Grupos investem fortunas para impedir avanço de Trump nas primárias americanas

Matt Flegenheimer e Maggie Haberman

  • David J. Phillip/AP

    Rubio, Trump e Cruz em debate republicano promovido pela CNN

    Rubio, Trump e Cruz em debate republicano promovido pela CNN

Na esperança de deter a marcha de Donald Trump para a indicação presidencial, republicanos saíram encorajados das votações realizadas no fim de semana, após o desempenho eleitoral irregular de Trump e por alguns sinais nascentes de que ele pode estar atingindo seu teto de eleitores.

Grupos externos estão buscando empregar mais de US$ 10 milhões em propagandas de ataque por toda a Flórida e milhões adicionais em Illinois, pintando Trump como sendo um liberal, um vendedor barato e uma pessoa que fugiu do serviço militar. A organização limitada de Trump parece estar atingindo seu limite, sugerindo que ele pode ficar em desvantagem caso seja forçado a se manter em uma disputa prolongada por delegados.

Os resultados das primárias de sábado deixaram claro que Trump teve alguma dificuldade de expandir além de seus seguidores altamente fiéis, o deixando cada vez mais dependente das vitórias por grande margem das primeiras votações.

Na Louisiana, onde Trump tinha uma vantagem de mais de 20 pontos percentuais nas pesquisas de intenção de voto, o senador Ted Cruz, do Texas, acabou conseguindo empatar com ele entre aqueles que de fato votaram no sábado.

"Trump precisa se preocupar com a consistente rejeição à sua candidatura por parte do eleitor que de fato vota", disse Newt Gingrich, o ex-presidente da Câmara e ex-candidato republicano à presidência.

As derrotas de Trump para Cruz no Kansas e no Maine no sábado, somadas às vitórias mais próximas de empate na Louisiana e Kentucky, aumentaram a perspectiva da disputa afunilar entre os dois, apesar de muitos líderes republicanos verem Cruz com desconfiança.

Enquanto seus rivais se desesperam com o rumo vulgar que a disputa tomou, Trump adotou um tom mais contido, pelos seus padrões, enquanto os resultados eram divulgados na noite de sábado. Ele abortou sua primeira tentativa de subir ao palco e deixou a sala após perguntar aos repórteres se o resultado do Kentucky já tinha sido anunciado.

Quando ele finalmente falou, parte de seu estilo bombástico estava ausente, mesmo ao insistir que era hora de o senador Marco Rubio abandonar a disputa e que Cruz não obteria os votos mais moderados dos Estados costeiros e do nordeste.

"Donald Trump estava estranhamente com baixa energia", disse Mitt Romney, o vencedor das primárias republicanas de 2012, em uma entrevista no domingo para o programa "Meet the Press" do canal "NBC", tratando Trump da mesma forma como este tratava Jeb Bush. Mas apesar do otimismo renovado de seus oponentes, o caminho para impedir a indicação de Trump permanece estreito e árduo.

A ascensão de Cruz como alternativa mais crível a Trump prova ser tanto um estímulo quanto uma complicação para aqueles que buscam deter o nova-iorquino. Cruz tentou conter os pedidos para que a convenção republicana (onde o candidato é de fato escolhido) fosse cancelada, para negar a Trump a indicação, algo que, segundo Cruz, provocaria revolta entre os eleitores. Mas Cruz fez muito pouco até o momento para ameaçar a vantagem de Trump na disputa por delegados.

Grande parte do maior apoio a Cruz no sábado pareceu vir em detrimento de Rubio, não de Trump. E a mensagem da campanha de Cruz de pureza ideológica e fé religiosa é menos atraente para muitos dos Estados costeiros e do Meio-Oeste, ricos em delegados, que ainda restam no mapa.

"Sábado provou que Trump pode ser contido, até mesmo derrotado", disse Scott Jennings, um experiente estrategista republicano, olhando mais à frente para a convenção republicana em Cleveland, em julho. "A questão é se o campo permitirá que ela prossiga. Os cenários mais prováveis continuam sendo o de que Trump conseguirá o suficiente antes de Cleveland, ou ninguém conseguirá. Este segundo se tornou um pouco mais realista no sábado."

As forças para deter Trump estão começando a despejar dinheiro em propagandas de televisão, com um foco em particular nos grandes Estados que votam no dia 15 de março. Quatro grupos diferentes gastaram pelo menos US$ 10 milhões para veiculação de propagandas na Flórida até o momento, segundo pessoas que monitoram os gastos em mídia. Esse número deverá crescer, mas as emissoras de televisão na Flórida já estão repletas dessas propagandas.

Duas do Fundo Futuro Americano, que gastou US$ 2 milhões na Flórida e em Illinois, mostram veteranos condecorados atacando Trump como falso em assuntos militares. Michael Waltz, um coronel reformado das Forças Especiais, diz de forma devastadora que Trump fugiu do serviço militar e que é, na prática, um covarde. "Donald Trump não serviu este país um dia sequer", ele diz. "Não deixe que Trump engane você."

E um ex-prisioneiro de guerra no Vietnã, Tom Hanton, questiona a pose de durão de Trump: "Trump não sobreviveria à experiência de prisioneiro de guerra. Ele provavelmente seria o primeiro a se curvar".

Separadamente, o Clube por uma Ação para o Crescimento, um braço do grupo anti-impostos que foi o primeiro a lançar propagandas em Iowa contra Trump, destinou US$ 2 milhões em propagandas o atacando em Illinois, além do US$ 1 milhão gasto na Flórida.

Um terceiro grupo, o comitê de ação política Nossos Princípios, que foi criado para derrotar Trump, reservou US$ 3,5 milhões em Illinois e na Flórida e também está enviando mala direta para os lares dos eleitores na Flórida. Um grupo que apoia Rubio, Soluções Conservadoras, também está gastando vários milhões de dólares na Flórida.

A enxurrada de mensagens negativas por uma colcha de retalhos de grupos, destacando as críticas por clientes enfurecidos da antiga empresa educacional de Trump e o histórico dele de mudar de posição, já parecem prejudicar a campanha do bilionário.

Em conversas com alguns de seus aliados, que insistiram no anonimato por relatarem discussões privadas, assessores da campanha de Trump expressaram preocupação com o dinheiro sendo gasto contra ele na televisão. A campanha de Trump não conta com especialista em pesquisas de opinião, de modo que é orientada pelas pesquisas públicas e pelo que o próprio candidato observa enquanto assiste o noticiário na TV por assinatura.

Essa abordagem improvisada e uma série de ferimentos autoinfligidos, como a recusa em rejeitar de forma clara e imediata o apoio recebido pelo supremacista branco David Duke, se gabar do tamanho de seu órgão sexual em meio a um debate ou se retirar da conferência do Comitê de Ação Política Conservadora no fim de semana, alimentaram dias de cobertura desfavorável à campanha de Trump.

"Trump nutre um desdém total pela classe política profissional", disse Scott Reed, um estrategista republicano veterano. "Ele acha que todos só pensam em ganhar dinheiro. Especialistas em pesquisas são picaretas. Organização não importa. A ideia dele de uma organização política é receber telefonemas de algumas autoridades eleitas que desejam apoiá-lo e encaixar isso na sua agenda. Mas em algum momento isso vai acabar afetando a campanha dele de forma negativa."

Mesmo assim, resta a alguns membros do establishment republicano lidar com o que antes era impensável: se unirem em apoio a Cruz, um senador que construiu sua reputação os atacando.

"Alguns têm alguma esperança no Ted, mas nenhuma no Donald", disse o senador pela Carolina do Sul, Lindsey Graham, no programa "Meet the Press", resumindo a visão sombria do partido de suas opções restantes. Mas, como ele sugeriu, nenhuma expandirá a tenda republicana: "Estamos em um mergulho em parafuso mortal demográfico".

 

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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