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Mulher confundida com a irmã fica presa 11 dias injustamente no RJ

18.jun.2019 - Danielle Estevão Fortes, após deixar o Complexo Penitenciário de Gericinó, na zona oeste do Rio, no fim da manhã - Divulgação
18.jun.2019 - Danielle Estevão Fortes, após deixar o Complexo Penitenciário de Gericinó, na zona oeste do Rio, no fim da manhã Imagem: Divulgação

Pauline Almeida

Colaboração para o UOL, no Rio

18/06/2019 17h55

Confundida com a irmã, uma moradora de Magé, na Baixada Fluminense, passou 11 dias presa injustamente e ganhou a liberdade hoje. A esteticista Danielle Estevão Fortes, 26, deixou o Complexo Penitenciário de Gericinó, na zona oeste do Rio, no fim da manhã. A família, que lutou para provar sua inocência, passou quase 24 horas em frente ao presídio até o reencontro.

"O momento mais difícil é não saber onde que minha irmã está. Por que ela me deixou passar por isso sabendo que não fui eu?", desabafou Danielle ao deixar o presídio. Na sequência, ela foi recebida pelos moradores da praia de Mauá, bairro-distrito de Magé, com uma carreata em comemoração. Agora, quer aproveitar os momentos junto à família e também à namorada.

No dia 7 de junho, Danielle Estevão Fortes compareceu à sede da Delegacia de Homicídios da Baixada Fluminense (DHBF), em Belford Roxo, para depor no inquérito que apura o assassinato de um irmão. Ela, então, foi impedida de sair e recebeu voz de prisão.

Daniela Estevão Fortes, a irmã que está desaparecida - Arquivo pessoal
Daniela Estevão Fortes, a irmã que está desaparecida
Imagem: Arquivo pessoal

O alvo da Polícia Civil, na verdade, era sua irmã mais nova, de 24 anos, muito parecida tanto fisicamente como no nome: Daniela Estevão Fortes. Ela é acusada de roubos a duas lojas de celulares na Baixada Fluminense.

Para a defesa da esteticista, um rápido teste de digitais poderia ter corrigido o erro, porém ele não foi realizado.

"Minhas duas irmãs, a gente é bem parecida, mas elas não têm sinais no corpo e nem tatuagens. Eu tenho vários sinais e tenho tatuagem. Somos bem parecidas, mas não somos iguais, características que poderiam ter me liberado antes de ir para Benfica [carceragem temporária do Rio de Janeiro]", contou em entrevista ao UOL.

Passei dias horríveis

Após passar pela triagem, a esteticista seguiu para o presídio de Gericinó, mais conhecido como Bangu, onde dividiu uma cela com oito mulheres.

"Eu passei dias horríveis, comendo comida crua, arroz cru, sem toalha de banho, dormindo no colchão no chão, com cobertor, foi muito martirizante. Por mais que você fale que é inocente, depois que você está presa, é muito difícil, ninguém acredita em você", afirmou.

A liberdade de Danielle foi uma vitória da família, que não a abandonou e buscou as provas para inocentá-la. Além da força dos parentes, recebeu solidariedade de outras presas, revoltadas com a injustiça. "Eu fiquei muito mal, as presas me abraçaram, me emprestaram coisas", lembra.

Danielle Estevão Fortes (centro) reencontra a família após ficar 11 dias presa - Reprodução/Redes sociais
Danielle Estevão Fortes (centro) reencontra a família após ficar 11 dias presa
Imagem: Reprodução/Redes sociais

Segundo erro prolongou estadia na cadeia

No fim da manhã de ontem, amigos e parentes fizeram um protesto em frente ao Fórum de Duque de Caxias, onde correm os dois processos contra a irmã Daniela. Com cartazes, pediram por justiça.

A boa notícia veio com a emissão do alvará de soltura. O grupo seguiu então para o Complexo Penitenciário de Gericinó, mas já no início da noite, os advogados saíram do presídio sem Danielle. O alvará foi emitido com erro tanto no sobrenome quanto no RG, o que manteve a família angustiada e a esteticista, mais uma madrugada presa.

Os parentes não foram embora. Revezaram-se para dormir em um carro e, já perto do meio-dia, puderam, enfim, comemorar a soltura e abraçar a mulher.

O advogado que defende Danielle Estevão Fortes, João Vicente Cordeiro de Oliveira, avalia que a liberdade é apenas o primeiro passo. Ainda é preciso que o juiz de uma das varas onde correm processos contra Daniela Estevão Fortes dê a sentença de absolvição. Para ele, prisões injustas não são incomuns no Rio de Janeiro.

"Majoritariamente em desfavor da população menos favorecida. Eu duvido que na delegacia do Leblon iam prender um irmão no lugar do outro", declarou o advogado, que vai entrar na Justiça, desta vez contra o Estado, para pedir indenização pelos danos sofridos por Danielle.

A reportagem do portal UOL buscou um posicionamento oficial da Polícia Civil e do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro sobre os erros, mas ainda não obteve retorno.

Daniela Estevão Fortes, a irmã procurada, segue desaparecida.

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