Crise e desemprego acentuam drama de moradores de rua: "A gente é visto como cachorro"

Diego Toledo

Colaboração para o UOL, em São Paulo

  • Ricardo Matsukawa/UOL

    Robério de Jesus veio de Jacobina (BA) para tentar arrumar emprego em São Paulo; mesmo morando na rua, ele não quer retornar para a terra natal

    Robério de Jesus veio de Jacobina (BA) para tentar arrumar emprego em São Paulo; mesmo morando na rua, ele não quer retornar para a terra natal

Todas as manhãs, depois de comandar a missa na paróquia de São Miguel Arcanjo, na Mooca (zona leste de São Paulo), o padre Júlio Lancellotti repete a mesma rotina. Por pelo menos duas horas, ouve, orienta e auxilia dezenas de moradores de rua a buscar um lugar para comer e dormir.

Nos últimos três anos, a quantidade de pessoas que procuram o padre para pedir ajuda aumentou. Com mais de 30 anos dedicados ao convívio com a população de rua de São Paulo, o religioso vê um agravamento da situação.

"Há um aumento de pessoas desempregadas, desalentadas, que não encontram nenhuma possibilidade", observa. "É muita gente procurando emprego, com dificuldade para pagar aluguel, despejadas. As pessoas estavam na beirada, se segurando em alguma coisa, e caíram."

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Uma das pessoas que chegaram à paróquia em busca de apoio é José Ivonaldo de Lima Santos, 38. Depois de uma discussão no açougue em que trabalhava, ele foi demitido e não conseguiu mais pagar o aluguel do quarto onde morava, em Guarulhos, na Grande São Paulo. Desde maio, passou a viver pelas ruas, sem um lugar fixo para dormir.

Ivonaldo já havia passado por situação semelhante em 2005, quando, depois de se separar da mulher, começou a abusar de bebidas e drogas e chegou a viver como morador de rua por dois anos. Desta vez, no entanto, ele diz que o problema é outro: a dificuldade para arrumar emprego, apesar da experiência como açougueiro.

"Fica difícil cuidar da aparência, tomar banho. A gente é visto como cachorro", lamenta.

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Morador de rua recebe doações na paróquia São Miguel Arcanjo, na zona leste
Ivonaldo diz que está apostando todas as fichas em buscar uma vaga em um albergue. Com lugar para dormir e cuidar da higiene, ele diz que espera conseguir um trabalho dentro de um prazo de 15 dias. "Ou você se entrega, ou se lança para tentar mudar essa situação. A rua não é vida para ninguém. Se eu continuar assim, vou morrer, vou ser preso ou vou acabar como mendigo."

"A rua deixa o cara louco"

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O motorista Antonio Rafael Silva Lima enfrenta dificuldades extras para conseguir trabalho: a idade avançada e problemas de saúde
Além da falta de um lugar para morar, outra vítima do desemprego, o motorista Antonio Rafael Silva Lima, 57, enfrenta dificuldades extras para conseguir um trabalho: a idade avançada e os problemas de saúde --uma diverticulite e dores nas costas resultantes de décadas trabalhando atrás do volante.

Em janeiro, Antonio participou de uma paralisação de motoristas de lotação na zona leste de São Paulo. Os trabalhadores reclamavam de atrasos no pagamento de salários e benefícios pela empresa para a qual trabalhavam. Depois de um acordo para solucionar o impasse, ele acabou demitido.

A rua não é vida para ninguém

José Ivonaldo de Lima Santos, morador de rua desde maio

Em junho, sem ter mais como pagar a vaga na pensão em que morava, em Itaquera, Antonio teve que ir para a rua. Hoje, dorme no Arsenal da Esperança, um dos maiores albergues da cidade, com 1.200 vagas. Ao todo, a prefeitura diz que oferece atualmente mais de 12 mil vagas em centros de acolhida e que a rede não registra superlotação.

Mas, antes de conseguir um lugar permanente no albergue, Antonio teve de enfrentar a fila que todos os dias cerca o Arsenal da Esperança para as vagas de pernoite, que são disputadas diariamente. "Tem gente que há mais de dez anos está nessa vida", conta o motorista. "A rua deixa o cara louco."

Para voltar a trabalhar, Antonio está se tratando dos problemas de saúde na rede pública e, pela manhã, sai em busca de vagas de emprego em cooperativas de transporte. À tarde, nas horas livres, costuma passar o tempo assistindo a filmes na Biblioteca de São Paulo, no Carandiru.

"Eu não vim da rua, tenho uma vida totalmente diferente. Sempre fui muito ocupado, com objetivos, dinheiro para me manter", afirma. "Não tenho medo de me acomodar porque tenho apetite, vou sair dessa."

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Pessoas em situação de rua aumentaram por causa da crise

Estimativa da população de rua é de 20 mil pessoas

Tanto o padre Júlio como profissionais e pesquisadores que acompanham as mudanças na população de rua de São Paulo apontam que o desemprego pode contribuir para levar alguém a viver na rua, mas não é um fator isolado.

O problema é resultado de uma combinação de elementos, que, em geral, inclui, além da falta de trabalho, a ruptura de laços familiares, o uso abusivo de drogas e álcool e um histórico de pobreza.

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Doações alimentares são sustento de muitas famílias

A história de Lincoln Domingos Sasso, 38, é um exemplo disso. Apesar de um curso superior em gestão empresarial, ele enfrentou dificuldades para se fixar em um trabalho. Mudou de emprego diversas vezes e os problemas financeiros contribuíram para um desgaste no relacionamento com a mulher.

Frustrado, Lincoln buscou alívio em bebidas e drogas. "Eu usava de raiva, não pelo prazer", afirma. Em meados deste ano, ele se separou da mulher. No início, teve a ajuda do pai para se manter, mas, sem conseguir emprego, saiu de casa e está vivendo na rua há pouco mais de dois meses.

"Quando você tem uma conjugação de fatores, todos negativos, a chance de a pessoa ir para a rua é grande. Costumo dizer que isso acontece quando aquilo que a gente chama de rede de proteção familiar se rompe. Mas não é por que você é drogado ou perdeu o emprego que você vai para a rua", avalia a pesquisadora Silvia Maria Schor, da Fipe (Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas), que comandou a realização do último censo da população em situação de rua de São Paulo, em 2015.

O levantamento apontou que existiam, na época, quase 16 mil moradores de rua na cidade e que essa população cresceu a uma taxa média anual de 4,1% entre 2000 e 2015. "A população em situação de rua cresceu, em média, muito mais do que a população da cidade de São Paulo", afirma a economista.

Quanto mais o tempo passa, mais difícil é sair da rua

Silvia Maria Schor, pesquisadora e economista

Atualmente, entidades que atuam junto à população de rua estimam que o total de moradores vivendo em abrigos ou nas calçadas da cidade já passa de 20 mil pessoas. A própria prefeitura diz que trabalha oficialmente com os dados do censo, mas, informalmente, reconhece a estimativa superior.

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Entidades estimam em 20 mil o total de moradores vivendo em abrigos ou calçadas

Migração em busca de trabalho agrava problema

O padre Júlio Lancellotti aponta que um outro elemento associado à crise contribui para a percepção de um aumento da população de rua em São Paulo: a migração de moradores de outras regiões do país que chegam à cidade em busca de um trabalho.

"Tem me impressionado muito as pessoas que estão chegando de outros Estados para São Paulo. A mobilidade é muito grande", afirma o padre. "Dois chegaram na paróquia e fazia um mês que estavam caminhando, vindos da Bahia. Eles chegaram com os pés muito machucados e um cheiro que não era de sujeira, que parecia de gordura queimada. Estavam muito magros e desidratados."

Pai de uma menina de um ano de idade, Robério de Jesus, 27, chegou de Jacobina (BA) há cinco meses. Conseguiu viajar de ônibus para São Paulo com a mulher e a filha, mas, desde então, vive uma rotina de dificuldades nas ruas.

Com o dinheiro que ganhou com bicos, conseguiu comprar uma barraca e passou a morar nas imediações da paróquia do padre Júlio. Mas, há cerca de duas semanas, teve a barraca apreendida por equipes de zeladoria urbana da prefeitura. A família voltou a viver em situação precária, às margens da avenida Radial Leste.

No início da semana, quando já pensava em desistir da vida em São Paulo e voltar para a Bahia, Robério conseguiu um emprego para trabalhar no setor de carga e descarga de um supermercado. Mesmo morando na rua, ele agora não quer mais retornar para a terra natal, onde trabalhava na roça, quase dez horas diariamente, para ganhar apenas R$ 25 por dia.

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O padre Júlio Lancellotti distribui roupas na paróquia São Miguel Arcanjo

O censo de 2015 apontou que mais de 80% dos moradores de rua de São Paulo são homens, têm em média cerca de 40 anos de idade e a grande maioria é formada por "não brancos" --o que inclui negros, pardos e aqueles com ascendência oriental ou indígena. A taxa de analfabetos chega a 10%.

"Há, proporcionalmente, uma maior presença de idosos e jovens. Os percentuais de mulheres têm variado um pouco, mas a rua ainda é predominantemente um lugar de homens. É preciso esperar mais uns dois ou três censos para ver se, de fato, houve uma mudança na estrutura etária e de gênero", afirma a economista Silvia Maria Schor.

A pesquisadora da Fipe aponta ainda que os dados indicam que há um grupo de pessoas que entra e sai da situação de rua. "Se a pessoa está há pouco tempo na rua, a chance de ela sair é muito maior do que a de quem já está há anos nessa situação. Quanto mais o tempo passa, mais difícil é sair da rua."

Ricardo Matsukawa/UOL
Fila que todos os dias cerca o Arsenal da Esperança para as vagas de pernoite

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