Vilarejo luta contra fama de lugar mais "deprê" da Rússia deixada por filme

Andrew Higgins

Em Teriberka (Rússia)

  • Sergey Ponomarev/The New York Times

Tatyana Trubilina, a chefe do conselho local neste desolado posto avançado russo no mar de Barents, queria deixar algumas poucas coisas absolutamente claras: nem todos os 1.000 moradores são alcoólatras, nem todos são deprimidos e ninguém cometeu suicídio, pelo menos não recentemente.

Além disso, ela disse, seu domínio ártico é um"puro paraíso" caso você goste de frutas silvestres, peixe fresco e, é claro, de vastas quantidades de neve.

Esses são os deveres de estar encarregada de um local que, graças a um filme russo implacavelmente sombrio aclamado pela crítica (ao menos no Ocidente), ganhou uma reputação indesejada de talvez o local mais miserável na Rússia, uma terra congelada remota e desolada de bêbados, autoridades brutas, prédios decrépitos e puro desespero.

Trubilina, uma ex-professora irrepreensivelmente positiva, fez uma ruidosa campanha, apesar de malsucedida, para proibir o filme, "Leviatã", que foi filmado em grande parte em Teriberka e ganhou no ano passado o Globo de Ouro e uma indicação ao Oscar de melhor filme estrangeiro.

O personagem principal do filme, um mecânico chamado Kolya, tem sua vida destruída pelo prefeito, uma versão fictícia e terrivelmente venal de Trubilina. Sua esposa, Lilya, se mata. Entre os conflitos invariavelmente sem esperança com autoridades e com a Igreja Ortodoxa Russa, todos entornam vodca e ficam deprimidos.

"Não consigo entender como alguém pode fazer um filme tão desonesto", queixou-se Trubilina, diante de um retrato do presidente Vladimir Putin pendurado na parede de seu gabinete. "É uma versão inventada da realidade que não existe."

Como muitos dos críticos do filme na Rússia, ela considera o diretor, Andrey Zvyagintsev, um "traidor" com intenção de manchar os avanços da Rússia sob Putin.

Sergey Ponomarev/The New York Times
Casas antigas que devem ser demolidas em Teriberka

Mas a fúria defensiva de Trubilina diante do que considera como sendo uma distorção injusta, está em desacordo com a que sentem muitos outros moradores.

Ninguém gosta que seu lar seja retratado como um poço de miséria, mas muitos se consolam no fato de Teriberka, independente de quais sejam seus problemas, não é pior do que inúmeros outros lugares no "glubinka", como os russos chamam seu vasto interior, ou mesmo nos Estados Unidos.

É um território desprezado pelos urbanitas, mas também celebrado com frequência, pelos mesmos urbanitas, como local da autêntica identidade nacional.

Desde que "Leviatã" foi lançado e começou a ganhar prêmios no exterior e forte condenação pelos nacionalistas russos, até mesmo do Ministério da Cultura do país, que ajudou a pagar por sua produção,

Teriberka tem atraído um fluxo constante de visitantes. Alguns são fãs de cinema, mas a maioria é entusiasta de atividades ao ar livre, atraídos pela beleza natural majestosa exibida no filme, como contraponto para as horríveis ações sem remorso dos seres humanos.

Dois hotéis estão em construção e abrirão em breve, e um terceiro, situado em uma processadora de peixes que suspendeu grande parte de sua produção, já oferece um grande número de quartos confortáveis.

"As pessoas querem coisas exóticas, e estamos no fim do mundo aqui", disse Olga Nikolayeva, a chefe da recém-reformada Casa da Cultura de Teriberka. "A meu ver, toda publicidade é boa publicidade."

Quando ocorreu o colapso da União Soviética em 1991, Teriberka tinha uma população de mais de 10 mil, 10 vezes o número atual. Devido à sua proximidade de instalações militares importantes, ela era fechada para visitantes de fora e seu acesso era apenas por barco.

Sergey Ponomarev/The New York Times
Turistas observam a Aurora Boreal em Teriberka

De lá para cá, ela foi ligada por estrada a Murmansk e os postos de controle da KGB desapareceram da beira da cidade. Mas também desapareceram muitos dos subsídios e da frota pesqueira estatal que mantinha Teriberka viva.

"Este lugar deixará de existir em 20 anos", disse Ivan Koshpetruk, o gerente da fábrica de processamento de peixe.

Aqueles que permaneceram se orgulham de ter sobrevivido em meio às ruínas. "Tudo ruiu, mas ainda estamos em pé", disse Lyudmilla Bokotina, 69 anos, uma meteorologista que por 50 anos monitora s fortes ventos, neve e temperaturas abaixo de zero de Teriberka a partir de uma cabana de madeira empoleirada em uma colina isolada.

Ela caminha até lá todo dia e, com a ajuda de um colega mais jovem, apresenta oito relatórios a cada 24 horas para a agencia meteorológica do governo.

Ela é uma grande apoiadora de Putin, que ela diz que aumentou os salários de funcionários públicos como ela em um terço, mas também se diz fã de "Leviatã".

"Ele mostrou a verdade", ela disse, debruçada sobre uma mesa de madeira lotada de livros de registro e instrumentos meteorológicos.

Ela acrescentou: "Ele mostrou como vivemos. Não há trabalho, não há nada para as pessoas fazerem e as autoridades só se preocupam com seus próprios interesses. É tudo verdade e temos que combater isso".

À primeira vista, grande parte de Teriberka parece tão ruim quanto parece no filme, um amontoado de casas de madeira abandonadas, prédios de concreto decrépitos e cais derrelitos.

A estrada principal para a cidade passa por uma costa repleta de cascos de navios pesqueiros apodrecendo e outras embarcações, os últimos vestígios de um setor pesqueiro e de transportes antes próspero, agora moribundo.

Sergey Ponomarev/The New York Times
Crianças usam trenós caseiros nos montes congelados de Teriberka

Mas a paisagem ao redor possui uma beleza sublime, com amplas vistas da tundra imaculada, mar aberto e, à noite, aparições frequentes da aurora boreal, cortinas de luz que enchem o céu com um deslumbrante show de luzes natural.

Esses espetáculos ajudaram a tornar Teriberka um destino popular entre os jovens russos, que vêm aqui para olhar o céu à noite e, durante o dia, para aprender "snowkite", um esporte de inverno que usa um papagaio como tração para deslizar e navegar acima do gelo e da neve.

Mesmo a chegada dos rublos do turismo não anima Trubilina, a chefe do conselho. Ela se queixa de que os visitantes fazem barulho demais e perturbam a natureza.

"Não precisamos de turismo selvagem", ela disse, exibindo a posição padrão das autoridades russas de que o controle rígido é sempre preferível à espontaneidade potencialmente desordeira.

A única satisfação que os turistas trazem, disse Trubilina, é sua "decepção ao descobrirem que a vida aqui não é tão terrível" e a esperança de que possam ajudar a rebater a reputação de Teriberka, e por implicação da Rússia, de desespero crônico.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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