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PMs mataram 'cara incapaz de fazer mal', diz irmão de rapaz com deficiência

O torcedor do Vasco Ruan do Nascimento morreu após ser baleado na Barreira do Vasco, zona norte do Rio - Reprodução/Rede Social
O torcedor do Vasco Ruan do Nascimento morreu após ser baleado na Barreira do Vasco, zona norte do Rio Imagem: Reprodução/Rede Social

Marcela Lemos

Colaboração para o UOL, no Rio

10/05/2022 04h00

Ruan do Nascimento, 26, morto na última sexta-feira (6), na comunidade Barreira do Vasco, em São Cristóvão, zona norte do Rio, foi baleado nas costas por policiais à paisana que estavam em um carro descaracterizado de cor vermelha, relatou ao UOL a família do rapaz.

Ele era portador de deficiência intelectual —Ruan não sabia ler, escrevia apenas o próprio nome e tinha o apelido de "ii" em referência à maneira de se comunicar. Torcedor fanático do Vasco da Gama e frequentador assíduo dos jogos do time, ele foi homenageado pelo clube no sábado (7).

Renan do Nascimento, irmão da vítima, diz que a PM "matou um cara incapaz de fazer mal a alguém". Ele descreveu o caçula da família como um homem doce e apaixonado pelo Vasco.

8.mai.2022 - Sepultamento de Ruan do Nascimento, baleado na Barreira do Vasco, zona norte do Rio - SANDRO VOX/AGÊNCIA O DIA/AGÊNCIA O DIA/ESTADÃO CONTEÚDO - SANDRO VOX/AGÊNCIA O DIA/AGÊNCIA O DIA/ESTADÃO CONTEÚDO
8.mai.2022 - Sepultamento de Ruan do Nascimento, baleado na Barreira do Vasco, zona norte do Rio
Imagem: SANDRO VOX/AGÊNCIA O DIA/AGÊNCIA O DIA/ESTADÃO CONTEÚDO

Ruan estava a caminho de uma barbearia, no interior da comunidade, quando foi atingido.

De acordo com Renan, após baleado, o irmão foi jogado pelos PMs no porta-malas do veículo descaraterizado e levado ao Hospital Municipal Souza Aguiar, no centro do Rio.

Ninguém na região foi avisado do destino. A família precisou deduzir para onde Ruan havia sido levado após ser informada por moradores sobre o disparo. No hospital, os parentes dizem que foram informados de que o tiro partiu de policiais pela chamada "sala de polícia" —onde ocorrências policiais são registradas nas unidades de saúde.

PMs são afastados das ruas

Os PMs envolvidos na ocorrência foram afastados das ruas, segundo a Polícia Militar do Rio.

Os agentes —que não tiveram os nomes divulgados— integram o Batalhão Reservado da PM, de acordo com Comissão de Direitos Humanos da OAB-RJ (Ordem dos Advogados do Brasil no RJ), que presta apoio jurídico à família.

Ainda de acordo com a PM, os policiais prestaram depoimento à 1ª Delegacia de Polícia Judiciária Militar e um procedimento apuratório interno foi instaurado.

A corporação diz que os policias estavam na comunidade "para verificar a comercialização ilegal de cobre na localidade do Café, onde ocorreu confronto durante a checagem".

No entanto, a família nega que tenha ocorrido troca de tiros na região.

As armas dos PMs foram recolhidas para perícia. Segundo a corporação, na ação foram apreendidos uma granada, um rádio comunicador e 240 papelotes de crack.

Enterro no Dia das Mães

Ruan foi sepultado no domingo, Dia das Mães, no Cemitério São Francisco Xavier, no Caju. O irmão reforçou o quanto o morador era querido e conhecido na comunidade onde nasceu.

Atualmente, ele se dividia entre a Barreira do Vasco, onde morava com o pai, e o bairro do Lins, também na zona norte, onde ficava com a mãe.

Apesar da deficiência intelectual, Ruan era uma pessoa independente.

"A gente tá tentando levar. É um sentimento de revolta. Ele era uma pessoa indefesa, um homem que queria jogar futebol com crianças na comunidade. A gente que tinha que explicar que ele era mais forte, que ele não podia participar daquele jogo específico. Era puro", disse o irmão.

Ruan completaria 27 anos no próximo dia 19. No sábado, ele foi lembrado no jogo do Vasco realizado pela Série B do Campeonato Brasileiro de futebol masculino. Ele integrava a torcida FJV (Força Jovem Vasco).

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