Topo

Ursos pardos que vivem no calor do Ceará vão ser transferidos a São Paulo

O urso pardo Dimas - Divulgação/Zoológico de Canindé
O urso pardo Dimas Imagem: Divulgação/Zoológico de Canindé

Aliny Gama

Colaboração para o UOL, em Maceió

09/07/2019 22h17

Após um início de disputa judicial, um acordo põe fim à discussão sobre o local mais adequado para os ursos pardos Dimas e Kátia. Nos próximos dias, os dois animais devem ser transferidos do zoológico particular São Francisco das Chagas, em Canindé, interior do Ceará, para o santuário Rancho dos Gnomos, localizado em Joanópolis, em São Paulo.

Os bichos moram juntos em um recinto e enfrentam o forte calor do Nordeste, contrário ao habitat natural da espécie, que requer o clima frio. De acordo com ativistas de direitos dos animais, eles apresentam sinais de estresse devido à alta temperatura local, mesmo no inverno.

Ontem, a ONG Viva Bicho e os responsáveis pelo zoológico, o Santuário de Canindé, assinaram um acordo para a transferência dos ursos para o Rancho dos Gnomos. Lá, eles encontrarão a ursa Rowena, anteriormente chamada de Marsha e que é irmã de Kátia. A ursa foi transferida do zoobotânico de Teresina, após uma longa batalha judicial.

A ursa parda Kátia  - Divulgação/Zoológico de Canindé
A ursa parda Kátia
Imagem: Divulgação/Zoológico de Canindé

A Justiça também já havia se pronunciado no caso cearense. Em 13 de junho, havia sido determinado a transferência dos animais para São Paulo, com o Judiciário acatando o pedido de ativistas que denunciaram as condições inadequadas aos ursos. O zoológico ainda poderia recorrer da decisão, mas teria de enfrentar uma ação que solicitava R$ 100 mil de indenização por dano ambiental.

Com o atual acordo, além da transferência, foi assinado um termo de cessão dos dois animais. Agora, os ursos aguardam a guia de autorização do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Renováveis) para poderem viajar. Ainda não há data definida para isso acontecer.

Desde a transferência de Rowena, a atriz Luísa Mell e outra ativista iniciaram uma campanha para tentar a reunião dela com os ursos de Canindé.

Elas chegaram a debater com a direção do zoológico de Canindé e a arquidiocese do Ceará, mas não houve acordo para que abrisse mão da tutela dos animais.

Em uma publicação no perfil criado para a ursa Rowena, Dimas aparece na beira de um tanque fazendo movimentos repetitivos com a cabeça e andando para frente e para trás.

Segundo as ativistas, o comportamento é resultado do estresse causado pelos anos de exploração no circo e pela alta temperatura do recinto. Já a ursa Kátia não era exposta rotineiramente ao público por sofrer um problema de pele derivado do calor.

Este vídeo postado na conta do biólogo do @institutoluisamell, @frankalarcon_phd, o flagrante movimento repetitivo do ursinho Dimas. São as consequências dos anos de sofrimento em circo. Para desenvolver os números circenses, onde são obrigados a equilibrarem-se nas patas dianteiras e em bolas gigantes, andar de bicicleta, patins, skate, saltar obstáculos, passam por um treinamento cruel. Se não fizerem os movimentos acrobáticos e de equilíbrio, recebem choques, não são alimentados e outras punições piores que podemos prever. Os traumas da vida de sofrimento surgem com os anos e aparentam estar dançando, mas não se enganem. É uma fuga para um vazio maior. Como se rodassem em círculos infinitos num mundo inexistente. O mundo da fuga da crueldade. Segundo especialistas, o problema neurológico é disparado por vários gatilhos causados por desconfortos que remetem às crises de ansiedade. Fome ou o atraso na alimentação, barulhos altos, desconforto térmico e outras situações iniciam a movimentação. Não há registros de que nos zoos conseguem abolir este diagnóstico. É preciso um ambiente silencioso, sem visitações, cercado de carinhos e cuidados especiais para minimizar os sintomas. No caso da ursinha Rowena, foi instantâneo. No primeiro dia no @ranchodosgnomos, nossa princesinha entrou na calmaria libertadora e não faz mais os terríveis movimentos repetitivos. É isso que queremos para todos os ursinhos na mesma situação. Com a ajuda de DEUS e de vocês, VAMOS VENCER! OPERAÇÃO URSOS em AÇÃO. Não importa quem. Não importa onde. Não vai ficar nenhum pra trás. GRATIDÃO! #direitodosanimais ?

Uma publicação compartilhada por Ursa Rowena (@ursarowena) em

Em novembro do ano passado, após parecer da Semace (Superintendência Estadual do Meio Ambiente), o recinto que abriga os ursos em Canindé foi reformado e ampliado. Foram instalados troncos, plantada grama e construído um corredor de segurança.

O Rancho dos Gnomos já está preparado para receber Dimas e Kátia. Com dinheiro de doações, foi construído um recinto de 1,9 metro quadrado, com piscina de 80 mil litros de água, além de deques, área de descanso, área de alimentação e um espaço com grama.

O recinto em que Dimas e Kátia vão ficar é vizinho ao espaço da ursa Rowena. Durante a adaptação ao novo lar, a equipe do santuário vai aproveitar para avaliar a possibilidade de os três ursos viverem juntos.

Os três ursos pardos chegaram ao Brasil por meio do tráfico de animais quando ainda eram filhotes. Foram parar no Nordeste ao serem resgatados de circos após anos de exploração. Rowena morava com Kátia e outros dois irmãos --Mircha e Ira-- dentro de um caminhão-baú.

Eles foram resgatados pelo Ibama no município de Quatipuru, no Pará. Marsha, Mischa e Ira foram levados para o zoobotânico de Teresina, em 2011, e Kátia foi levada para Canindé, para fazer companhia a Dimas. Este chegou ao zoológico de Canindé em outubro de 2008, depois que foi abandonado amarrado com correntes e sem um olho, em uma estrada do Ceará. Segundo a Justiça, Dimas era alimentado no circo com rapadura e refrigerante.

Mischa e Ira morreram, em 2015 e 2016, respectivamente. Já Rowena, oito meses após sua chegada a Joanópolis, ganhou peso e trocou a pelagem, mudando totalmente de aparência.

No Instagram no Rancho dos Gnomos, as publicações com a ursa Rowena já mostram a expectativa para a chegada de Dimas e Kátia.

Cotidiano