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Homem denuncia ataque racista em Paraty (RJ): "Tentaram atacar fogo em mim"

Daniel Oliveira dormia no carro quando foi atacado por três indivíduos no dia 12 de outubro - Arquivo Pessoal
Daniel Oliveira dormia no carro quando foi atacado por três indivíduos no dia 12 de outubro Imagem: Arquivo Pessoal

Gustavo Frank

Do UOL, em São Paulo

04/11/2019 17h46

Resumo da notícia

  • Daniel Moreira voltava do trabalho da Vila Trindade para Paraty quando o carro que dirigia quebrou
  • Enquanto dormia no veículo, a vítima foi acordada por três indivíduos que o agrediram verbalmente e fisicamente; um deles tinha um isqueiro em mãos
  • Agressores tentaram inicialmente colocar fogo em seu cabelo e posteriormente no carro com ele dentro
  • Em entrevista ao UOL, Daniel revela descaso da polícia com o caso

No dia 12 de outubro de 2019, Daniel Moreira estava dormindo dentro de um carro, enquanto voltava do trabalho, quando foi atacado por três pessoas que ameaçaram colocar fogo no veículo com ele dentro.

Em entrevista ao UOL, Daniel conta que, na época, estava desempregado até conseguir um emprego como ajudante de quiosque na praia. Entre os seus serviços, uma de suas responsabilidades era viajar com o carro entre o comércio e a casa de sua chefe, que servia também como depósito de produtos para o estabelecimento.

"Nesse dia, o carro dela quebrou a tarde, quando eu estava indo embora. Então, ela pediu para que eu ficasse no carro dela, tomando conta até que ela pudesse ir até mim. Quando era 11h30, perto da meia-noite, eu fui dormir porque não conseguiria ficar acordado a noite inteira por ter trabalhado o dia inteiro", relembra.

A vítima diz ter acordado assustado no meio da noite quando notou uma mulher próxima dele com um isqueiro aceso na mão.

"Acordei de noite com uma mulher tentando botar fogo no meu cabelo. Dizendo: 'vou botar fogo no cabelo desse negão'. Aí eu bati com a mão, né? Logo depois, tirei a cabeça. Na hora que eu tentei sair do carro, vieram duas pessoas e a seguraram. Uma delas pegou o isqueiro que estava na mão dela e falou, enquanto segurava a porta: 'vamos colocar fogo no carro com o criolo dentro'", acrescenta.

Daniel afirma ter conseguido sair do carro por meio de uma das janelas e tentado estabelecer uma conversa com um dos rapazes que fazia parte do grupo.

"Eles me chamavam de 'negão' e 'criolo' o tempo todo. Eu perguntei: 'pô, você não respeita o trabalhador?'. Foi quando um deles continuou a me ofender e começou me agredir".

Depois do ataque, a vítima mandou mensagens para sua chefe, que o aconselhou a ficar na casa dela: "Como eu não moro em Trindade, eu fui para a casa dela para me sentir mais protegido. Não conheço ninguém lá, não procurei confusão com ninguém. Estava só trabalhando. Entrei na casa dela, tranquei tudo e fiquei a noite toda acordado esperando. Esperei amanhecer e ela chegar lá. Fiquei acordado com medo de que eles entrassem e arrombassem a porta".

Daniel contou ter precisado ir até Paraty para fazer o boletim de ocorrência no dia seguinte, sábado (13), mas não encontrou ninguém lá. O caso foi reportado apenas no domingo (14) de manhã.

"A polícia nem ouve direito, eu me senti muito mal por conta do descaso da polícia com esses assuntos (...) Eles dizem que não tinha câmera, mas tinha uma em cima de onde aconteceu a agressão. Tem uma no poste, lá em cima. O movimento negro solicitou o presidente do bairro da Vila de Trindade, filmagem do dia. Falam que depende de uma empresa de segurança, mas ninguém se mobiliza para ajudar. Não estão nem aí".

"Classificaram como injúria racial e lesão corporal. Sei que não sou advogado, mas no meu modo de pensar foi tentativa de homicídio. Me prenderam dentro do carro, me agrediram, tentaram atacar fogo comigo dentro. Para mim, é tentativa de homicídio. As pessoas parecem que tentam amenizar a parte do agressor e colocam a vítima como se fosse a culpada pelo que está acontecendo".

Por fim, Daniel alerta: "A polícia está matando muitos negros inocentes por que os confundem. Sempre digo a outras pessoas negras para evitar que andem sozinhas e usem bonés. Isso prova que existe racismo no Brasil, sim".

Investigação da polícia

Procurada pela reportagem, a Polícia Civil do Rio de Janeiro diz estar buscando testemunhas para esclarecer o caso.

"De acordo com informações da 167ª DP (Paraty) foi instaurado inquérito policial para apurar as circunstâncias do fato. Diligências estão sendo realizadas em busca de testemunhas que possam ajudar a esclarecer o caso. As investigações estão em andamento".

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