Quando são as crianças que puxam o gatilho

Jack Healy, Julie Bosman, Alan Blinder e Julie Turkewitz

Em Kansas City, Missouri (EUA)

  • Daniel Brenner/The New York Times

    Bichos de pelúcia e flores em memória a Sha'Quille Kornegay são colocados na varanda da casa onde ela se matou, em Kansas City

    Bichos de pelúcia e flores em memória a Sha'Quille Kornegay são colocados na varanda da casa onde ela se matou, em Kansas City

Sha'Quille Kornegay, 2 anos, foi enterrada em um caixão cor-de-rosa, com sua boneca favorita ao seu lado e uma tiara posicionada estrategicamente para esconder o ferimento na testa causado pelo tiro que ela deu em si mesma.

A menina estava cochilando na cama com seu pai, Courtenay Block, no final de abril, quando descobriu a pistola 9 mm que ele guardava embaixo do travesseiro. Ela era equipada com mira a laser que se acendia, como as luzes vermelhas nos tênis dos primos da garota. Block disse à polícia que acordou e viu Sha'Quille ao lado da cama, sangrando e chorando, com a arma a seus pés. Uma bala havia perfurado seu crânio.

Em um país que tem mais de 30 mil mortes causadas por armas todos os anos, os menores dedos no gatilho são de crianças como Sha'Quille.

Durante uma única semana de abril, quatro crianças --entre elas Sha'Quille-- mataram a si próprias com tiros, e uma mãe que dirigia por Milwaukee foi morta depois que seu filho de 2 anos aparentemente pegou uma arma que escorregou por baixo do assento da motorista. Foi um aumento brutal, mesmo pelos padrões dos pesquisadores que acompanham esses fatos.

No ano passado, pelo menos 30 pessoas foram mortas por tiros acidentais em que o atirador tinha 5 anos ou menos, segundo o grupo de controle de armas Everytown For Gun Safety [Todas as cidades pela segurança com armas], que registra esses casos principalmente por meio de reportagens na imprensa.

Os disparos efetuados por pré-escolares ocorrem em um ritmo de aproximadamente dois por semana, e algumas das vítimas foram os pais ou irmãos das crianças. Mas em muitos casos elas tiraram a própria vida.

"Você não pode chamar isto de acidente trágico", disse Jean Peters Baker, a promotora do condado de Jackson, no Missouri, que supervisiona o processo criminal da morte de Sha'Quille. Seu gabinete acusou Block, 24, de assassinato em segundo grau e ameaça de risco a criança. "São coisas realmente evitáveis, mas não estamos dispostos a evitá-las."

Os defensores do controle de armas dizem que essas mortes ilustram brechas letais nas leis de segurança com armas. Alguns Estados americanos exigem que recipientes trancados ou travas para gatilho sejam vendidos com as armas. Outros deixam as decisões sobre segurança praticamente a critério dos proprietários.

Melissa Golden/The New York Times
A casa em Dallas onde Holston Cole morreu após achar a arma do pai

Vinte e sete Estados têm leis que responsabilizam os adultos por deixar que crianças tenham acesso a armas sem supervisão, segundo o Centro Legal contra a Violência das Armas, embora especialistas digam que essas medidas têm pouco ou nenhum efeito para reduzir as mortes por armas.

Massachusetts é o único Estado americano que exige que os donos de armas as guardem em um local trancado, mas isso não impediu que menores matassem acidentalmente a si mesmos ou a outras crianças.

Os grupos de defesa do direito ao uso de armas se opõem a esse tipo de lei. Eles afirmam que as travas de gatilho podem falhar, que o armazenamento obrigatório pode deixar a arma fora de alcance em uma emergência e que tais medidas infrigem os direitos previstos na Segunda Emenda da Constituição.

"É claramente uma tragédia, mas não é algo generalizado", disse Larry Pratt, porta-voz e ex-diretor-executivo da Gun Owners of America [Donos de armas da América]. "Basear a política pública em ocorrências ocasionais seria um grave erro."

Holston Cole tinha 3 anos e era cheio de energia. Acordava antes do amanhecer, segundo seu pastor, e adorava cantar "Jesus Me Ama" e saltar no castelo inflável no jardim de sua casa em Dallas, na Geórgia.

Por volta das 7h de 26 de abril, ele encontrou uma pistola semiautomática calibre.380 na mochila de seu pai, segundo investigadores. A arma disparou, e o pai de Holston, David, em pânico, ligou para o serviço de resgate. Antes que o atendente pudesse falar, David Cole gritou ao telefone "Não, não!", segundo uma gravação transcrita.

Cole suplicou que seu filho de 3 anos aguentasse até a chegada da ambulância: "Fique comigo, Holston", diz ele na gravação do serviço, com voz de desespero. "Você está me ouvindo? Papai o ama. Holston, Holston, por favor. Por favor."

Holston foi declarado morto naquela manhã.

Melissa Golden/The New York Times
Zai Deshields, 4, no colo de sua mãe, Brandese, antes de ir à sua primeira sessão de terapia, em Stone Mountain

As autoridades locais estão avaliando uma decisão que pode ser difícil para os promotores e a polícia depois desses tiros fatais: se devem acusar por crime um pai ou parente já abalado pela dor. Embora a lei varie entre os Estados, especialistas dizem que as decisões sobre abrir um processo dependem de detalhes e circunstâncias específicos de cada caso.

O que talvez seja negligência criminosa na morte de uma criança pode ser considerado legalmente um erro trágico em outro caso.

Autoridades do escritório do xerife do condado de Paulding sugeriram que Cole deverá enfrentar, no máximo, uma acusação de conduta temerária.

"Qualquer coisa que possamos fazer, do ponto de vista criminal, não vai reduzir a dor que essa família sente", disse o sargento Ashley Henson, porta-voz do escritório do xerife. Henson disse que os investigadores sentiram desde o início que o tiro foi acidental. "Você quer proteger sua família e cuidar dela, mas ao mesmo tempo precisa ter segurança com suas armas", disse ele.

Em Indianápolis, Kanisha Shelton estava sempre por perto de seu filho Kiyan, de 2 anos, para protegê-lo dos cães sem dono que vagavam pelo bairro.

Mas na tarde de 20 de abril Shelton se afastou do menino, deixando-o na cozinha enquanto ela subiu ao segundo andar. Ela havia colocado sua bolsa no balcão da cozinha, fora do alcance dele, mas quando seu celular começou a tocar o menino provavelmente empurrou uma cadeira até o balcão, subiu nela e pegou a bolsa, segundo o relato de um primo, John Pearson. Lá dentro havia uma pistola Bersa calibre.380.

Pouco depois das 9h, Shelton ouviu um estouro e correu para baixo. Na cozinha, encontrou Kiyan deitado no chão, sangrando de um ferimento no peito. Ele foi levado a um hospital infantil, mas não resistiu e morreu.

A mãe de Shelton, que atendeu à reportagem no telefone de sua filha, disse que a família não queria falar sobre a morte. Não foi feita uma denúncia criminal.

A polícia de Indianápolis disse que essas cenas estão se tornando mais comuns. "A mãe estava obviamente muito chocada", disse o capitão Richard Riddle.

Daniel Brenner/The New York Times
Montorre Kornegay (esq) e sua mãe, Pamala, em Kansas City

Na noite de domingo, outra criança, de 10 anos, morreu no que, segundo a polícia, parece ter sido outro tiro acidental.

Quando um bebê da Louisiana que se matou acidentalmente foi enterrado, seu caixão não era maior que uma sacola de viagem, e tão leve que duas pessoas o carregaram com facilidade pela igreja batista de St. Paul lotada, em Bermuda, Louisiana.

Seu nome completo era Za'veon Amari Williams, mas para sua família, de Natchitoches, o menino de 3 anos era Baby Zee. Em 22 de abril, ele encontrou uma pistola e deu um tiro na própria cabeça, segundo o detetive John Greely, do Departamento de Polícia de Natchitoches.

Quando os paramédicos chegaram, encontraram a mãe com o menino no colo, chorando porque ele não respirava, segundo o noticiário local.

A polícia deteve um companheiro da mãe, Alverious Demars, 22, sob a acusação de homicídio por negligência e obstrução de justiça. Greely disse que a polícia acreditava que a pistola pertencia a Demars e que ele a escondeu depois que a criança a disparou. A polícia não encontrou a arma.

Os funerais dessas crianças foram cheios de angústia.

No de Baby Zee, os gritos e choros eram tão altos no momento da despedida final, que as portas da igreja foram fechadas para preservar a intimidade da família. Na Geórgia, o pai de Holston em prantos leu uma carta que falava sobre como a família costumava cantar "Jesus Me Ama". No funeral de Sha'Quille, em Kansas City, os parentes estremecidos choravam ao ver a menina no caixão e alguns a beijavam.

Um dia depois do enterro de Sha'Quille, sua avó materna, Pamala Kornegay, lembrou da menina que faltava no grupo de netos sentados no chão de sua sala. Ela disse que não sentia raiva do pai de Sha'Quille.

"Estamos só perturbados", afirmou. "Foi descuido. Isso poderia ser evitado." Foi um absurdo, disse ela, porque Block amava muito sua filha. "Ele preferia ter levado o tiro."
 

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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