Após morte, Índia quer acabar com prática de curandeiros que queima peito de crianças

Do UOL, em São Paulo

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    Suman Trivedi é uma das principais responsáveis na luta pelo fim da tradição dos bhopas

    Suman Trivedi é uma das principais responsáveis na luta pelo fim da tradição dos bhopas

Uma antiga técnica usada por curandeiros no interior da Índia virou alvo da Comissão de Bem-Estar Infantil após a morte de algumas crianças. Em vez de levar os filhos ao hospital, muitos indianos, principalmente de classes sociais mais baixas da região do Rajastão, no norte do país, apelam para os bhopas, curandeiros que usam ferro, argila ou tecido para queimar o peito das crianças.

Segundo os bhopas, a prática, usada há centenas de anos, faz com que um nervo seja queimado e, com isso, o quadro de saúde da criança melhoraria.

De acordo com uma reportagem do jornal inglês The Guardian, na esperança de melhorar os problemas respiratórios da filha de dois anos, o indiano Jamna Lal, de 65 anos, levou a pequena a uma bhopa, em vez de ir ao hospital.

A curandeira queimou o peito da menina com um pedaço de argila quente, mas sua condição de saúde piorou e ela precisou ser levada às pressas para um hospital. Oito dias depois de ser internada, ela morreu.

Um dia após a morte da menina, Lal foi preso. Ele é agricultor e ganha pouco mais de R$ 16 por dia.

"Meus ancestrais fazem isso há muitos anos. Todos fazemos. Já levamos minha filha mais velha ao bhopa quando era pequena e ela melhorou. Pensei que a mais nova também ficaria melhor", contou ao Guardian.

Suman Trivedi é a chefe da Comissão de Bem-Estar Infantil do Rajastão e uma das principais responsáveis na luta pelo fim da tradição dos bhopas. Ela argumenta que após a aprovação de uma lei em 2015, chamada de Ato da Justiça Juvenil, pais e curandeiros podem ser processados por crueldade infantil e até serem presos.

Trivedi visitou os hospitais da cidade de Bhilwara, uma das maiores da região, para orientar os funcionários a denunciar a ela casos de crianças queimadas por bhopas. Desde 2016, três crianças morreram e 14 casos já foram processados, com a ajuda da polícia.

A bhopa que queimou a filha de Lal, Ladi Vaieshnav, de 70 anos, também foi processada. Ela contou que já tratou cerca de 40 crianças nos últimos 20 anos e que ninguém morreu. Mesmo assim, a curandeira promete que nunca mais vai usar suas técnicas. Ela aguarda julgamento e pode ser presa.

Para Trivedi, a ignorância da população e a falta de médicos no interior faz com que as pessoas procurem os bhopas. Mesmo assim, ela afirma que está fazendo progressos e que até a polícia, que antes evitava cuidar de casos assim, tem auxiliado.

"Sei que as intenções dos pais não são ruins. Eles querem que seu filho melhore, mas não percebem que o caminho que estão escolhendo é o errado. Preciso conscientizar as pessoas de que é um crime e tenho que tomar algumas decisões rígidas", disse ao "Guardian".

"Acho que estamos no caminho certo. Já houve um declínio nos casos de queimaduras feitas por bhopas e, mesmo que demore vários anos, essa prática vai desaparecer de nossa sociedade no final", completou.

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