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Em meio à crise, argentinos lotam restaurantes do governo e retomam clubes de troca

Pessoas fazem fila para receber alimentos em um centro comunitário na favela Villa 1-11-14, em Buenos Aires - Natacha Pisarenko/AP
Pessoas fazem fila para receber alimentos em um centro comunitário na favela Villa 1-11-14, em Buenos Aires Imagem: Natacha Pisarenko/AP

Almudena Calatrava

Da AP, em Buenos Aires

11/09/2018 04h01

Homens esperam do lado de fora de um local que serve comida de graça para os mais pobres em uma favela, na esperança de obter uma pequena porção de carne e purê de batatas. Em um mercado de trocas na periferia de Buenos Aires, uma mulher tenta convencer outra a trocar alimento pelos minúsculos sapatos de sua neta.

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Os argentinos estão lutando durante a crise no que já foi uma das nações mais prósperas do mundo. Os preços ao consumidor estão subindo, o desemprego está alto e o peso argentino despencou, trazendo de volta as memórias assombradas do colapso econômico do país em 2001, que levou milhões de pessoas à pobreza.

Um número cada vez maior de pessoas chega à “Happy Kids”, um local que serve comida de maneira gratuita na favela Villa 1-11-14, onde os garçons tentam fazer render panelas fumegantes de ensopado porque muitos mais do que o esperado estão esperando a comida.

"O governo da cidade nos dá dinheiro para 440 porções por dia, mas estamos sendo forçados a preparar porções menores para que possamos cobrir 600", disse Cintia Garcia, que dirige o local.

Uma série de eventos prejudicou a economia.

Primeiramente, uma severa seca prejudicou o rendimento das colheitas no terceiro maior exportador mundial de soja e milho. A situação piorou a partir do primeiro trimestre de 2018, com o aumento dos preços mundiais do petróleo e, em seguida, os aumentos das taxas de juros nos Estados Unidos levaram os investidores a retirar dólares da Argentina.

Isso causou nervosismo entre os argentinos, que escondem dólares desde a implosão econômica de 2001, e uma corrida para comprar dólares cada vez mais escassos empurrou o valor do peso para baixo. Apesar de vários aumentos das taxas de juros pelo Banco Central da Argentina, o peso perdeu mais da metade de seu valor em menos de um ano.

O presidente Mauricio Macri teve de pedir um empréstimo de US$ 50 bilhões para o Fundo Monetário Internacional (FMI). Na semana passada, ele anunciou uma série de medidas de austeridade, incluindo novos impostos sobre as exportações e a eliminação de vários ministérios do governo. Ele disse que iria alocar mais ajuda econômica e fortalecer os planos de alimentos para os argentinos pobres.

Com o desemprego em torno de 9% e os preços ao consumidor subindo, alguns argentinos estão se voltando novamente para os clubes de troca, que surgiram pela primeira vez durante o colapso econômico, quase duas décadas atrás.

O peso cambaleante elevou os preços do combustível e, por sua vez, os custos de transporte. Isso afetou os preços dos alimentos em um país onde a maioria dos grãos e outros produtos são transportados em caminhões. Espera-se que a inflação atinja uma taxa anual de mais de 40% neste ano, segundo o Banco Central.

“Para fazer rosquinhas há um mês, eu gastava 150 pesos em óleo e sete sacos de farinha. Agora são mais de 400 pesos”, reclamou Gladys Jimenez.

Jiménez, que é do Paraguai, é uma das que contam com o trabalho da “Happy Kids” em Villa 1-11-14, uma favela onde vivem dezenas de milhares de argentinos e imigrantes de países vizinhos.

Modesta Cabanas atrás do portão de sua casa, na periferia de Buenos Aires - Natacha Pisarenko/AP
Modesta Cabanas atrás do portão de sua casa, na periferia de Buenos Aires
Imagem: Natacha Pisarenko/AP

O preço da carne bovina também aumentou em um dos países onde mais consome carne do mundo. Nicol Alcocer, uma adolescente que frequenta uma oficina educacional que distribui comida na favela, disse que antes comia churrasco todos os sábados. "Agora é a cada quatro meses", disse ela.

A queda rápida no peso traz aumentos frequentes nos preços cobrados pelos fornecedores, levando a população a ter raiva. Alguns moradores de favelas lembraram que quando o peso caiu recentemente para 40 por dólar, eles formaram filas nos mercadinhos de bairro, mas os proprietários se recusaram a vender.

"Eu disse ao meu marido: 'Vamos comprar'. As pessoas ficaram irritadas ao ver que os negócios estavam fechados", disse Martina Bilbao. "Eu me lembro da onde de saques de 2001... e acho que isso vai acontecer novamente."

A crise de 17 anos atrás foi tão ruim que um em cada cinco argentinos ficou sem trabalho e mais da metade da população caiu na pobreza. O peso, que estava atrelado ao dólar, perdeu cerca de 75% de seu valor.

Os bancos congelaram depósitos e armaram barricadas atrás de chapas metálicas quando milhares de manifestantes tentaram, sem sucesso, retirar a poupança. Mais de 20 pessoas morreram nos protestos e saques que varreram a Argentina em dezembro de 2001, quando a terceira maior economia da América Latina foi desfeita e, por fim, deixou de pagar uma dívida de mais de US$ 100 bilhões.

Os problemas econômicos atuais estão longe desse colapso. Mas analistas dizem que a pobreza, que afeta cerca de um terço da população, aumentará este ano, e a economia se afundará.

Essas previsões estão longe das promessas de Macri. O presidente conservador assumiu o cargo em 2015 prometendo revitalizar a fraca economia da Argentina e acabar com a pobreza.

Apesar de as reformas favoráveis ao mercado terem sido inicialmente elogiadas por investidores internacionais, que disseram que estabeleceram as bases para o crescimento, elas trouxeram sofrimento aos trabalhadores pobres do país.

Desde que assumiu o cargo, Macri demitiu milhares de funcionários públicos e cortou os subsídios à energia, aumentando as tarifas dos serviços públicos e dos ônibus. O presidente também abandonou os controles cambiais do governo anterior, dando início à forte desvalorização do peso.

Muitos pobres da Argentina moram em favelas conhecidas como "vilas de miséria”, onde muitas vezes não têm acesso a transporte, água corrente ou esgoto. As regiões do norte da Argentina têm taxas cronicamente altas de desnutrição infantil, embora o país continue sendo um dos principais fornecedores globais de grãos.

Em um dia recente, dezenas de mulheres se reuniram em um mercado de permutas nos arredores de Buenos Aires para trocar de tudo, de calças e cosméticos a brinquedos, sacos de arroz e óleo de cozinha.

“Voltamos ao mesmo que antes. Nós voltamos à barganha”, disse Lucia de Leon, que se oferecia para trocar comida enlatada e sapatos usados.

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