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Veterinária que morreu por 'doença da urina preta' tem órgãos doados em PE

A médica veterinária Pryscila Andrade, de 31 anos, não resistiu à doença - Reprodução/Instagram
A médica veterinária Pryscila Andrade, de 31 anos, não resistiu à doença Imagem: Reprodução/Instagram

Aliny Gama

Colaboração para o UOL, em Recife

04/03/2021 11h39Atualizada em 04/03/2021 19h52

A família da médica veterinária Priscyla Andrade, de 31 anos, que morreu vítima da síndrome de Haff, conhecida como "doença da urina preta", autorizou a doação de órgãos dela, após a constatação da morte cerebral, na manhã de ontem, no Real Hospital Português, localizado na área central do Recife. Foram doados o coração, o fígado, os rins e as córneas dela.

Os órgãos foram coletados hoje após exames de protocolos realizados pelos médicos da Central de Transplantes de Pernambuco.

Priscyla adoeceu no dia 18 de fevereiro, após um almoço em família que foi servido peixe arabaiana. O pescado foi comprado no bairro do Pina, zona sul do Recife, e estaria contaminado por toxinas biológicas que causam a síndrome de Haff. Horas depois do consumo, a médica veterinária passou mal e foi internada em um leito de UTI no Real Hospital Português, vindo a óbito na manhã de ontem.

Além de Priscyla, outras quatro pessoas ingeriram o peixe, sendo uma delas a irmã Flavia Andrade, de 36 anos, que ficou hospitalizada por quatro dias e se recupera em casa. As outras três pessoas estão sendo monitoradas e não necessitaram de internamento em hospital. O caso está sendo investigado pela Sesau (Secretaria de Saúde do Recife) e pela SES-PE (Secretaria Estadual de Saúde).

Priscyla era médica veterinária e especialista em odontologia equina. Defensora da vaquejada, praticava o esporte pelo haras Maria Barbosa, em Sergipe.

Segundo familiares da médica veterinária, durante o dia de ontem, médicos da Central de Transplantes de Pernambuco realizaram exames no corpo de Priscyla, que estava sendo mantido por aparelhos, para saber da possibilidade da doação de órgãos. Com o resultado positivo, foram coletados o coração, os rins, o fígado e as córneas do corpo dela.

Alyne Andrade relatou, no Instagram, que a doação dos órgãos da irmã foi possível porque Priscyla conseguiu recuperar todas as funções do corpo antes de sofrer ontem um AVCH (Acidente Vascular Cerebral Hemorrágico) causando morte cerebral.

"Hoje, você devolve a vida de alguém deixando seu coraçãozinho batendo em um (a) jovem, devolve a visão de alguém deixando seus lindos olhos, alguém sairá da hemodiálise por sua causa doando seu rim, e restaurará a saúde de alguém doando seu fígado (...). Foi confirmada a síndrome de Haff e como complicação não esclarecida fez um AVCH irreversível, sendo declarada morte encefálica", explicou Alyne, que é estudante de medicina.

Flavia disse que o ato de doar os órgãos de Priscyla reafirma os exemplos de bondade da irmã e que ela continuará viva nos transplantados. "Priscyla brilhou tanto aqui na terra, que se transformou em estrela. Ela vai continuar transmitindo seu amor e sua bondade. Ela está nos braços de Deus. Demos continuidade à bondade dela, doando coração, rins, fígado e córneas", disse ela, em um post no Instagram.

O corpo de Priscyla Andrade está sendo velado desde às 16h, no cemitério Morada da Paz, em Paulista, região metropolitana do Recife. Entretanto, o momento será restrito à família, devido à pandemia do novo coronavírus. Haverá um momento religioso às 19h e uma homenagem às 21h, antes da cremação do corpo. A família de Priscyla disponibilizou um link para participação virtual das cerimônias e homenagens que devem ocorrer antes da cremação do corpo.

A família afirmou que o diagnóstico de síndrome de Haff veio por acaso, somente dois dias depois do internamento dela no hospital. Flávia relatou que foi conversar com um médico que acompanhava a irmã e ele teria citado um caso parecido em outro paciente que comeu peixe arabaiana contaminado. Flavia associou o peixe consumido pela família e reportou ao médico, e assim foi fechado o diagnóstico no dia 20.

Flavia socorreu a irmã e contou que ela não conseguia se mexer por sentir muitas dores no corpo, que ficou enrijecido. "Ela ficou paralisada porque não conseguia nem que tocasse nela. Eu também comecei a apresentar os sintomas, fiquei da nuca para o quadril paralisada com muita dor, eu não conseguia mais andar. Eu pensei que fosse um estresse", contou.

Doença rara

A síndrome de Haff é uma doença rara e é ocasionada pela presença de toxina biológica de algas que são ingeridas por peixes. A substância ataca a musculatura, deixando a urina escura devido à liberação de proteína no sangue, podendo comprometer os rins e outros órgãos, segundo o médico infectologista e professor da UFAL (Universidade Federal de Alagoas), Fernando Maia.

O biólogo e professor dos cursos de biologia e engenharia de pesca da UFAL, Cláudio Sampaio, explicou que não é possível reconhecer se o peixe está contaminado e destaca que a toxina não está presente apenas na espécie arabaiana. Sampaio disse que a toxina de algas vai se acumulando ao longo da cadeia alimentar de espécies aquáticas.

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