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Marido é preso suspeito de mandar matar médica; mulher deixou carta que virou prova

Milena Frasson morreu na sexta-feira após ser baleada ao deixar um plantão em Vitória - Reprodução
Milena Frasson morreu na sexta-feira após ser baleada ao deixar um plantão em Vitória Imagem: Reprodução

Eduardo Carneiro

Colaboração para o UOL*

21/09/2017 15h15

O policial civil Hilário Antônio Fiorotti Frasson foi preso na tarde desta quinta-feira (21) suspeito de ser um dos mandantes do assassinato de sua ex-mulher, a médica Milena Gottardi Tonini Frasson, em Vitória-ES. Mais cedo, o ex-sogro da vítima, Esperidião Carlos Frasson, também foi detido. A Justiça expediu contra pai e filho mandados de prisão temporária de 30 dias.

A confirmação da prisão dos dois acusados veio na tarde desta quinta-feira, em coletiva de imprensa que contou com a presença do secretário de Estado da Segurança Pública e Defesa Social, André Garcia, do chefe de polícia civil, Guilherme Daré, e de mais autoridades que acompanharam o caso desde a morte da médica, na última sexta.

Homero Mafra, advogado de Hilário, disse ao UOL que a prisão é “injusta” e que analisará o inquérito no final de semana, podendo protocolar habeas corpus na segunda-feira. A reportagem não conseguiu contato com a defesa de Espiridião.

Também estão presos por envolvimento no crime Dionathas Alves Vieira, 23 anos, que confessou que matou a médica, e dois intermediários - um deles, identificado como Bruno, é primo do autor dos disparos e roubou a moto que Dionathas usou para ir ao local do crime.

As autoridades decretaram sigilo absoluto no caso desde o último final de semana para não atrapalhar o andamento de investigações e também pelo fato de um dos acusados ser policial civil. Hilário entrou de licença, voltou a trabalhar somente nesta quinta e foi preso em meio ao expediente.

Os investigadores devem ouvir em breve o depoimento do ex-marido de Milena para apurar a motivação do crime, que teria sido planejado por ao menos um mês. Em paralelo ao inquérito, a Polícia Civil também vai instaurar processo administrativo que vai definir a condição de Hilário dentro da corporação.

André Garcia parabenizou toda equipe envolvida na investigação do caso, segundo ele um “ato de protesto” contra as mulheres que morreram em virtude de uma “cultura machista, patriarcal e atrasada que muitos homens ainda têm na cabeça”.

Carta

Uma carta que Milena escreveu no mês de abril e na qual ela relatava que “se sentia refém” do marido, de quem estava em processo de separação, veio a público no início da tarde desta quinta e, segundo a polícia, já estava nas mãos dos investigadores desde o início do caso – sendo inclusive prova inconteste de que a vítima era ameaçada, já que foi registrada em cartório.

Na carta, Milena relata que não sofreu agressões físicas, mas verbais de seu ex-marido, inclusive diante das filhas do casal (hoje com nove e dois anos, respectivamente), e que ele não aceitava a hipótese de separação, avisando que “declararia guerra” se isso acontecesse. “Me sinto uma refém dentro da minha própria casa. Está insuportável! Não quero brigar com ele, mas também não consigo ter uma conversa, um diálogo”, escreve a médica, que teve um relacionamento de 20 anos com Hilário (sete de namoro e 13 de casamento).

Em outro trecho, Milena diz que o marido sempre “demonstrou muita obsessão à minha pessoa, mesmo antes do namoro” e que, diante das seguidas recusas de Hilário em deixar sua casa, “pedi ao juiz a liberação para sair de casa com as meninas para me poupar e, principalmente, as minhas filhas de um ambiente hostil”.

A médica ainda escreveu que “se acontecer algo de ruim comigo, por exemplo, se Hilário Antônio Fiorotti Frasson me matar e, pode ser que tente se matar também”, ela gostaria que a guarda das filhas ficasse com o irmão Douglas Gottardi Tonini, com a supervisão da mãe, Zilda Maria Gottardi.

Homero Mafra, advogado de Hilário, diz que a carta foi apenas “um retrato de um episódio” específico vivido pelo casal. “Era um momento em que ele lutava para manter o relacionamento. Mas não houve nenhum registro de briga ou agressão depois disso. Ele inclusive saiu de casa. O relacionamento vinha sendo bom, há inclusive depósitos em dinheiro das duas partes em suas contas bancárias”, acrescenta.

O crime

A médica Milena Gottardi Tonini Frasson, 38 anos, morreu na tarde da última sexta-feira (15), um dia depois de ser baleada ao deixar um plantão de um hospital de Vitória (ES). O assassinato gerou comoção nas redes sociais, reação de associações médicas e luto oficial em Fundão, cidade da região metropolitana da capital capixaba onde a vítima nasceu e parte de seus familiares vivem.

De acordo com informações da polícia, Milena saía do Hospital Universitário Cassiano Antonio Moraes (Hucam), conhecido também como Hospital das Clínicas, acompanhada de uma colega na noite de quinta-feira quando foi surpreendida por um homem que anunciou um assalto.

Segundo relatou a médica que testemunhou o crime, a colega seguiu as orientações do suspeito, mas mesmo assim levou três tiros – um deles a cabeça. Milena recebeu os primeiros socorros no local e foi encaminhada em seguida ao Hospital Cias Unimed. Ela chegou a passar por cirurgia, mas teve a morte confirmada na tarde de sexta.

Antes de o caso ser investigado em sigilo, o secretário da Segurança Pública e Defesa Social, André Garcia, disse na última sexta-feira que o crime tinha “todas as características de feminicídio, motivado por razões passionais”.

A missa de sétimo dia de Milena foi celebrada na manhã desta quinta-feira na capela do Hospital das Clínicas por Dom Sevilha, bispo da Arquidiocese de Vitória, e contou com a presença de familiares, amigos e colegas da médica.

* Atualizada às 18h40

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