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OAB-MT faz desfile de moda para promover adoção e gera discussão na web

Crianças e adolescentes disponíveis para adoção desfilam em evento em Cuiabá - Reprodução/Facebook
Crianças e adolescentes disponíveis para adoção desfilam em evento em Cuiabá Imagem: Reprodução/Facebook

Lucas Borges Teixeira

Colaboração para o UOL, em São Paulo

22/05/2019 18h14Atualizada em 22/05/2019 22h15

Um evento de adoção colocou crianças para desfilar ontem em uma passarela em um shopping de Cuiabá. Realizado pela OAB-MT (Ordem dos Advogados do Brasil do Mato Grosso) em parceria com a Ampara (Associação Mato-grossense de Pesquisa e Apoio à Adoção), a ação gerou controvérsia na internet.

Promovido pela Comissão de Infância e Juventude (CIJ) da OAB, a "Adoção na Passarela" faz parte de uma semana de programações voltada ao tema e teve como objetivo apresentar crianças de 4 a 17 anos a pessoas interessadas em adotar. Além dos organizadores, a ação teve apoio do TJ-MT (Tribunal de Justiça do Mato Grosso) e do governo estadual.

É o segundo ano que as duas instituições organizam o evento. Segundo a OAB-MT, no ano passado, dois adolescentes - um de 14 e outro de 15 anos - foram adotadas após o desfile. Os organizadores não informaram quantas crianças participaram ou foram adotadas neste ano.

O evento gerou controvérsia nas redes sociais hoje. Enquanto alguns internautas defenderam os organizadores, outros criticaram a ação. Entre os críticos estão políticos como Guilherme Boulos (PSOL), candidato à Presidência na eleição de 2018, e a ex-deputada federal Manuela D'Ávila (PCdoB).

Organização nega intenção de expor crianças

Ao UOL, o Pantanal Shopping, onde ocorreu o evento, afirmou que "repudia a objetificação de crianças e adolescentes" e que o "único intuito em receber a ação foi contribuir com a promoção e conscientização sobre adoção e os direitos da criança e adolescente".

A OAB-MT explicou que o evento não tinha o objetivo de expor os jovens para concretização da adoção, mas sim "promover a convivência social e mostrar a diversidade da construção familiar por meio da adoção com a participação das famílias adotivas".

Segundo o órgão, nenhuma criança ou adolescente foi obrigada a desfilar e todas "expressaram alegria com a possibilidade". Todos os participantes fizeram desfiles ao lado de "padrinhos" ou pais adotivos, com devida autorização da Justiça.

"A OAB-MT e a Ampara repudiam qualquer tipo de distorção do evento associando-o a períodos sombrios de nossa história e reitera que em nenhum momento houve a exposição de crianças e adolescentes", afirmou a instituição.

Especialista aconselha menos exposição

Para a psicóloga Tatiany Schiavinato, especialista em adoção, exibir as crianças em uma passarela não é o jeito mais indicado para tratar do tema.

"O que é uma passarela? Um lugar em que você é exposto ao público. Entendo as boas intenções de quem organizou, mas é uma exposição muito grande, como se fosse uma vitrine", avalia Schiavinato. "Acredito que medidas menos expositivas sejam mais saudáveis."

Segundo ela, uma boa forma de chamar atenção para o tema da adoção seria mostrar estas crianças em seu cotidiano. "Elas na escola, praticando algum esporte ou brincando, para que o interessado visse como ela é na realidade."

Outro problema, diz Schiavinato, é a expectativa que um evento como este pode criar nas crianças. "Ela vai pensar: Será que estou indo bem? E se não me escolherem? E se quatro amigos mais forem adotados e eu não? É por que eu não fui bem nessa exposição", exemplifica. "Isso gera uma série de questionamentos."

Por outro lado, a psicóloga pontua que tudo depende de como as instituições prepararam a criança. "Se elas explicaram que não é uma competição e que há chance de elas serem adotadas ou não o impacto pode ser menor, mas meu receio é se as partes envolvidas não estavam preparadas para isso", conclui.

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