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Starbucks vai oferecer cursos universitários gratuitos para funcionários nos EUA

Tammie Lopez (centro) trabalha no Starbucks em tempo integral e frequenta a faculdade à noite  - Monica Almeida/The New York Times
Tammie Lopez (centro) trabalha no Starbucks em tempo integral e frequenta a faculdade à noite Imagem: Monica Almeida/The New York Times

Richard Pérez Peña

16/06/2014 19h47

A rede de cafeterias Starbucks vai oferecer formação universitária gratuita online para milhares de seus funcionários – sem exigir que eles permaneçam trabalhando na empresa depois de formados – por meio de um acordo incomum com a Universidade do Estado do Arizona, anunciaram nesta segunda-feira (16) a empresa e a universidade.

O programa é aberto a qualquer um dos 135 mil empregados da Starbucks nos Estados Unidos, desde que eles trabalhem pelo menos 20 horas por semana e tenham as notas e os resultados nos testes necessários para serem admitidos pela Universidade do Estado do Arizona.

Para os baristas que tiverem pelo menos dois anos de créditos universitários cumpridos, a empresa pagará a mensalidade integralmente; para aqueles com menos créditos, a Starbucks pagará uma parte dos custos. Mas, apesar desse critério, para muitos desses funcionários os cursos serão gratuitos, com o auxílio do governo e da universidade.

“A Starbucks está realizando algo que nenhuma outra grande corporação realizou até o momento”, disse Jamie P. Merisotis, presidente e principal executivo da Fundação Lumina, organização focada na promoção da educação. “Para muitos desses funcionários da Starbucks, um curso universitário online é a única possibilidade razoável que eles têm para obter um diploma de bacharel”.

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Muitos empregadores oferecem a seus funcionários o reembolso das despesas com mensalidades escolares. Mas esses programas geralmente têm limitações: às vezes, o custo total do curso não é pago pela empresa, os novos empregados ficam excluídos, existe a exigência de que os trabalhadores permaneçam na companhia durante vários anos após o término do curso ou há a limitação dos reembolsos apenas para cursos relacionados às funções desempenhadas pelos trabalhadores dentro da empresa.

A Starbucks está, na realidade, convidando seus funcionários, desde o dia em que eles são contratados pela empresa, a estudarem o que quiserem e, em seguida, se sentirem livres para deixar a companhia quando quiserem também – mesmo sabendo que muitos deles, com o diploma nas mãos, trocarão a rede de cafeterias por empregos mais bem remunerados em outras corporações.

Mas, mesmo que esses funcionários venham a deixar a Starbucks, a experiência deles “seria acrescentada à nossa marca, à nossa reputação e ao nosso negócio”, disse em entrevista Howard D. Schultz, presidente e principal executivo da empresa. “Eu acredito que esse programa diminuirá o desgaste natural do quadro de funcionários, ou seja, reduzirá a eliminação das vagas causadas pelas demissões voluntárias ou pela aposentadoria de funcionários, aumentará o desempenho dos empregados e atrairá e reterá colaboradores de melhor qualidade."

Michael Bojorquez Echevarria, funcionário do Starbucks em Canoga (EUA), trabalha 60 horas por semana e estuda sociologia  - Monica Almeida/The New York Times
Michael Bojorquez Echevarria, funcionário do Starbucks em Canoga (EUA), trabalha 60 horas por semana e estuda sociologia
Imagem: Monica Almeida/The New York Times

Em um setor de serviços no qual as remunerações são baixas, a Starbucks vem se comportado há décadas de maneira incomum e fazendo coisas como o oferecer planos de saúde até mesmo para os funcionários de meio período e dar a seus funcionários opções de compra de ações. (Assim como outras cadeias que comercializam alimentos e bebidas, a empresa também foi acusada de utilizar táticas agressivas e impróprias para combater os movimentos em prol da sindicalização de seus empregados.) Quer seja por causa dessas vantagens ou apesar delas, a empresa tem sido muito bem sucedida: suas ações, que fecharam na sexta-feira passada em US$ 74,69, tiveram seu valor multiplicado mais de 100 vezes desde a oferta pública inicial, em 1992.

O presidente da Universidade do Estado do Arizona, Michael M. Crow, defensor ferrenho da educação online, se uniria nesta segunda-feira a Schultz e a Arne Duncan, o secretário de Educação, para anunciar o programa em Nova York. A Universidade do Estado do Arizona tem um dos maiores e mais conceituados programas de formação universitária online dos Estados Unidos, com 11 mil alunos e 40 cursos de graduação.

A universidade e a empresa dizem que não sabem quantos funcionários da Starbucks utilizarão o programa, que inclui ajuda com a papelada e orientação acadêmica, mas eles esperam que milhares de pessoas se inscrevam. Crow disse que a Universidade do Estado do Arizona se preparou para receber um grande aumento no número de matrículas. A mensalidade para os cursos de graduação online da Universidade do Estado do Arizona geralmente custa cerca de US$ 500 por crédito e são necessários 120 créditos para obter um diploma de bacharel.

Ajuda
O programa da Starbucks soa como uma bênção para Abraham G. Cervantes, 24, que vive na região de San Pedro, em Los Angeles, com sua mãe e dois irmãos, e seria o primeiro de sua família a obter um diploma universitário. “Eu sou o único na família que tem um emprego estável”, disse ele. Na verdade, Cervantes tem dois empregos – um na Starbucks e outro em um estúdio de música.

Enquanto estudava em uma faculdade comunitária (que oferece cursos de dois anos), ele descobriu a música clássica e se apaixonou por Chopin, Bach e Beethoven, embora em casa ele só consiga praticar em um piano velho e desgastado. Ele disse que sonhava em ser professor de música, mas que, depois de cinco anos de tentativas para combinar os horários de suas aulas e de seus dois empregos, não conseguiu terminar o curso nem obter seu diploma.

“Quando você trabalha em dois empregos, nem sempre tem tempo para frequentar a universidade”, disse ele.

O novo programa da Starbucks “seria um benefício enorme para mim”, disse Cervantes, pois lhe proporcionaria flexibilidade e eliminaria o tempo gasto no trajeto entre o trabalho e a universidade.

Schultz, o presidente e principal executivo da Starbucks, disse que tais histórias o tocam pessoalmente. Ele cresceu em um conjunto habitacional público no Brooklyn e uma bolsa de estudos permitiu que ele fosse o primeiro de sua família a frequentar a faculdade, na Northern Michigan University.

Ele e Crow disseram que se encontraram pela primeira vez há alguns anos, quando Schultz falou na Universidade do Estado do Arizona, e que se conheceram enquanto trabalhavam com a Fundação Markle, uma instituição de caridade voltada para políticas públicas. Eles descobriram que compartilhavam as mesmas origens modestas e que tinham uma preocupação em relação à crescente desigualdade social nos EUA.

“De muitas maneiras, a classe média está sendo muito prejudicada”, disse Crow. A não ser que mais pessoas recebam uma formação, disse ele, “todos nós talvez venhamos a testemunhar um desastre social no futuro”.

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