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Boate Kiss: 'Tinha que passar por cima de corpos', diz sobrevivente

Cristiane dos Santos Clavé é a 13ª pessoa a prestar depoimento no julgamento dos réus pelo incêndio na boate Kiss - Reprodução/TJ-RS
Cristiane dos Santos Clavé é a 13ª pessoa a prestar depoimento no julgamento dos réus pelo incêndio na boate Kiss Imagem: Reprodução/TJ-RS

Hygino Vasconcellos

Colaboração para o UOL, em Porto Alegre

04/12/2021 19h51Atualizada em 05/12/2021 09h09

A sobrevivente Cristiane dos Santos Clavé, 34, afirmou em depoimento neste sábado que teve que fechar os olhos e tatear nas paredes para conseguir sair da boate Kiss, em Santa Maria (RS), em meio ao incêndio. Do lado de fora, disse que passou "por cima de corpos" no chão para procurar um amigo, que acabou morrendo no local. Cristiane é a 13ª pessoa a depor no julgamento de quatro réus que já dura quatro dias, em Porto Alegre.

"Quando eu saí de lá de dentro eu já vi seis pessoas atiradas no estacionamento do Carrefour (que fica em frente à boate). Que, para mim hoje, é a pior parte passar por ali. É bem perto do meu serviço. Eu não tenho problema de olhar para a boate, eu tenho problema de olhar para o outro lado porque eu tinha que passar por cima dos corpos para procurar ele (um amigo)."

Minutos antes do incêndio, Cristiane foi ao banheiro com uma amiga. Na volta, já viu pessoas correndo. Inicialmente, imaginou que fosse uma briga, percepção que mudou em segundos, ao olhar para o palco na tentativa de localizar o amigo.

"Eu fui tentar enxergar ele, como ele era bem alto eu disse 'tá, eu vou enxergar a cabeça dele'. Ele não estava lá, nenhum dos nossos amigos estava lá, daí eu disse para ela (uma amiga que a acompanhava) "vamos para fora". E um monte de gente na volta de nós achou que era briga, só que quando eu olhei para o palco, o rapaz estava com extintor tentando apagar. (...) Era como se as chamas estivessem por dentro do teto, mas era muito pequeno, na minha visão aquilo ia ser apagado."

Ao perceber a tentativa frustrada, já se virou para sair do local. "Só que, nesse momento, todo mundo tentou sair e meio que tu não precisava nem caminhar", explicou. No caminho, ajudou ainda duas jovens que estavam de salto alto e torceram os tornozelos. "Começaram a pisar nelas, aí eu puxei elas pela mão." Ao passar pelo caixa, avisou a atendente.

"Quando andava para a frente parecia que a fumaça pegou um encanamento de ar-condicionado e passou por cima e chegou lá na frente. Quando cheguei (próximo da porta) a fumaça era muito quente. Como eu já estava sentindo falta de ar anterior, eu respirei fundo, fechei minha boca, meus olhos, e fui com minha mão na parede."

Ela lembrou, ao tatear no escuro, de uma mesa na saída da boate onde a recepcionista fazia o controle. "Daí eu pensei, tá eu vou com a mão, fui indo para a mão até encontrar a mesa. Daí quando encontrei a mesa sabia que a porta estava do lado (...) Aí eu caí que tinha um guarda-corpos." No local, já havia pessoas tentava auxiliar na saída de quem estava no interior da casa noturna.

Logo após, a jovem puxou o celular e entrou em contato com o irmão, dizendo que estava tudo bem. "E ele me disse: 'não, eu não acredito em ti, eu vou aí te ver'. Aí ele veio e foi lá e me abraçou. Eu disse para ele que aquilo era um filme de terror."

O irmão ainda ajudou a quebrar o revestimento da parede de onde ficavam os banheiros. "Aí ele veio para mim, disse que ia entrar (na boate) e eu disse "não, tu não vai entrar"." Logo após, os bombeiros isolaram o local e ninguém mais pode entrar na casa noturna. "Aí ele me levou para casa e aí quando chegou no portão de casa eu desabei porque eu tinha voltado para os meus filhos"

Cristiane contou que não dormiu por 48 horas e relatou que perdeu cerca de 15 amigos e conhecidos.

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