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Sequestrador de Olivetto escapou em 'fuga do século' e influenciou Marcola

Chileno Mauricio Hernández Norambuena preso em fevereiro de 2002 - Paulo Whitaker/Reuters/Arquivo
Chileno Mauricio Hernández Norambuena preso em fevereiro de 2002 Imagem: Paulo Whitaker/Reuters/Arquivo

Talita Marchao

Do UOL, em São Paulo

19/08/2019 14h03

O ex-guerrilheiro chileno Mauricio Hernández Norambuena, condenado a 30 anos de prisão pelo sequestro do publicitário Washington Olivetto em 2001, tem uma ficha digna de roteiro de filme: fugiu de um presídio de segurança máxima no Chile de helicóptero e, no Brasil, seria um dos influenciadores da reorganização estrutural do PCC (Primeiro Comando da Capital). Com passagens por vários presídios de segurança máxima, Norambuena é ainda o preso que passou mais tempo detido na solitária no Brasil: 16 anos

O presidente Jair Bolsonaro (PSL) autorizou a extradição dele para o Chile --Norambuena já está em São Paulo, na Superintendência da Polícia Federal (PF). Conhecido como Capitão Ramiro, o ex-integrante da FPMR (Frente Patriótica Manuel Rodríguez), Norambuena cumpre pena no Brasil por associação criminosa, tortura e sequestro de Olivetto, que passou mais de 50 dias em cativeiro.

No Chile, tem duas condenações à prisão perpétua: pelo assassinato do senador Jaime Guzmán, aliado do ditador Augusto Pinochet, contra quem a FPMR lutou contra, e pelo sequestro de Cristian Edwards, herdeiro do jornal El Mercurio, ambos em 1991. Em 1996, foi resgatado de helicóptero de um presídio de segurança máxima de Santiago em uma operação que teve o auxílio do IRA (Exército Republicano Irlandês), que forneceu os pilotos para a operação de resgate. No Chile, o episódio é conhecido como a "fuga do século".

Antes de entrar para a FPMR, na década de 80, Norambuena era professor de educação física. Desde a sua fuga no Chile até o sequestro de Olivetto, seu paradeiro era desconhecido.

Norambuena e Marcola: colegas de prisão

O chileno, líder operacional da FPMR, e Marcos Willians Herbas Camacho, conhecido como Marcola, o princípal lider do PCC, estiveram presos juntos em duas ocasiões. Em uma delas, passaram cerca de um ano detidos no mesmo local: a penitenciária de Presidente Bernardes.

Em seu livro "Laços de Sangue: a História Secreta do PCC, o procurador de Justiça Marcio Sérgio Christino afirma que. após o encontro dos dois, o PCC mudou a sua estrutura, que deixou de ser piramidal. "Depois do contato com Norambuena, criou-se o que é chamado de Sintonia Final. Semelhante com o que se costuma denominar comitê central, que é usual nas organizações de esquerda", diz o livro.

Sintonia é o nome dado a cada departamento dentro do PCC. Cada célula fica responsável por determinadas funções, desde a comercialização de drogas, a atuação de advogados e até mesmo o transporte de parentes para visitar presídios localizados no interior.

Investigações apontam ainda que o chileno teria ajudado não só na reorganização estrutural do PCC mas também ensinado táticas de guerrilha e terrorismo.

Em 2005, investigadores federais descobriram um plano para resgatar Marcola, Norambuena e Luiz Fernando da Costa, o Fernandinho Beira-Mar, enquanto os três estavam presos em Presidente Bernardes.

O sequestro de Olivetto

O publicitário foi sequestrado em 11 de dezembro de 2001, depois de sair de sua agência de publicidade no bairro de Higienópolis, em São Paulo, onde a FPMR mantinha certa estrutura. O carro de Olivetto foi parado em uma falsa blitz da PF --os sequestradores, chilenos, usavam coletes falsos, e exigiam o pagamento do resgate de R$ 10 milhões.

Washington Olivetto acena da sacada de seu apartamento após ser libertado em fevereiro de 2002 - Evelson de Freitas/Folha Imagem
Washington Olivetto acena da sacada de seu apartamento após ser libertado em fevereiro de 2002
Imagem: Evelson de Freitas/Folha Imagem

Olivetto foi mantido em cativeiro em uma casa no Brooklin, na zona sul da capital paulista, até que no dia 2 de fevereiro de 2002 parte dos sequestradores foi presa em um sítio em Serra Negra, no interior de SP, depois de uma denúncia anônima. Entre os presos estava Norambuena, que indicou a localização do publicitário. O dinheiro do resgate, segundo o grupo, seria usado para bancar grupos armados no Chile.

Após ser libertado, o publicitário falou sobre a sua rotina no cativeiro: 53 dias sem falar com ninguém, com som alto e luz durante todo o tempo. Foi colocado em um espaço sem janelas de cerca de 1 metro por 2,5 metros. Tinha um caderno, livros e colocou os nomes de pessoas que amava nas paredes para pensar em coisas boas. Recebia um balde com água para banho a cada quatro dias e era monitorado 24 horas por câmeras.

Norambuena passou pelo presídio de Taubaté (SP) e em seguida foi mandado para Presidente Bernardes, onde foi submetido ao RDD (Regime Disciplinar Diferenciado), em que o presidiário permanece sozinho na cela por 22 horas por dia e tem duas horas de banho de sol. O chileno permaneceu preso ainda nos presídios federais de Campo Grande (MS), Porto Velho (RO) e Mossoró (RN), de onde foi transferido no começo deste ano para o sistema prisional comum em Avaré (SP). A família de Norambuena diz que ele foi transferido para a PF, em SP, no último dia 16.

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