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Após perder filho por coronavírus, mãe distribui EPIs no RJ e cria até rifa

Alan Patrick, morto por coronavírus, e Regina Leonora, que era sua mãe de criação - Arquivo pessoal
Alan Patrick, morto por coronavírus, e Regina Leonora, que era sua mãe de criação Imagem: Arquivo pessoal

Marcela Lemos

Colaboração para o UOL, no Rio

05/05/2020 15h15

Resumo da notícia

  • Regina Leonoro decidiu distribuir EPIs em hospitais após perder o filho Alan Patrick, técnico em enfermagem, por coronavírus
  • Ela teve a ideia durante o enterro de Alan e já gastou R$ 4.000 com a iniciativa
  • Sem dinheiro, Regina lançou uma rifa para conseguir mais EPIs
  • Alan tinha 38 anos e era "filho de coração" de Regina. Ele morava com ela desde os 10 anos de idade
  • Eles se conheceram no Complexo do Alemão quando Regina fazia trabalho voluntário no local
  • Alan era técnico de enfermagem no Hospital Carlos Chagas e morreu em 22 de abril

A morte do técnico de enfermagem Alan Patrick do Nascimento, 38, em decorrência do novo coronavírus, fez com que a mãe dele, Regina Leonora Evaristo, fosse incentivada a começar uma nova missão. Ela passou a comprar do próprio bolso EPIs (equipamentos de proteção individual) para distribuir nas unidades de saúde do Rio de Janeiro.

Regina já gastou até o momento R$ 4.000 com os materiais e agora iniciou uma rifa de um conjunto de louças para arrecadar mais recursos.

Ela teve a ideia de começar a ajudar os profissionais durante o enterro do filho no final do mês passado. Regina considerava Alan um "filho de coração", já que ela passou a cuidar quando o técnico de enfermagem tinha 10 anos. Eles se conheceram no Complexo do Alemão, na zona norte do Rio, e Alan morava ora com Regina e ora com a tia biológica, que vivia no Alemão.

Eu estava no sepultamento e recebi um amigo dele falando que não tinha equipamento [de proteção] para os profissionais. No início achei que era um ou outro funcionário que não tinha, mas depois vi que era geral e que a situação era muito ruim também em outras unidades. Aí, comecei essa caminhada
Regina Leonora Evaristo

O profissional, que trabalhava na emergência do hospital Carlos Chagas, na zona norte do Rio, foi internado em 14 de abril ao chegar na unidade com falta de ar. Ele morreu após oito dias, quando já havia sido transferido para o hospital Zilda Arns, em Volta Redonda, no interior do estado.

Após perder o filho, Regina resolveu abraçar essa causa e conseguiu distribuir EPIs para profissionais que atuam nos hospitais Carlos Chagas, Salgado Filho, Getúlio Vargas, Hospital Geral de Bonsucesso, Pedro Ernesto e também para PMs e garis que trabalham na cidade. No entanto, na maioria dos casos, os equipamentos como máscaras e viseiras são entregues de forma escondida. A direção do Hospital Carlos Chagas, por exemplo, não aceitou a doação.

"No Carlos Chagas, o diretor informou que os profissionais estavam equipados e recusou a doação, mas vários profissionais me procuram pedindo os equipamentos. Nos encontramos em pontos diferentes, estação de trem, rua de trás do hospital e assim vou distribuindo", explicou.

Agora, para conseguir mais recursos, Regina pede ajuda da população através de uma vaquinha virtual. O dinheiro arrecadado será usado para a compra de mais materiais que serão distribuídos aos profissionais da saúde.

Eu nem durmo pensando nisso, em como conseguir ajudar mais
Regina Leonora Evaristo

Alan e Regina - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Regina distribuiu EPIs em cinco hospitais após a morte de Alan Patrick
Imagem: Arquivo pessoal

Filho morre aos 38 anos

Alan Patrick era técnico de enfermagem e estava próximo de se formar em enfermagem neste ano. Ele tinha 38 anos e não tinha doenças pré-existentes. O profissional começou a se sentir mal em 7 de abril e se queixou de dores no corpo.

De acordo com a mãe, ele chegou a suspeitar de chikungunya. Ao procurar atendimento, ele foi mandado para casa. Três dias depois, ele retornou ao hospital com falta de ar. Alan Patrick foi internado e precisou ser intubado. Em 14 de abril, Alan foi transferido para o Zilda Arns, em Volta Redonda, mas chegou em estado gravíssimo. Depois de uma semana, ele não resistiu.

Alan era o filho de coração de Regina, como ela mesma fala. Eles se conheceram no Complexo do Alemão, na zona norte do Rio, quando Regina fazia trabalho voluntário na comunidade e distribuía quentinhas com um grupo de escoteiros. Alan tinha 10 anos e vivia com uma tia, na ocasião no conjunto de favelas.

"Ele chegou pra mim e perguntou se podia me chamar de mãe. Ele disse que a minha comida era gostosa. Ele chegou a passar fome e desde então eu virei a mãe dele", explicou.

Dos 10 até os 38 anos de idade, Alan se revezava entre a casa da tia e a casa de Regina. Juntos, os dois integravam a ONG Aleia. O profissional era beneficiário do seguro de vida de Regina.

Ele foi definido pela mãe como uma pessoa calma, tranquila, que brincava ao receber os pacientes no hospital para aliviar a dor. "Era zeloso e cuidadoso", recorda.

Procurada, a direção do Hospital Estadual Carlos Chagas informou "que não há falta de equipamentos de proteção na unidade e que não procede informação sobre recusa de doação para a unidade. A SES ressalta, inclusive, que criou um departamento exclusivo para receber e incentivar doações, incluindo de EPIs".

A secretaria também informou que EPIs para utilização de profissionais de saúde "devem seguir normas criteriosas de órgãos de controle com o objetivo de preservar pacientes e profissionais".

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