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Padre católico na Eslováquia desafia igreja e faz campanha contra o celibato

O padre Michal Lajcha está desafiando as regras do celibato da Igreja Católica - Petr David Josek/AP
O padre Michal Lajcha está desafiando as regras do celibato da Igreja Católica Imagem: Petr David Josek/AP

Karel Janicek

Da AP, em Klak (Eslováquia)

21/09/2018 16h49

Um padre da Eslováquia, país considerado reduto conservador da Igreja Católica, desafiou as regras do celibato, expressando sua discordância em um momento em que a castidade clerical é mais uma vez um tema de debate em meio a escândalos de abuso sexual.

O padre Michal Lajcha escreveu um livro em duas versões, uma para os teólogos e outra para os leigo, em que afirma que a Igreja Católica se beneficiaria muito se os homens casados pudessem ser ordenados e o celibato fosse voluntário.

Em “A tragédia do celibato - A morte da mulher” (em tradução livre, ainda sem lançamento no Brasil), Lajcha chamou o celibato de “ferida purulenta” na igreja e disse que torná-lo voluntário também poderia ajudar a prevenir escândalos sexuais.

O título é intencionalmente chocante e mórbido: um homem casado só pode ser ordenado na igreja se for viúvo.

"Essa é a tragédia do celibato, a mulher morta", disse Lajcha à Associated Press em uma entrevista. Outro padre, Peter Lucian Balaz, foi o co-autor da versão do livro para os teólogos.

Lajcha argumenta que os padres simplesmente não conseguem entender os problemas e preocupações dos fiéis católicos comuns, já que eles habitam um mundo muito diferente.

“A missão da igreja é estar perto das pessoas. Mas como posso estar perto delas quando vivo de maneira radicalmente diferente?”, perguntou Lajcha, de 34 anos. "Há um enorme abismo entre o clero e os leigos".

Michal Lajcha celebra uma missa em uma igreja em Klak, na Eslováquia - Petr David Josek/AP - Petr David Josek/AP
Michal Lajcha celebra uma missa em uma igreja em Klak, na Eslováquia
Imagem: Petr David Josek/AP

É um ponto que foi recentemente levantado pelo cardeal Kevin Farrell, prefeito do Dicastério para os Leigos, a Família e a Vida, que ganhou as manchetes quando afirmou que os padres não têm "credibilidade" quando se trata de treinar outros na preparação para o casamento, já que eles não têm experiência.

Na versão popular do livro, Lajcha escreve que um padre “não tem as preocupações e também não tem as alegrias daquelas pessoas que ele deveria cuidar espiritualmente”.

"É como a diferença entre estar no topo do Monte Everest e ouvir uma história sobre isso", escreveu ele sobre as informações de segunda mão que os padres têm sobre a vida de seu rebanho.

Para explicar, ele dá o exemplo da noite em que convidou vários homens de sua paróquia para assistir a um filme sobre um pai que sacrifica seu filho para salvar a vida dos passageiros de um trem. Depois que alguns homens não conseguiram segurar as lágrimas, Lajcha disse que percebia o quanto o celibato havia sido nocivo para ele, já que só conseguia entender apenas “uma pequena ideia” de como era ser pai.

Lajcha não propõe a abolição do celibato, mas apenas para torná-lo voluntário.

Seu apelo é compartilhado por muitos no sacerdócio, incluindo clérigos na Irlanda, na Alemanha e nos EUA, e grupos leigos proeminentes. Eles argumentam que o sacerdócio celibatário é uma tradição na Igreja Católica que data do século 13, mas não uma doutrina, e, portanto, pode ser mudada.

O papa Francisco abordou o mesmo assunto, no seu livro “Sobre o Céu e a Terra”, de 2012, escrito quando ainda era cardeal.

Como papa, no entanto, ele expressou uma abertura para ordenar homens casados, particularmente para responder à falta de padres em lugares como a Amazônia, onde os fiéis podem passar semanas sem uma missa.

Os homens casados já podem ser ordenados como padres católicos de rito oriental, e os padres anglicanos casados podem se tornar padres católicos caso se convertam.

Francisco disse que quer que as conferências episcopais locais apresentem propostas para tratar da questão da escassez de padres, e abriu caminho para uma possível mudança convocando uma reunião de bispos da Amazônia para o ano que vem e decretando nesta semana que seu documento final poderia se tornar parte do ensino oficial da igreja.

Ao mesmo tempo em que aborda a falta de padres, muitas pessoas que defendem o fim da obrigação de celibato também argumentam que isso também poderia abordar outra questão urgente na igreja: o abuso sexual.

Estudos proeminentes não encontraram nenhuma correlação entre a tradição da igreja de um sacerdócio celibatário e a explosão de abuso sexual clerical nas últimas décadas, mas alguns especialistas há muito fazem a conexão.

Mais notavelmente, A.W. Richard Sipe, um ex-padre e psicoterapeuta dos EUA que já morreu, argumentou que, como muitos padres violavam seus votos de celibato, a questão estava mergulhada em hipocrisia e sigilo, condições que permitiam o aumento de casos de abuso de menores.

“É um paradoxo. A igreja demoniza a sexualidade e a mantém escondida, mas, ao mesmo tempo, há crianças abusadas”, disse Lajcha. "Não estou dizendo que [os abusos] parariam completamente se tivéssemos o celibato voluntário, mas podemos concordar que a situação seria um pouco diferente".

O padre católico Michal Lajcha autografa seu livro durante em Klak, na Eslováquia - Petr David Josek/AP - Petr David Josek/AP
O padre católico Michal Lajcha autografa seu livro durante em Klak, na Eslováquia
Imagem: Petr David Josek/AP

O celibato voltou à linha de frente do debate na Igreja Católica depois que um proeminente cardeal dos EUA foi acusado de abusar sexualmente de menores e de seminaristas adultos. O escândalo revelou evidências da vida sexual ativa de padres e seminaristas que há muito tempo são tolerados em silêncio.

Lajcha, que está tentando obter financiamento para ter seu livro traduzido antes da conferência na Amazônia, disse que a igreja teria mais credibilidade se permitisse padres casados porque os fiéis dificilmente acreditam que “nós realmente vivemos a vida do celibato”. Trata-se de uma referência à violação generalizada do celibato em lugares como a África, onde há casos conhecidos de sacerdotes que têm vários filhos.

Lajcha fala do exemplo do padre Rudolf Klucha, que trabalhou em dois vilarejos em lugares que foram centros da revolta da Eslováquia contra os nazistas na Segunda Guerra Mundial. Em 21 de janeiro de 1945, os nazistas reuniram 300 moradores de Klak, planejando matá-los todos. Klucha trabalhou para adiar as mortes até que as tropas recebessem uma ordem para destruir a aldeia, mas permitir que as pessoas vivessem.

Klucha, disse ele, era pai de três filhos e não fazia segredo disso. No início deste mês, Lajcha revelou uma placa comemorativa para Klucha em Klak, acrescentando: "Ele salvou 300 vidas, mas ainda não foi reconhecido apenas porque ele quebrou o voto do celibato."

Desde que as notícias sobre o livro foram parar nas manchetes locais na semana passada, Lajcha disse que teve de mudar seu número de telefone por causa de respostas negativas de colegas padres e de outras pessoas. É improvável que suas atividades permaneçam despercebidas por seus superiores.

A Conferência dos Bispos da Eslováquia recusou um pedido da AP para comentários por meio de seu porta-voz Martin Kramara, e também a diocese de Banska Bystrica, à qual pertence a paróquia de Lajcha.

Lajcha afirmou que estava preparado para deixar a Igreja Católica, embora o sacerdócio o realize.

“Eu quero ter uma família. Isso é insustentável para mim”, disse ele à AP.

Abrir mão do sacerdócio seria uma triste notícia para alguns de seu rebanho.

"Oh Deus, não permita que o retirem!", disse Olga Zubekova, 69 anos, que recentemente pediu um autógrafo do padre em uma cópia do livro

“Suas missas são boas, sua pregação é boa, ele se dá bem com todo mundo, eé útil para todos. Isso seria realmente uma pena”, disse ela.