Massacre no Pará: polícia chegou em fazenda para matar, dizem testemunhas

Carlos Madeiro

Colaboração para o UOL, em Maceió

  • Márcio Freire/Agência Pará

    Trabalhadores rurais montaram acampamento na Fazenda Lúcia, em Pau D'Arco, no sudoeste do Pará, para pedirem a desapropriação de uma área por suposta grilagem

    Trabalhadores rurais montaram acampamento na Fazenda Lúcia, em Pau D'Arco, no sudoeste do Pará, para pedirem a desapropriação de uma área por suposta grilagem

Familiares de vítimas da ação policial que terminou com dez mortes de trabalhadores rurais na última quarta-feira (24), na Fazenda Lúcia, em Pau D'Arco, sudeste do Pará, afirmam que a polícia chegou atirando e, em nenhum momento, teria informado sobre o cumprimento de mandados judiciais.

Segundo o advogado Marcelo Mendanha, conselheiro da OAB-PA (Ordem dos Advogados do Brasil - Seccional Pará), reunião nesta quinta-feira (25) ouviu relatos de familiares das vítimas.

"Eles não sustentam a informação de que houve confronto e alegam que a polícia foi lá para matar. Os familiares dizem que a polícia chegou atirando, não falaram em mandados. Tanto que [os familiares] afirmam que a única mulher que foi morta tem tiro nas costas", relatou Mendanha.

Segundo versão da Secretaria de Segurança Pública do Pará, a polícia foi até a fazenda, onde há um assentamento rural, cumprir 14 mandados judiciais e teriam sido recebidos a bala. Onze armas --entre elas um fuzil-- teriam sido apreendidas com o grupo. Apesar do relato de ataque, nenhum policial foi ferido. Apenas quatro das vítimas mortas tinham mandados de prisão a serem cumpridos.

Os mandados seriam referentes à investigação da morte de um segurança da fazenda, vítima de emboscada no final de abril. O clima no local era de extrema tensão --trabalhadores rurais montaram acampamento na fazenda e pedem a desapropriação de uma área por suposta grilagem.

Márcio Freire/Agência Pará
Polícia faz perícia nos acampamentos perto da Fazenda Lúcia, em Pau D'Arco, no sudoeste do Pará, local onde 10 trabalhadores rurais morreram na última quarta-feira (24)

Federalização

Entre as informações repassadas por familiares à OAB, está a de que há ao menos três pessoas feridas que estão escondidas e não procuraram atendimento médico por medo de novos atos de violência. Uma das vítimas estaria internada em um hospital, sob proteção da PF (Polícia Federal).

"Ninguém quis prestar depoimento em público, seria uma exposição e eles têm medo", disse. "A OAB vai acompanhar a perícia nas armas que dizem ter sido apreendidas. Eles dizem que não eram deles", alega Marcelo.

Diante das alegações, a OAB defende que o caso seja federalizado. "A gente concorda com isso para ser uma investigação mais isenta. Aqui foi feita essa cobrança e foi unânime o sentimento dessa necessidade", conta.

Outro pedido da OAB é o afastamento dos 24 policiais que participaram da ação. Até o momento, a secretaria não informou se medidas disciplinares contras os policiais foram adotadas.


CPT: ação "desastrosa"

O caso também está sendo acompanhado pela CPT (Comissão Pastoral da Terra). O padre Paulo da Silva, assessor da CPT, classificou a ação como "desastrosa." "Os policiais foram lá para fazer o despejo, que estava sendo negociado", disse. Segundo ele, a entidade também defende a federalização do caso. 

"Pedimos que essa investigação seja feita por fora. Não confiamos na investigação local, pois as autoridades estão envolvidas, sabem que há grilagem. A PF seria um caminho confiável. Mas já fizemos esse pedido outras vezes, mas nunca fomos atendidos", afirmou o assessor da Pastoral da Terra.

Márcio Freire/Agência Pará
Fazenda Lúcia, em Pau D'Arco, no sudoeste do Pará, local onde 10 trabalhadores rurais morreram na última quarta-feira (24).

Apenas neste ano no Pará já foram registradas 18 mortes no campo --o triplo do mesmo período do ano passado, quando foram verificados seis assassinatos.

A Corregedoria da PM abriu um inquérito policial militar para apurar a ação dos agentes na operação. A investigação deve durar até 60 dias.

Dois delegados de Belém foram enviados ao local dos crimes e estão no comando das investigações. Os ministérios público estadual e federal também acompanham a apuração das mortes e da conduta dos policiais.

 

 

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