Topo

Quem são os voluntários que trocam almoço em família por Natal com moradores de rua em SP?

Arquivo pessoal
Crisleine Barboza Yamaji, da comunidade Sant'Egidio Imagem: Arquivo pessoal

Janaina Garcia

Do UOL, em São Paulo

23/12/2017 04h00

Para um grupo de adolescentes, jovens e idosos de São Paulo, associar o almoço de Natal a uma experiência em família é algo que não se restringe à própria casa, mas que se amplia ao olhar para a rua. É lá que estão os participantes de almoços organizados por esses voluntários que optaram por distribuir carinho e cuidado a quem está em situação de vulnerabilidade – sem casa, muitas vezes sem a família por perto e, não raro, doente, entregue à dependência química.

O UOL conversou com voluntários que vão celebrar a data-chave da tradição cristã, já que ela marca o nascimento de Jesus. Eles falaram sobre o que os motiva a ajudar uma população que muitas vezes parece invisível na correria da cidade.

O entendimento entre eles é consenso: a crise econômica dos últimos anos aumentou a quantidade de pessoas em situação de rua em São Paulo --sem teto, moradores de rua e usuários de crack estão espalhados especialmente na região central --, ainda que, desde 2015, o município não faça um censo da população de rua na capital. Entre números do poder público e de entidades do terceiro setor, estima-se que mais de 30 mil pessoas estejam hoje nessa condição de vulnerabilidade na cidade mais rica e populosa do país. O número é superior à média populacional de até 20 mil habitantes de quase dois terços dos quase 6 mil municípios brasileiros.

Crisleine, 34, voluntária

Uma das voluntárias do dia 25 é a advogada Crisleine Barboza Yamaji, 34. Participante de um grupo ligado à Igreja Católica –a comunidade Sant’Egidio --, ela, o irmão, Rafael, 28, e cerca de outros 30 voluntários organizam desde 2014 um almoço às pessoas em situação de rua na avenida Paulista.

Há três anos, ela conta, eram 30 pessoas atendidas em um raio de quatro quarteirões da avenida. O almoço servido na igreja São Luís, na própria Paulista, conta com ajuda da comunidade desde a doação de dinheiro, roupas e alimentos à própria organização no dia de Natal. Este ano, segundo a voluntária, são 90 pessoas atendidas na mesma área –o triplo em comparação a 2014.

“Precisamos que outras pessoas se envolvam, sendo ou não cristãos, católicos ou evangélicos, gente de ONGs, de empresas, de onde for. É comum se ouvir que dar comida e banho para essas pessoas que estão na rua é uma maneira de elas permanecerem na rua”, diz Crisleine. “Convido quem pensa assim a vir fazer o trabalho com a gente para entender que não é bem dessa maneira que as coisas funcionam. Ninguém está na rua para ganhar um sanduíche, e se mais pessoas se dispuserem a entender que esses irmãos têm família e que, se a gente ajudar a reconstruir laços familiar e sociais, eles podem se reerguer, é possível que esses preconceitos de simplificação sejam derrubados”, afirma. “O preconceito não vale nada.”

O trabalho dos voluntários da comunidade vai começar já de madrugada, com um café da manhã seguido de banho na Receita Federal, na rua Luís Coelho. Lá, também por meio de doações, entregarão às pessoas em situação de rua um kit de higiene pessoal e roupas limpas. Homens e mulheres terão corte de cabelo, e elas, se quiserem, manicure. O almoço na igreja será servido às 14h. Só para o banho, a previsão é atender 100 pessoas; no almoço, são esperadas em torno de 150.

Além do trabalho no Natal, a comunidade desenvolve um trabalho semanalmente, aos sábados, com os sem teto da Paulista. É ali que eles buscam construir ou fortalecer vínculos –o que possibilita, de acordo com a advogada, o encaminhamento de alguns casos para tratamento ou acolhida da família. Um trabalho paralelo, de alfabetização, é desenvolvido com crianças de ocupações da região central –o grupo listou 30 crianças de 20 ocupações mapeadas.

“Embora a comunidade utilize a estrutura católica, fazemos semanalmente um trabalho de conversar, levar um café, um sanduíche. Não é uma ação assistencialista. Um cafezinho abre muitas portas, e a situação de muitas pessoas na rua é absolutamente degradante”, explica. “Pouco a pouco, o que se busca é ajudar que essas pessoas busquem de alguma forma, de volta, a própria dignidade. Este ano, por exemplo, um morador de rua nos disse: ‘Como eu vou almoçar na igreja, se eu estou sempre cheirando cocô?’ Por isso abrimos a possibilidade do banho”, diz.

Crisleine teve o primeiro contato com o grupo católico em 2012, durante o mestrado na Itália. Desde então, fez trabalho voluntário em outras cidades pelo mundo, como Paris, Nova York, Pádua (Itália) e Buenos Aires, até se firmar, em 2014, no grupo em São Paulo. O que observou de diferença, nessas cidades, em relação à pessoa na rua?

“Que São Paulo é uma cidade com pouquíssimos locais acessíveis para que quem vive na rua tome um banho. Isso é o mínimo de dignidade. Vi pessoas na França que moravam na rua, mas tinham trabalho e conseguiam tomar um banho em banheiros públicos. Aqui, são muitos poucos os locais disponíveis para isso: ou a pessoa se interna, ou vai para albergue, onde nem sempre tem vagas”, comenta.

Se o paulistano vê o morador de rua da avenida que é um dos principais cartões postais? “As pessoas veem mais os cachorros dos moradores de rua, que os próprios moradores. Por incrível que pareça, até as crianças de rua são mais invisíveis que os cães desses moradores para grande parte de quem transita por ali. É triste, mas acredito que trabalhos como o nosso podem ajudar que outros mais se sensibilizem para isso”, afirma.

Em tempo: o almoço em família dos irmãos voluntários não será totalmente fora do lar, já que os pais deles ajudarão nas atividades já desde o café da manhã.

Arquivo pessoal
Robson Mendonça, presidente da Associação de Moradores de Rua do Estado de SP Imagem: Arquivo pessoal

Robson, voluntário, 64 anos

Quem também organiza um almoço de Natal – e de Ano Novo – às pessoas em condição de vulnerabilidade na região central de São Paulo é Robson Mendonça, presidente, desde 2010, do Movimento Estadual da População em Situação de Rua em São Paulo.

É a oitava edição do evento “Natal solidário” que a entidade promove, também com doação de roupas, alimentos e mão de obra. Este ano, o almoço será em conjunto com a Sant’Egidio, na igreja da Paulista.

“Precisamos de voluntários para servir o almoço nos dias 25 agora e 1º de janeiro, ocasiões em que faremos também atividades culturais. Quanto mais gente, melhor – porque a população de rua realmente aumentou, e a falta de políticas públicas que atendesse essa demanda deixou a questão ainda mais evidenciada. Não é só a crise”, observa.

“Morador de rua não se resolve com prato de comida e uma cama, como alguns administradores públicos querem crer; essa é uma questão paliativa, de momento. Basta ver a quantidade de gente dormindo nas ruas, nas calçadas e o tanto de cobertor e pertences que são retirados pela Guarda Civil Metropolitana. É uma violação de direitos constante”, disse.

Mendonça tem um escritório no centro onde atende, diariamente, uma média de 30 pessoas em situação de rua. Dali, ele busca dar a elas encaminhamento para os equipamentos públicos de assistência social ou saúde, ou mesmo para confecção de documentos.

Indagado sobre o Natal em família, ele lembrou que parou em São Paulo após perder a mulher e o filho em um acidente. Saiu de Alegrete, no interior gaúcho, para retomar a vida na capital paulista. Depois de ser assaltado e perder dinheiro e documentos, chegou a viver um tempo na rua.

“Só quem sentiu na pele o que essas pessoas sentem pode entender o que é viver na condição de degradação e solidão em que elas vivem. A maioria perde os vínculos com a família, já passou fome, vê o descaso do poder público e não vê perspectiva de saída no assistencialismo – e sequer consegue ficar em albergue, porque alega que aquilo é um depósito humano”, enumera. “É com essas pessoas que eu passo meu Natal, porque, hoje, são elas a minha família.”

Pastoral vê "aumento considerável" da população de rua em SP

Para o coordenador da Pastoral do Povo de Rua em São Paulo, padre Júlio Lancelotti, “houve um aumento considerável das pessoas em situação de rua na cidade a olhos vistos”.

“Há um empobrecimento maior da população de rua e há gente de outros Estados, como o Rio -- que enfrenta uma crise --, vindo para cá. O que temos visto é cada gestão municipal em São Paulo trazer uma marca – os CTAs [Centros Temporários de Acolhimentos] agora, o [programa] De Braços Abertos no mandato passado. Mas, além de ter marca, a administração precisa ter locação social, respostas para as famílias”, defende. “Casais ficam onde? E famílias? E casais homoafetivos? Esses casos não têm acolhida em albergues, por exemplo”, exemplificou.