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9 meses

Castigo e humilhação: Ex-funcionária fala sobre escola suspeita de tortura

Criança foi amarrada em um poste em escola investigada por tortura e maus-tratos na zona sul de São Paulo - Reprodução
Criança foi amarrada em um poste em escola investigada por tortura e maus-tratos na zona sul de São Paulo Imagem: Reprodução

Do UOL, em São Paulo

02/07/2023 23h41

A ex-funcionária da escola infantil Pequiá, investigada por suspeita de tortura em São Paulo, Anny Garcia Junqueira revelou que presenciou diversas cenas de castigos e humilhações sofridas pelos alunos do colégio. As declarações foram dadas ao Fantástico.

O que aconteceu

A ex-funcionária contou que um aluno às vezes era colocado para fazer as necessidades em uma caixa de areia de gato, com todos vendo. "Chegaram a deixar ele sentado em cima de um ralo", disse. Os dois donos da escola foram presos temporariamente esta semana.

Sobre a imagem de uma criança amarrada em um poste pelas mangas da própria camisa, Anny disse que quem fez isso foi Eduardo Mori Kawano, marido de Andrea Carvalho Moreira. Ambos são os proprietários da escola. "Eu lembro de ser final do dia, de todas as crianças estarem brincando no pátio descoberto e o Eduardo falou assim: 'Se você ficar correndo, vai ficar de castigo'. E prendeu ele no poste", contou Anny.

A defesa de Eduardo nega que ele tenha amarrado a criança no poste. Em resposta às acusações, a advogada Sandra Pinheiro de Freitas afirma que "é preciso entender que toda a situação não se fecha num único ato. Ela tem que ter todo um contexto em volta daquela situação". Ela disse ainda que o casal afirma que não se tratam de "atitudes deles".

No caso do menino que foi amarrado, não foi o Eduardo quem amarrou, embora o Eduardo tivesse brincadeiras lúdicas com as crianças, nesse contexto de amarrar a ponta da blusa e brincar, mas aquele ato em si não foi ele quem fez."
Sandra Pinheiro de Freitas, advogada dos donos da escola

Anny também revelou que os castigos se agravaram neste ano. "Estava muito agressivo. Eles pegavam a colher e forçavam a criança a comer, mesmo ela estando com ânsia."

Ela contou que tentava ajudar, mas era impedida. "Sentia muita tristeza, muita raiva, também, eu tentava ajudar, mas eles não deixavam. Muitas vezes algumas crianças olhavam para mim e me chamavam, acho que como uma forma de ajuda." Foi aí que ela decidiu gravar as cenas. Pediu demissão e denunciou os casos, junto aos pais dos alunos, à polícia.

Depoimentos dos pais à polícia

O Fantástico revelou trechos do depoimento dos pais à Polícia Civil de São Paulo. Segundo o delegado que investiga o caso, Fábio Daré, todos os depoimentos colhidos até o momento foram "convergentes". "Isso me levou a crer que houve um crime de tortura naquela escola", afirmou.

Havia uma sala escura usada como cantinho do castigo para crianças que choravam muito ou não comiam.
Trecho de depoimento de um familiar

Aluno com dificuldade de leitura foi humilhado na frente dos colegas.
Trecho de depoimento de um familiar

Um pai contou que o filho foi colocado de castigo nu, em uma bacia na chuva porque havia vomitado na roupa.
Trecho de depoimento de um familiar

Acusação de 2021

Além da investigação atual, os donos da escola também são investigados após denúncia de lesão corporal em 2021. Uma mãe alega que o filho tinha fortes dores de cabeça e contou que o dono da escola teria batido nele. "Quando fui mexer na cabeça dele, ele falou que não era pra mexer que doía muito. E estava um pouco altinho. Ele falou: 'Tio bateu'", disse a mãe.

Eduardo também negou a agressão e afirmou que a acusação é absurda.

O que se sabe sobre o caso

O caso só veio à tona no mês passado, quando uma professora entregou imagens com os maus-tratos e prestou depoimento. Em uma das gravações, a dona da escola chamou de "louco", diante de outros alunos, um menino de 5 anos com dificuldade para fazer necessidades fisiológicas.

Em outro vídeo, uma menina de apenas 1 ano e 8 meses aparece recolhendo brinquedos e chorando. Em seguida, a dona da escola diz "guarda dentro da caixa" e ergue a criança com violência pelas mãos. "Pode guardar tudo isso aí! Agora! Pode recolher!", diz um homem. A voz é atribuída ao dono da escola.

Inicialmente, o caso começou a ser investigado pela Polícia Civil como maus-tratos. Mas os registros em foto e vídeo das crianças e os depoimentos fizeram com que a investigação passasse a tratar os episódios ocorridos na escola como tortura, com pena de até oito anos de prisão.

A Polícia Civil já ouviu três professoras e 16 pais de alunos. Entre eles, os responsáveis por cinco crianças entre 1 e 6 anos vítimas de maus-tratos neste ano.

Segundo depoimentos à polícia, as crianças costumavam ficar sem o lanche oferecido no café da manhã porque precisavam "comer rapidamente", conforme a Polícia Civil.

As crianças torturadas não tinham lesões porque foram submetidas a uma violência psicológica. Ele [dono da escola] foi descrito como mais violento. Ela [dona da escola] costumava gritar e xingar os alunos. É triste, revoltante e bizarro.
Fabio Daré, delegado do 6º Distrito Policial (Cambuci)