Combate à pobreza nos EUA depende dos republicanos, que precisam debater a questão

Nicholas Kristof

  • Joshua Lott/AFP

    Pré-candidatos republicanos à Presidência se preparam para debate em novembro

    Pré-candidatos republicanos à Presidência se preparam para debate em novembro

Ainda em 2000, George W. Bush fez uma coisa fascinante: na trilha de campanha, ele pregou o "conservadorismo compassivo", falando aos republicanos ricos sobre as dificuldades dos imigrantes mexicano-americanos e declarando a mulheres com colares de pérolas que "o trabalho mais duro na América" é o das mães solteiras.

Aqueles públicos bem de vida pareceram surpresos, mas aplaudiram.

Esse instinto de mostrar um pouco de coração ajudou a eleger Bush, mas depois praticamente desapareceu dos manuais e das políticas republicanas. Mas hoje, em meio à guerra civil no Partido Republicano, há iniciativas intrigantes do presidente da Câmara dos Deputados, Paul Ryan, e de alguns outros conservadores para reviver o interesse pelos necessitados.

Os liberais como eu podem ser tentados a descartar esses novos esforços como meros gestos de marketing, destinados a clarear o que uma das iniciativas reconhece como "a antiga visão de um conservadorismo mesquinho".

Talvez os céticos liberais provem que estão certos. Mas ainda assim todos devemos apoiar esses esforços, porque em última instância a ajuda aos pobres pode depender menos de Hillary Clinton ou Bernie Sanders do que dos republicanos em todos os níveis.

Se o Medicaid será expandido, se conseguiremos aposentadoria de alta qualidade, se trataremos do vício, do planejamento familiar e do treinamento profissional, se o chumbo continuará envenenando as crianças americanas --tudo isso dependerá principalmente dos republicanos que controlam o Congresso e a maioria dos Estados.

Além disso, os democratas rapidamente assumem que têmo monopólio da compaixão. Bush, por exemplo, não governou tão compassivamente quanto apregoou na campanha. Mas seu programa contra a Aids salvou milhões de vidas. Ele fez um trabalho estelar no combate à malária e na luta contra o tráfico sexual.

Isto será ainda mais difícil para os democratas aceitarem, mas os republicanos às vezes também mostraram estar certos em questõesrelativas à pobreza. Eles estavam certos em que a melhor maneira de soletrar "ajuda" muitas vezes é e-m-p-r-e-g-o. Eles estavam certos sobre a importância de famílias biparentais fortes: hoje sabemos que as crianças em famílias de mães solteiras têmuma probabilidade cinco vezes maior de viver na pobreza do que as de lares com pais casados.

Por isso eu ficaria entusiasmado se os republicanos participassem de debates sobre a pobreza, em vez de fugir de campo. Um debate real também daria destaque a questõesque são amplamente negligenciadas, e criaria uma abertura para pôr os políticos na fogueira: se Ryan se importa, por que tentou cortar o orçamento de programas baseados em evidências que ajudam crianças?

Uma das novas iniciativas é "Contestando a caricatura", baseado em um documento que será apresentado em um evento no Instituto Hoover de Stanford na próxima semana. Escrito por Michael Horowitz, Michael Novak, John O'Sullivan, Mona Charen, Linda Chavez e outros importantes conservadores, ele apela ao direito de abordar questõesde direitos humanos de modo a destruir "as caricaturas que definem os conservadores como insensíveis".

"Nossos valores são vistos por milhões de americanos como inconsistentes com os deles e com a decência inerente aos EUA", adverte o documento.

Neste mês, Ryan moderou um fórum sobre a pobreza que reuniu seis pré-candidatos republicanos e tentou abarcar uma perspectiva do partido sobre o assunto. "Hoje temos uma rede de segurança que se destina a apanhar as pessoas que estão caindo na pobreza", disse Ryan, "quando o que realmente precisamos é de uma rede de segurança para ajudar a tirar as pessoas da pobreza."

Um motivo de ceticismo é que nada disso terá tração: entre os candidatos que evitaram o fórum estavam os melhores colocados, Donald Trump e Ted Cruz. Nenhum deles parece interessado nessa arena.

Uma iniciativa final é um plano excelente para reduzir a pobreza, criado por uma equipe do conservador Instituto de Empresas Americanas e do liberal Instituto Brookings. O relatório propõe exigências de trabalho para benefícios do governo, mas também um modesto aumento do salário mínimo. Em vez de aumentar as verbas públicas para a educação superior, ele sugere pegar a assistência financeiraque hoje vai para famílias de renda mais alta e redirecioná-la para os mais necessitados.

Esse relatório enfatiza que uma maneira de superar a divisão política é concentrar-se nas evidências. Hoje temos resultados robustos que mostram que programas vocacionais como academias profissionais ajudam os jovens em desvantagem econômica a conseguir empregos e aumentar seus índices de casamento. Programas de tutoramento dos pais melhoram os resultados de crianças destituídas, levando a economias de dinheiro público.

Se você é um liberal, pode estar revirando os olhos. Você tem certeza de que os republicanos estão apenas colocando uma camuflagem de compaixão sobre políticas destinadas a beneficiar os bilionários. Sim, seja cético. Mas pelo menos agora pode haver um debate sobre como ajudar, sobre o que dizem as evidências, sobre se Ryan e outros agem de acordo com o que falam.

Os partidos veem um ao outro como a raiz de todo o mal. Mas quando eles cooperaram em iniciativas humanitárias houve um progresso real: sobre a Aids, o estupro nas prisões, o crédito para pessoas de baixa renda.

A triste verdade é que nenhum partido fez o suficiente para abordar a vergonha da pobreza enraizada nos EUA. Então esperemos uma verdadeira disputa nessa área, porque todo mundo perde --principalmente os mais necessitados-- quando na maioria das vezes um partido nem se importa em participar.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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