"Hoje aprendi que não existe dinheiro fácil", diz vítima de pirâmide financeira

Flávio Costa

Do UOL, em São Paulo

  • Leo Caobelli/UOL

    A empresária Maria Rosinete Pereira perdeu R$ 20 mil em golpe financeiro da D9

    A empresária Maria Rosinete Pereira perdeu R$ 20 mil em golpe financeiro da D9

"Naquela crise do ano de 2016, todo mundo acreditou que era um bom negócio. Só que não era verdade. Foi a maior roubada em que eu já entrei na minha vida e ainda levei junto dois sócios."

As lamentações acima são da microempresária do ramo de bicicletas Maria Rosinete Pereira, 50. Ela é uma das 350 pessoas que procuraram a Associação de Vítimas da D9 no Rio Grande do Sul para tentar o amenizar o prejuízo. Perdeu R$ 20 mil. Outros dois sócios dela perderam quase R$ 7.000 cada um.

A D9 Clube de Empreendedores é uma empresa de fachada forjada pelo baiano Danilo Santana que comandou um esquema de pirâmide financeira que pode ter lhe rendido até R$ 200 milhões, de acordo com investigações policiais que correm em paralelo na Bahia e no Rio Grande do Sul

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Maria Rosinete fazia parte de um grupo investidores gaúchos encabeçado pelo "líder regional" da D9 Márcio Rodrigo Santos. Ele chegou a ser preso. Seus advogados afirmam que ele é mais uma das vitimas do esquema montado por Danilo Santana.

Reprodução/Facebook
Márcio Rodrigos Santos liderava o esquema da D9 no RS, afirma o MP
"Rodrigo Santos apresentava motos, apresentava Camaros durante as palestras. Era uma ostentação enorme", afirma Maria Rosinete.

"Eu percebi que tinha caído num golpe quando chequei as placas dos carros que os líderes dirigiam e descobri que era tudo financiado e que as prestações não estavam sendo pagas", disse a moradora de Porto Alegre.

"A lição que fica é que não existe dinheiro fácil. E que neste país os golpistas podem tudo. Mas eu ainda tenho esperança de reaver meu dinheiro."

Como funcionava o esquema de pirâmide financeira

As denúncias do MPs da Bahia e do Rio Grande do Sul contra Danilo Santana concluíram que o golpe aplicado por ele e seus comparsas são típicos de uma pirâmide financeira. As acusações são de crimes contra economia popular, associação criminosa, estelionato e lavagem de dinheiro.

Um esquema de pirâmide financeira funciona assim: sob uma falsa promessa de altos lucros, um grupo de golpistas vende uma aplicação ou serviço a terceiros que, por sua vez, precisam chamar outras pessoas para o negócio. Forma-se uma estrutura piramidal, onde a base é constituída pela maioria dos investidores.

Cada novo membro que compra um "pacote de investimentos" financia o pagamento dos membros acima na cadeia. Até que, em determinado momento, o fluxo é interrompido. Dessa forma, o dinheiro no final fica com os membros que estão no topo da pirâmide, enquanto a base amarga o prejuízo de perder tudo o que investiu.

Danilo Santana apresentava a D9 como uma escola de "trading esportivo", uma forma de investimento muito comum na Inglaterra e nos Estados Unidos em que se faz apostas contras pessoas com base no que acontece em um evento esportivo, a exemplo de uma partida de futebol. É a chamada bolsa esportiva.

Daí a origem dos slogans da D9: "Bola na rede. Dinheiro no bolso" e "Aqui a gente dribla a crise e vence de goleada"?.

Os líderes eram subdivididos em categorias (gerente, coordenador, treinador e capitão) em alusão a eventos esportivos, para dar a ideia de que o negócio se tratava de um verdadeiro investimento em trading esportivo. Eventos da D9 contavam com participação de atletas e ex-atletas.

Havia uma outra inovação no golpe da D9: os pagamentos eram feitos em bitcoins, uma moeda virtual cuja emissão não é controlada pelo Banco Central (mais detalhes da pirâmide da D9 no infográfico abaixo).

"Só que nenhuma aposta era realmente feita e nenhum curso era ministrado. O esquema consiste em mera especulação financeira através dos investimentos das vítimas", afirma o promotor de Justiça Sergio Cunha, responsável pela denúncia contra Santana e o grupo gaúcho da D9 junto à 1ª Vara Criminal de Sapiranga.

Vítimas tentam recuperar dinheiro investido

O esquema piramidal da D9 começou a desmoronar em março de 2017, quando o fluxo de pagamento em bitcoins começou a ser interrompido. 

Neste momento, Danilo Santana e seus líderes começaram a culpar "concorrentes" e problemas "no sistema". Meses depois, exigiam que os investidores fizessem novos depósitos para ter acesso aos valores que já tinham sido depositados. O dinheiro havia sumido e quase ninguém recuperou o que investiu.

As vítimas da D9 criaram associações e ingressaram em processos de ações indenizatórias coletivas. O grupo gaúcho já reúne cerca de 350 pessoas, que pedem mais de R$ 10 milhões, a título de restituição.

O presidente da D9 foi preso por agentes da Interpol no dia 13 de fevereiro ao desembarcar no aeroporto de Dubai, cidade que frequenta há pelo menos um ano. Posteriormente, foi solto após pagar fiança, mas continua sendo monitorado pelas autoridades locais.

Por esta razão, o Ministério da Justiça brasileiro tenta extraditá-lo, mas não há previsão de quando isso acontecerá. 

Brasileiro comandou golpe de R$ 200 milhões, diz MP

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