Para estrategistas de campanhas nos EUA, foco é evitar voto de protesto de eleitor independente

Talita Marchao

Do UOL, em São Paulo

  • Saul Loeb/Pool via AP

Os estrategistas do Partido Republicano, David Kramer, e Democrata, Penny Lee, sabem que o próximo presidente dos EUA já tem índices recordes de reprovação. O desafio, segundo ambos avaliaram em entrevista ao UOL, é como conquistar o voto do eleitor independente, que deve assegurar uma vitória de Donald Trump ou de Hillary Clinton, e ao mesmo tempo evitar que esta grande rejeição dentro deste eleitorado se transforme em votos de protesto contra seus candidatos.

"Existem pesquisas mostrando que mais da metade dos eleitores votarão contra o candidato de outro partido, em vez de votarem em seus próprios candidatos. E, por causa disso, estamos fazendo o possível para garantir que se um eleitor não gosta do meu candidato, ele pode gostar menos ainda do rival e, com isso, temos uma chance de ter o voto dele", disse Kramer, ex-presidente do Partido Republicano do Nebraska e ex-membro do Comitê Nacional do Partido Republicano.

Juliana Siqueira/Embaixada dos EUA
Penny Lee, estrategista do Partido Democrata
Para Lee, estrategista do Partido Democrata, ainda é preciso esperar o resultado da votação para ver o impacto no eleitorado independente.

"Muitas mudanças demográficas estão ocorrendo agora nos EUA, e também o foco do eleitorado. Por exemplo, sabemos que os democratas estão indo bem em áreas em que antes o Partido Republicano tinha melhores resultados, como no sul.

Outro ponto de concordância entre os estrategistas é sobre o nível baixo adotado nas campanhas. Penny Lee admite que existem muitos americanos que gostariam que esta fosse uma campanha mais substancial, mais focada em temas e propostas e não nas personalidades.

"Estamos em um tempo em que a política se transformou em uma batalha de destruição pessoal, e acho que isso é triste. Mas tivemos três debates com recordes de telespectadores que puderam ouvir as diferenças significativas entre as propostas apresentadas. Mas infelizmente, por exemplo, no último debate, tivemos repetidos comentários ofensivos de Trump contra Hillary, e a cobertura toda da imprensa foi focada nisso, e não nas diferenças de propostas políticas para a Síria ou o Iraque, por exemplo. São estes os pontos que atraem maior atenção", avalia Lee.

Juliana Siqueira/Embaixada dos EUA
David Kramer, estrategista do Partido Republicano
"Desde que estou envolvido com política, ouço pessoas dizendo 'gostaria que nós não tivéssemos propagandas negativas', mas a realidade é que propagandas negativas funcionam. E é por isso que elas são usadas por todos", diz o republicano Kramer.

"Acho que a campanha teve um desenvolvimento infeliz para todos os americanos neste aspecto, muitos gostariam que as discussões tivessem sido mais substanciais. Durante a campanha, somos todos bombardeados por comunicações políticas, e vemos os candidatos tentando tudo o que é possível para transmitir suas mensagens, inclusive de alguma formas não-ortodoxas, ou usando frases e slogans que apelam provavelmente para níveis mais baixos para com o eleitorado", acrescenta.

"A grande certeza desta eleição é que ela será decidida com base no comparecimento dos eleitores", diz Kramer. Ele lembra ainda que, nos EUA, cerca de 39% dos eleitores são declaradamente democratas, entre 33 e 34% republicanos registrados, e aproximadamente 28% são independentes. "E são estas pessoas que decidem a eleição."

Campanhas muito diferentes

Outro ponto que será avaliado pelos partidos no futuro, de acordo com o resultado da votação de novembro, é qual tática se saiu melhor. Enquanto Hillary segue um estilo mais tradicional, como era feito nos anos 2000, investindo em propaganda e em trabalho de campo nos Estados-chave, quase de porta em porta, Trump aposta nos grandes comícios, falando para grandes multidões e sem colocar muito dinheiro em publicidade e em equipes trabalhando junto ao eleitorado.

A única certeza de ambos é que os partidos passarão por mudanças após esta disputa. A mudança mais radical deve ocorrer dentro do Partido Republicano. Kramer avalia que os rumos da legenda dependerão da vitória (ou derrota) de Trump.

"O republicano será mais profundamente atingido a longo prazo com a vitória de Trump, já que ele estará interessado em remodelar as lideranças do partido, colocando pessoas que compartilham da sua filosofia. Se a eleição for perdida, veremos muitos dos líderes atuais dizendo 'nós avisamos', e será preciso dar um passo atrás para onde estávamos antes da nomeação de Trump."

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Os estrategistas discordam, entretanto, dos rumos que o Partido Democrata pode tomar após a eleição. Lee admite que mudanças devem ser feitas com base na avaliação do desempenho do partido nesta eleição, com base no que deu certo ou não. Mas acredita que a divisão criada durante as primárias pela candidatura de Bernie Sanders não será um problema.

"O que já sabemos é que 92% dos eleitores de Sanders apoiaram Hillary, e isso não é incomum. Vimos o mesmo ocorrer em 2008, quando tivemos dois candidatos fortes, como Barack Obama e Hillary Clinton. Existiu na época uma divisão muito profunda, mas o partido se uniu", relembra a democrata.

Já o republicano aposta que, mesmo se Hillary vencer, o Partido Democrata terá uma pressão significativa da ala esquerda, ainda que a legenda tenha muitas oportunidades de se curar com a vitória.

"Se perderem, dada a divisão que vimos com Bernie Sanders, me parece que foi maior do que a que enfrentamos do lado republicano. Metade do eleitorado republicano votou no Trump, e um pouco menos da metade dos democratas não votou em Hillary", diz Kramer. "Uma derrota levaria o Partido Democrata mais para a esquerda, pelo menos até a próxima eleição".

Penny discorda da avaliação de Kramer sobre os democratas e lembra que a disputa entre Obama e Hillary em 2008 foi muito mais acirrada do que entre Hillary e Sanders.

"Neste ano, Hillary teve mais delegados do que o próprio Obama em 2008. Sanders representou sim um desafio muito grande para Hillary, mas ela tem 85% de aprovação dentro do próprio partido, então pode-se dizer que ela é amada e apoiada pelos democratas."

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