Périplo de Lula por países autoritários chega ao Irã, em busca de acordo nuclear com o Ocidente

Maurício Savarese
Do UOL Notícias

Em São Paulo

  • Sergio Lima/Folha Imagem - arquivo

    Presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, cumprimenta o presidente Lula em Brasília

    Presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, cumprimenta o presidente Lula em Brasília

Neste sábado (15), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva começa uma das mais polêmicas viagens em sete anos de mandato: visitará o Irã, uma fechada teocracia islâmica, onde se reunirá com o líder-supremo Ali Khamenei e com o presidente Mahmoud Ahmadinejad. Ao longo de sua passagem pelo Palácio do Planalto, ele visitou mais de dez dirigentes acusados de manterem regimes autoritários ou ditatoriais.

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O discurso do presidente russo, Dmitri Medvedev, seguiu no tom usado pelos Estados Unidos na véspera. “Espero que a missão do presidente do Brasil seja coroada com o sucesso".

Desde o início do mandato do petista, a política externa brasileira se notabilizou pela tentativa de estreitar laços com nações africanas, árabes e asiáticas. Ganharam espaço na agenda as visitas a governantes acusados de crimes contra os direitos humanos, fraudes em eleições e cerceamento da oposição e da imprensa. Muitos deles ocupam o poder há décadas, com base na religião ou na força militar.

As comunistas Cuba (4 vezes), dos irmãos Castro, e China (3), hoje comandada por Hu Jintao, foram os destinos mais frequentes do brasileiro entre os regimes autoritários. Em seguida aparece Angola, com duas visitas ao presidente José Eduardo dos Santos, que governa desde 1979. Em várias das nações de regimes autoritários, Lula foi o primeiro mandatário do país a fazer visita. É o caso do Irã.

Pragmatismo responsável

Para Williams da Silva Gonçalves, professor de Relações Internacionais da Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), as reuniões com líderes de regimes autoritários são compreensíveis porque vêm naturalmente para um país com aspirações internacionais como o Brasil.

"A política externa brasileira é universalista, enfatiza as relações sul-sul. É atenta com África, Ásia e América Latina. Essa é uma marca do governo do presidente Lula", disse ele ao UOL Notícias.

"Um país que é interlocutor obrigatório se envolve em questões polêmicas. Não podemos confundir e pensar que vamos ter um relacionamento externo pautado por princípios morais. O relacionamento do Brasil com o Irã é político. O Brasil não vai ser diferente dos demais.”

Raio-x do Irã:

  • Nome oficial: República Islâmica do Irã
    Capital: Teerã
    Tipo de governo: República Teocrática
    População: 66.429,284
    Idiomas: Persa e dialetos persas 58%, turcomano e dialetos turcos 26%, curdo 9%, luri 2%, balochi 1%, árabe 1%, turco 1%, outros 2%
    Grupos étnicos: Persas 51%, azeris 24%, e gilakis mazandaranis 8%, curdos 7%, árabes 3%, lurs 2%, balochis 2%, turcomenos 2%, outros 1%
    Religiões: Muçulmanos 98% (xiitas 89% e sunitas 9%), outras (que inclui zoroastras, judeus, cristãos, e bahais) 2%
    Fonte: CIA Factbook

No país que já abrigou uma das civilizações mais importantes da humanidade, a dos persas, o mandatário brasileiro encontrará um presidente acusado de manipular eleições para seguir no cargo, um regime que transformou em lei o código de conduta defendido no livro sagrado dos islâmicos e uma sociedade civil em efervescência por conta das denúncias de torturas e assassinatos contra supostos traidores.

Por conta das polêmicas eleições de 2009 no Irã, dezenas de pessoas morreram em manifestações e outras centenas, segundo entidades internacionais, pereceram em execuções sumárias e ilegais.

Os iranianos não têm relações diplomáticas com os Estados Unidos, recorrentemente não obedecem determinações das Nações Unidas e seu presidente renega o Holocausto, que matou mais de 6 milhões de judeus na Segunda Guerra Mundial (1939-1945).

O comércio com outros países já está limitado por sanções aplicadas pela ONU, e Teerã está tão isolada que até os tradicionais aliados Rússia e China já indicam afastamento em relação ao regime dos aiatolás.

O motivo principal da visita, em retribuição à passagem de Ahmadinejad pelo Brasil, é insistir para que Teerã dê sinais definitivos de que não quer um programa nuclear para fins bélicos. Raros são os aliados de Lula nessa tarefa: líderes de nações desenvolvidas já sinalizaram que os iranianos devem sofrer sanções mais pesadas para interromperem sua postura de confronto.

Na categoria ditadura se enquadram líderes de sociedades sem liberdades democráticas e com poderes concentrados nas mãos de um único líder, o que não enquadra juntas militares ou outros sistemas de direção colegiada.

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Relação com Islã

Lula já tem experiência com ditadores de países majoritariamente islâmicos. Logo no primeiro ano no Palácio do Planalto, visitou três deles: o líbio Muammar Gaddafi, governante desde 1969, o egípcio Hosni Mubarak, há 30 anos no poder, e o sírIo Bashar al-Assad, cuja família é dirigente há quatro décadas.

Em 2007, o petista foi até Burkina Fasso, no ano em que o ditador Blaise Compaoré completava 30 anos no cargo. No ano passado, ele foi à Arábia Saudita, monarquia acusada de uma série de violações de direitos humanos e de perseguição a opositores.

Pouco depois foi ao Cazaquistão, governado desde 1990 por Nursultan Nazarbayev, em um dos regimes mais corruptos e violentos do mundo, segundo observadores internacionais. Lula foi o primeiro presidente brasileiro a visitar o centro da Ásia.

A visita ao Irã é a primeira de Lula a um país majoritariamente muçulmano xiita.

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