Influencers fazem lives 'caçando' assalto em SP para ganhar engajamento

O crescimento dos casos de roubo virou preocupação entre moradores da Região Metropolitana de São Paulo. Mas, contra a maré de esconder objetos de valor e evitar "dar bobeira" à noite, jovens influenciadores passaram a usar o medo e a violência urbana como entretenimento.

Eles caçam assaltos para transmitir ao vivo nas redes sociais. Para isso, ficam parados em calçadas, sempre com celulares de última geração nas mãos, esperando para serem roubados. Em três anos tentando, dizem eles, conseguiram o "feito" apenas uma vez.

Além de ser arriscado, esse tipo de comportamento pode atrapalhar políticas de segurança na cidade e expor pessoas em situação de vulnerabilidade.

J., de 27 anos, fez suas primeiras lives em uma rua de Itaquaquecetuba, onde nasceu.

Eu precisei só de dois dias para conseguir ser assaltado. No primeiro, fiquei de 0h às 2h da manhã, mas não deu certo. No dia seguinte, em um domingo, já aconteceu. O lugar era um pouco perigoso, então eu imaginava que podia rolar. Tem muitos usuários de drogas que roubam celular para vender.

'Medo eu não tenho'

Depois do assalto em 2020, J. retomou as lives na rua agora. Dessa vez, apenas de cinegrafista, enquanto A., de 25 anos, seu novo parceiro na aventura, é a "cobaia".

A dupla também trocou a madrugada por um horário de mais movimento, fazendo plantões por volta das 22h.

Com apenas "sete ou oito" tentativas, os dois contam que já alcançaram até 40 mil pessoas na transmissão ao vivo, colocando um tempero a mais para segurar o público: ela permanece aberta até o assalto acontecer.

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Mas, se a caça ao assalto só teve sucesso uma vez, quando e como eles encerraram as outras lives?

"A gente avisa que está muito tranquilo e vai encerrar por isso, mas normalmente é bem movimentado, com muitas motos", explica.

Eles dizem que já interromperam a transmissão quando sofreram ameaças de supostos bandidos que assistem às lives ou receberam avisos da polícia.

Em uma das vezes, conseguiram filmar um assalto —mas não o deles.

"Um bandido ficou do lado dele e eu falei: 'É agora'. O cara ficou ali por um bom tempo, uns 20 minutos, mas foi lá e assaltou o mercadinho do lado. A gente esperou o ladrão sair, foi ao mercadinho para falar com quem tava lá dentro e depois encerrou, porque não tinha mais clima", conta o influencer.

Diante do dinheiro gerado pela audiência que assiste ao conteúdo nas redes sociais e pelos patrocinadores dos projetos, a dupla afirma que não se importa com o prejuízo material. E sabem do risco.

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"Não tenho medo, mas também não aconselho ninguém a fazer esse tipo de live. Os vídeos monetizam bem, a gente tem patrocínio. Gravamos sempre com iPhone 11, 13. Se roubar, a gente compra outro. Mas gravamos tudo conscientes do que pode acontecer", afirma A.

Bem material a gente compra outro. O maior perigo é alguém chegar e atirar, isso é o extremo. Mas do mesmo jeito que alguém pode dar um tiro, alguém pode tropeçar da escada e morrer, pegar uma gripe e morrer. Esse é o único conteúdo muito perigoso que a gente faz. A gente tenta se prevenir e não gravar em lugares arriscados no resto da semana.

Unidos pelo Facebook

Antes de investir nas lives de "cobaia", J. fazia vídeos de humor no Facebook. Foi por lá que ele conheceu o parceiro, depois de ver um vídeo na página de Itaqua, que o deixou "admirado".

"A gente começou a trocar mensagem e a gravar juntos, ajudando um ao outro", conta o caçula da dupla.

Os dois buscam "ousadia", como dormir em lugares estranhos (no telhado ou na frente da casa da ex), se passar por funcionário de diversas lojas e restaurantes, registrar o primeiro dia de um suposto recém-contratado.

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Com isso, ele já conseguiu 15 empregos e algumas ameaças de processos.

Na onda de outros influencers que faturam em cima da vulnerabilidade humana, como já contamos aqui, agora miram a cracolândia, com lives que filmam o fluxo de quem usa drogas.

Os influenciadores filmam das janelas dos prédios e debocham da situação para aumentar a monetização dos canais.

"Estou vendo algum prédio em que eu possa ficar lá de cima, falando com alguns seguidores que moram perto, porque tem isso, nessas lives não dá para mostrar que a gente está gravando", conta J.

"A gente pretende ir até para o Rio de Janeiro, porque o público pede. O nosso objetivo é espalhar nosso conteúdo para mais pessoas."

Engajamento traz mais dinheiro

Cada plataforma tem suas próprias regras sobre produção de conteúdo e remuneração, mas elas costumam ser balizadas por duração dos vídeos, números de seguidores e engajamento.

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Michel Ank, CEO da Lastlink, empresa especializada em vendas digitais, explica qual é a forma de ganhar dinheiro nas plataformas:

No TikTok, os influenciadores precisam ter pelo menos mil seguidores para transmitir ao vivo e ganhar com isso. Eles têm acesso ao chamado fundo de criadores, que paga por vídeos de acordo com as interações.

Nas transmissões ao vivo, os espectadores compram presentes virtuais e enviam ao criador.

No YouTube, é preciso ter mil inscritos e 4.000 horas de visualização de vídeos nos últimos 12 meses ou 10 milhões de visualizações públicas em vídeos shorts para ser aceito no programa de parcerias.

Os criadores podem ganhar dinheiro com anúncios em seus vídeos ou em transmissões ao vivo.

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