Ex-guerrilheiro das Farc e ex-militar viram "compadres" e sócios em negócio na Colômbia

Talita Marchao

Do UOL, em São Paulo

  • Reprodução/Facebook

Orlando Ordoñez e Néstor Orlando Garzón já foram inimigos na guerra civil da Colômbia. Hoje, o ex-guerrilheiro das Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) e o ex-militar colombiano são compadres e sócios em um negócio. Eles contratam desmobilizados das diferentes guerrilhas do país, ex-paramilitares, vítimas e civis. Todos trabalham juntos na Remapaz (Recuperação do Meio Ambiente pela Paz), que recicla pneus usados, transformando-os em mobília, objetos de decoração e até em brinquedos.

A amizade inusitada começou com um cartão de visita entregue em 2005. Em entrevista ao UOL por telefone, Ordoñez e Garzón contaram como o encontro no aeroporto de Medellín, em uma missão de inteligência do Exército colombiano, mudou a vida dos dois.

"Parte do meu trabalho como militar era abordar pessoas da guerrilha. Entreguei o meu cartão a ele e pedi que me ligasse para conversarmos. Mas ele só me ligou um tempo depois", disse Garzón, hoje militar aposentado do Exército colombiano e padrinho do filho de Ordoñez.

"Eu era um militante ativo das Farc, e aquele cartão que ele me deu no aeroporto despertou a minha curiosidade. Acabei telefonando, perguntando o que ele queria comigo. Nos encontramos em Bogotá, onde ele tentou me convencer a me desmobilizar antes de ser capturado", contou o ex-guerrilheiro. "A conversa com ele, naquela época, me fez pensar."

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Peças produzidas a partir da reciclagem de pneus pela Remapaz

Quando decidiu abandonar a guerrilha depois de 15 anos nas Farc, Ordoñez telefonou para Garzón pedindo ajuda para se entregar. A decisão foi tomada meses depois do encontro no aeroporto, quando decidiu que não participaria de atos violentos, como os sequestros promovidos pelas Farc.

"Estava muito desconfiado, preocupado e assustado. E ele me acompanhou no processo até as autoridades", disse o ex-guerrilheiro. Ordoñez foi investigado pela Procuradoria e integrado ao programa governamental para desmobilização. "O que eu havia feito de ilegal era o porte de armas e o uso de uniformes privativos das forças militares colombianas", contou Ordoñez, que nega ter participado de sequestros e assassinatos.

O campo de paintball dos ex-inimigos

A Remapaz não é a primeira empreitada dos amigos nos negócios. O primeiro empreendimento do ex-guerrilheiro e do ex-militar, assim que Garzón se aposentou, depois de mais de 20 anos de serviço, foi um campo de paintball --agora as armas tinham tintas. A empreitada durou dois anos.

"Nos demos conta de que poderíamos fazer algo significativo para o país e mostrar que a reconciliação era possível, eu mostraria da parte ilegal, e ele, da legal", diz Ordoñez.

A dupla manteve a amizade, mas cada um foi para um lado: o ex-guerrilheiro acabou trabalhando como caminhoneiro de uma petrolífera, e o ex-militar em uma empresa privada de inteligência militar.

Trabalhando com o caminhão, Ordoñez se deu conta de que não havia um destino certo para os pneus usados --iam parar em canteiros, descartados sem qualquer cuidado com o meio ambiente e levam 600 anos para se decompor. E daí surgiu a ideia de reaproveitar o material, apesar das críticas de parentes e amigos, que achavam a aposta no negócio uma loucura.

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Trator produzido a partir de pneus reciclados
A Remapaz foi criada pela dupla no fim de 2014, e já empregou ex-militantes das Farc, das AUC (Autodefesas Unidas da Colômbia, paramilitar), vítimas que perderam familiares no conflito armado, pessoas que foram expulsas de suas terras por guerrilheiros ou paramilitares e até mesmo civis sem qualquer relação direta com o conflito, que durou 50 anos no país e agora encontra-se em processo de finalização após o acordo de paz firmado entre a guerrilha e o governo.

"Esta é uma grande experiência porque temos todos os lados do conflito em um mesmo lugar. Damos oportunidades a eles de trocarem conhecimento e criarem laços de amizade e principalmente de reconciliação", diz o ex-militar.

Hoje a empresa, que foi criada com o apoio da agência governamental de reintegração e instalada na cidade colombiana de Acacías, tem quatro funcionários: um desmobilizado da guerrilha, uma desmobilizada, uma deslocada pelo conflito e um civil. Todos os dias, todos conversam pelo menos por cinco minutos antes de começarem a trabalhar --nunca sobre o passado, sempre sobre o presente e o futuro, contam o ex-guerrilheiro e o ex-militar, que conduzem as conversas.

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A equipe já foi maior, mas precisou ser reduzida neste ano com a queda das vendas, provocada pela crise econômica. Eles produzem mesas e cadeiras para jardins, objetos decorativos e até mesmo brinquedos com os pneus. E depois que uma TV local fez uma reportagem sobre a parceria da dupla, as vendas aumentaram.

Os sócios garantem que nunca tiveram problemas com nenhum cliente. "Não tivemos nenhum tipo de rechaço ou preconceito porque somos desmobilizados e um ex-militar. Todos nos dão as mãos, nos parabenizam pelo que estamos fazendo pela paz e pelo meio ambiente", diz Ordoñez.

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