Romeiros peregrinam até Aparecida para celebrar 300 anos da imagem da santa

Janaina Garcia

Do UOL, em Aparecida (SP)

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    Membros de uma família de São Bernardo estão em sua 4ª peregrinação até Aparecida

    Membros de uma família de São Bernardo estão em sua 4ª peregrinação até Aparecida

Uma missa celebrada pelo cardeal Giovanni Battista Re, representante do Papa Francisco, promete ser o ponto alto nesta quinta-feira (12) das celebrações pelos 300 anos do encontro da imagem de Nossa Senhora Aparecida no Santuário Nacional, em Aparecida (180 km de São Paulo). Ao todo, a coordenação do evento estima que, só nesta quinta, feriado nacional da padroeira do Brasil, mais de 200 mil romeiros passem pela cidade.

Nesta quarta (11), o cardeal participou da celebração de coração da imagem, com a utilização de uma coroa preparada durante nove meses com a terra das capitais dos Estados do Brasil.

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Giovanni Battista Re foi enviado ao Vaticano diante da negativa do papa Francisco, que em abril deste ano recusou formalmente um convite do presidente Michel Temer (PMDB) para que viesse ao Brasil prestigiar as comemorações pelos 300 anos da descoberta da imagem de Nossa Senhora Aparecida. O prefeito de São Paulo, João Doria (PSDB), chegou a pedir presencialmente ao papa que reconsiderasse sua decisão, mas Francisco declinou.

Romarias

Nas margens da rodovia Dutra, principal acesso a Aparecida, romeiros cumpriam no final da tarde dessa quarta os quilômetros finais de uma jornada de dias seguidos caminhando sob sol forte ou chuva. Em diversos pontos próximos a Taubaté e Pindamonhangaba, já no Vale do Paraíba, também era possível encontrar voluntários com estruturas para doação de água e comida aos romeiros.

Um desses grupos estava a cerca de 30 km de Aparecida, com voluntários das cidades de Guarulhos e Taubaté. Em uma mesa grande improvisada com várias mesas menores, ofereciam água e suco, frutas e pão com manteiga e materiais de primeiros socorros quem estivesse a caminho da basílica.

"Este ano a gente percebeu que a quantidade de romeiros a pé praticamente triplicou – talvez pelo evento dos 300 anos de descoberta da imagem, ou mesmo pela crise que parece mover tanta gente em busca de uma vida melhor", disse a aposentada Maria Alves, 60, de Taubaté.

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Voluntários de Taubaté ajudam os romeiros que peregrinam pela Rodovia Presidente Dutra

É o segundo ano que ela e um grupo de 20 voluntários ligados a uma igreja católica da cidade se organizam para prestar apoio aos caminhantes. "Ninguém vai a Aparecida a pé por nada; vai, no mínimo, para agradecer", constata.

Professora em Guarulhos, Solange Rodrigues, 51, contou que o filho está peregrinando a pé até a basílica. "Eu não consigo porque tenho dores nos joelhos. Então resolvi trazer água gelada aqui para ajudar outros na mesma situação que ele", contou. Entre os colegas, foi apelidada de "anjo da guarda". Além de não ser do grupo original, a professora levou uma térmica repleta de água mineral quando o estoque já estava quase acabando –e os termômetros, marcando 36 graus.

Entre os romeiros, gestos como o dos voluntários são celebrados em meio à caminhada extenuante. "A gente não está acostumado a ver, mas o brasileiro é, sim, um povo muito solidário. Na estrada é que a gente tem percebido isso –é uma minoria que acaba mesmo fazendo mal para o país", constatou o arquiteto Leandro Viguine, 36.

"De última hora", disse, ele e a mulher, a dentista Alessandra Gomes de Assis, 35, deixaram São Bernardo do Campo para cumprir a pé os 90 km até Aparecida. "Quando vimos aquela imensidão de romeiros a caminho, e tanto idoso e adolescente no meio, decidimos: 'Tamo junto', então decidimos vir para agradecer", completou Alessandra.

Caminhando a partir de São Bernardo do Campo, na Grande São Paulo, até Aparecida, um grupo de seis integrantes de uma mesma família está no quarto ano seguido da peregrinação. Eles deixaram suas casas no último domingo (8),com um carro de apoio no qual trouxeram mantimentos.

"O sol judia demais, mas o trajeto é marcado por muita solidariedade, é uma lição dela – foi assim de gente que nos ajudou e da gente em relação a outros romeiros também", relatou a comerciante Sandra Gomes da Silva, 37. No grupo da família, a mais velha é a aposentada Francisca de Fátima Ribeiro da Silva, 63, que carregava uma imagem da santa consigo. "É o quarto ano que faço isso. De novo, vou para agradecer", definiu.

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Romeiros de São Bernardo do Campo (SP) mostram os pés durante a peregrinação

Com os pés inchados, o empresário Jean Carraro, 33, fazia o percurso de 150 km entre Atibaia e o santuário. Ao lado dele, estava o servente de pedreiro João Batista Rodrigues, 52, de Cotia. "Estava com muitos problemas financeiros e na minha vida pessoal, mas as coisas se ajeitaram e vim agradecer", contou Carraro. "Vim pedir paz e emprego. Estou desempregado há muito tempo e já passei muito apuro desde que cheguei da Paraíba, até morar na rua eu já morei. Tenho fé que isso vai mudar", disse Rodrigues.

As festividades no santuário nesta quinta contam com missas solenes ao longo do dia – a última será às 19h – e se encerram com um festival com 12 músicos às 20h30. Às 23h, haverá um show pirotécnico com o tema do jubileu.

Maior templo mariano do mundo

O Santuário é hoje o maior centro mariano do mundo em tamanho e o segundo em frequência – só perde para o de Nossa Senhora de Guadalupe, no México. Todos os anos, cerca de 12 milhões de romeiros visitam o município de Aparecida, entre brasileiros, em sua maioria, e estrangeiros.

A imagem cujos 300 anos de descoberta são celebrados em 2017 foi encontrada por três pescadores -- Domingos Garcia, Felipe Pedroso e João Alves – ao lançarem as redes no rio Paraíba. Após horas de insucesso, pescaram uma imagem de barro decapitada, e, em seguida, encontraram a cabeça de Nossa Senhora da Conceição. Minutos depois, já havia tanto peixe que mal conseguiam carregar.

Décadas depois, a escultura negra de 37 centímetros se tornaria um dos símbolos do País e, já como Nossa Senhora Aparecida, ganharia do papa Pio XI em 1930 o título de Padroeira do Brasil.

O Santuário-Basílica, que é também a catedral da Arquidiocese, está em construção desde 1946. A terraplenagem teve início em 1952, de modo que o primeiro atendimento a romeiros aconteceu em 1959. Só a partir de 1982 o local passou a receber atividades religiosas –naquele ano, a imagem foi levada da Basílica Velha para a Nova. Em 1984, quatro anos após ser consagrado por João Paulo II, o local virou Santuário Nacional.

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