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Conteúdo publicado há
15 dias

Mulher é detida por injúria racial contra funcionário de farmácia em MG

Rodrigo Scapolatempore

Colaboração para o UOL

16/04/2021 18h54Atualizada em 16/04/2021 19h04

Uma mulher, identificada como Mara Neves Adriano, de 66 anos, foi detida após ser acusada de injúria racial pelo atendente Luis Henrique Medeiros de Oliveira, de 27, que trabalha em uma farmácia em Uberaba (MG).

Parte dos xingamentos foram registrados em vídeos, antes e depois da chegada dos policiais militares. A situação aconteceu na última terça-feira (13), mas veio à tona após a divulgação das imagens nas redes sociais.

"Todo mundo está alisando o cabelo por uma questão espacial, o Brasil está super populado (sic), você senta no cinema nesse cabelo e não é um cabelo prático, eles não podem querer ser donos do mundo", disse a mulher já dentro do carro da polícia, enquanto era conduzida.

No vídeo registrado antes da chegada dos agentes, a cliente da farmácia reclamou do atendimento de outro funcionário. Ao ver a situação com o colega, Oliveira tentou entender o que estava acontecendo e intermediar. Foi quando começaram as ofensas contra ele, ainda dentro da loja.

Já fora do estabelecimento, é possível ver o atendente tentando explicar a situação e acalmar os ânimos, sem se alterar, enquanto ela segue com as ofensas.

O funcionário seguiu gravando toda a situação, o que também foi feito por outras testemunhas que passavam pelo local.

Estado de fúria

No boletim de ocorrência, ao qual o UOL teve acesso, os policiais afirmaram que a aposentada estava "em estado de fúria, extremamente agressiva e alterada". Mesmo com a presença dos PMs, a mulher seguiu com as ofensas contra o atendente e disse que ele trabalhava mal por conta do seu cabelo.

"Falou que o cabelo dele era ridículo e que ele não deveria trabalhar com um cabelo tão grande", relatou um trecho do BO.

A mulher disse ainda que Oliveira deveria voltar para o gueto, que ele era um "vagabundo" e "imprestável" e que "só poderia ser bicha".

Enquanto era levada à viatura, ela alegou que também seria negra e que "no Brasil todo mundo é negro".

Jovem se pronuncia

Em vídeo, divulgado nas redes sociais, o jovem lamentou que esse tipo de comportamento siga ocorrendo com normalidade.

"Foi muito triste, é uma situação que infelizmente ainda acontece. Nós que somos pessoas pretas, quando a gente usa nosso cabelo do jeito que a gente é, quando se aceita. Eu não esperava ser tão maltratado, humilhado e desrespeitado no meu ambiente de trabalho", afirmou.

A aposentada não foi presa, mas vai responder por injúria racial. Depois de levada pela PM, ela assinou um TCO (Termo Circunstanciado de Ocorrência) e foi liberada.

O UOL entrou em contato com a defesa de Mara Adriano, mas, até o momento, não obteve retorno.

Em nota, a rede Drogasil, onde aconteceu o episódio, disse que "lamenta o caso ocorrido em Uberaba".

"Nossa empresa é contra qualquer tipo de discriminação e defende os valores da diversidade dentro e fora da empresa. Nos solidarizamos com o nosso funcionário e reafirmamos o compromisso de ser uma empresa que preza pela integração e diálogo entre todas as raças, crenças, culturas e gêneros, sempre com respeito e equidade", concluiu o comunicado.

Racismo e injúria racial

A Lei de Racismo, de 1989, engloba "os crimes resultantes de discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional". O crime acontece quando há discriminação generalizada contra um coletivo de pessoas.

O autor de crime de racismo pode ter uma punição de 1 a 5 anos de prisão. Trata-se de crime inafiançável e não prescreve. Ou seja, não é possível pagar fiança e a vítima pode fazer a denúncia a qualquer momento, não tendo um prazo máximo para que ela seja feita.

Já a injúria racial consiste na utilização de elementos referentes a raça, cor, etnia, religião ou origem a fim de atacar a dignidade de alguém de forma individual. Um exemplo de injúria racial é xingar uma pessoa negra de forma pejorativa utilizando uma palavra relacionada à raça.

A delegada esclareceu que a própria Polícia Militar em Minas tem competência, nesta situação, para enviar o caso à Justiça, mas que, posteriormente, o Judiciário pode pedir novas investigações para a Polícia Civil.

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