozinha.

"Com a perda do filho [que ficou com o pai] e a violência sexual que sofri, me aprofundei nas drogas, maconha, cocaína e crack. Um período complicado, e eu tinha medo de voltar para casa. Comecei a mexer com o mundo da criminalidade, tráfico, roubos. Até os 26 anos ainda fiz muita coisa errada", recorda, escorada no batente de entrada do quarto que hoje divide com a mãe, colocando à noite um colchão de solteiro junto da cama de casal, onde se deita. Ela sua bastante, porque faz calor no interior da casa de telha, sem laje.

A maternidade foi interrompida pela série de detenções que viria a cumprir. Foram três, que totalizaram oito anos de cárcere: a primeira no Cadeião de Pinheiros, aos 21 anos, depois na unidade prisional feminina no antigo complexo do Carandiru, ambos em São Paulo, e no presídio de Franco da Rocha (Grande São Paulo). "Só recebi visita na primeira cadeia, foi a minha mãe. Na segunda e na terceira ninguém foi me visitar. Fiquei abandonada", recorda, com os olhos marejando.

A primeira casa que teve por sua própria conta foi construída sobre terreno invadido com o dinheiro que obteve do tráfico de drogas. No local, enquanto esteve presa, ficaram a mãe e os filhos de Rosângela. Mas, ao sair da cadeia, há três anos, a casa tinha sido vendida e parte dos filhos fugido da tutela da avó, porque, diz, ela os maltratava.

"Eu sempre usei droga longe dos meus filhos, eu nunca maltratei eles. Fazia coisa errada para não ver meus filhos nunca passarem necessidade." Mas da mãe ficou uma mágoa funda, que quase não dá pé: "Ela não poderia ter abandonado os meus filhos, afinal eles são netos dela".

Reinaldo Canato/UOL
O Jardim São Paulo, em Guaianases, visto da casa onde vive Rosângela, os filhos e a mãe dela

Em nome de Cristo

Um outro destino ela daria para a vida, contudo. O início da transformação foi ainda na cadeia, quando decidiu se converter, por intermédio da igreja Renascer em Cristo --hoje ela congrega na igreja Brasil para Cristo. "Lá [na prisão] conheci a palavra de Cristo e decidi que não ia mais mexer com coisa errada, para ter meus filhos do meu lado." Rosângela diz que nunca mais cometeu crimes ou usou drogas desde então, mas ainda não conseguiu recuperar a guarda formal dos filhos, perdida durante as detenções.

Com o aluguel social de R$ 500, mais o incentivo do Bolsa Família, de R$ 202 (por três filhos), e as faxinas (que chegaram uma época a alcançar três dias por semana, a R$ 100 cada uma), Rosângela estava feliz, morando em casa boa com os cinco filhos (o aluguel era de R$ 600), cheia de fé na vida: "A gente estava caminhando para a frente".

A vida voltou a complicar quando um dos filhos, o Luan, gêmeo do Ryan, de 7 anos, adoeceu gravemente, vítima de meningite e acabou morrendo. Rosângela chora ao lembrar: "Eu fiquei com ele um mês e 15 dias na UTI do hospital Tiradentes. Tive de deixar minha casa na mão da minha filha Letícia [de 14 anos], mas ela é muito irresponsável".

A mãe de Rosângela, Maria Adailze, já avisou à filha que está colocando à venda a casa onde moram, em terreno invadido. Um corretor já esteve por lá, calculando. "Não sei o que vou fazer, não tenho saída, onde vou morar com meus filhos? A única coisa que quero é dignidade."

Apesar da falta de dinheiro, foi Rosângela quem assumiu a responsabilidade de tudo na casa, porque a mãe está doente, vai ser operada e não está trabalhando. Ela agora tem planos de ir buscar ajuda dos pais das crianças. "O problema é que o Ryan [7] e o Gabriel [10] não são registrados com o nome do pai."

"Carne de boi nunca, está muito cara"

Sobre o fogão de quatro bocas há uma panela pequena de alumínio com macarrão instantâneo já pálido e frio, em que se veem, aqui e ali, algumas rodelas de salsicha fatiada. "Era o que eu ia dar para a Lorena antes de vocês chegarem aqui."

Reinaldo Canato/UOL
Com a geladeira vazia

Ela entreabre a geladeira e não há praticamente nada nela, além de algumas garrafas de água e duas ou três panelas. "Ó, a geladeira está seca", mostra. "Estamos só de arroz, feijão e ovo." Tem dia, porém, que não consegue "nem R$ 2 para comprar o pão de manhã" e todos ficam só com o café ou, quando tem leite, um mingau que prepara.

Reinaldo Canato/UOL
A cozinha, o fogão e o macarrão na panela

Mas, quando recebe o dinheiro de uma faxina, ela correpara o mercado: então compra salsicha e, quem sabe, frango. "Carne de boi nunca, porque está muito cara. Se comprar carne, não compro o leite da menina." Ela faz a conta da carestia: "Gasto muito com fralda e leite. E já cheguei a bater nas portas dos outros pedindo alimento. Estou vivendo de doações".

Sobre o futuro que, espera, logo bata gentil e generosamente à porta da casa 134, de blocos vermelhos aparentes, na viela 134, Jardim São Paulo, distrito de Guaianases, extremo leste da periferia paulistana, Rosângela diz empostando e elevando a voz, para que seja ouvida: "Para o meu futuro, eu quero saúde, moradia e felicidade para os meus filhos".

Reinaldo Canato/UOL
A viela 134, no Jardim São Paulo, em Guaianases

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