NYT: Quando o último atleta olímpico partir, o Rio refeito tentará renascer

Andrew Jacobs*

No Rio de Janeiro

  • James Hill/The New York Times

    Jovens se divertem na Vila Olímpica, no Rio de Janeiro

    Jovens se divertem na Vila Olímpica, no Rio de Janeiro

Houve orçamentos estourados e queixas sobre gastos de bilhões em um megaevento, quando os professores estão sem receber seus salários. Os críticos dizem que as áreas mais ricas foram beneficiadas, às custas dos moradores das favelas. Uma promessa de limpar a poluída baía de Guanabara não foi cumprida, enquanto a esperança de lei e ordem hoje parece um cruel desafio diante do aumento da criminalidade.

Apesar das críticas, porém, os Jogos Olímpicos de 2016 no Rio de Janeiro modificaram profundamente esta cidade, trazendo um porto revitalizado, uma nova linha de metrô e uma série de projetos municipais, grandes e pequenos, que há muito estavam na lista de desejos dos urbanistas.

Se pusermos de lado nossas paixões políticas, será fácil ver que a Olimpíada criou um enorme legado para o Rio. São avanços que poderiam ter levado 20 ou 30 anos para se concretizarem" Pedro Corrêa do Lago, um historiador, economista e ex-presidente da Biblioteca Nacional do Brasil

Para muitos, tornou-se uma questão de fé que a Olimpíada moderna é um ralo para os cofres públicos, uma esponja para os interesses corporativos e um projeto de vaidade para líderes que buscam a glória tentando polir seus legados e a posição de seus países no palco mundial.

O Brasil não é diferente. Nascidos há sete anos, nos dias inebriantes do sucesso econômico, estes Jogos Olímpicos foram vistos inicialmente como o coroamento triunfal de uma nova potência global ascendente. Mas enquanto o país sofria sua pior recessão em décadas a Olimpíada tornou-se um emblema do desperdício do governo e de presunção política --e um alvo para os manifestantes que esperavam a passagem da tocha olímpica em seu trajeto pelo país.

Mas especialistas dizem que a Olimpíada também serviu como um poderoso catalisador para a revitalização urbana, promovendo projetos de infraestrutura financiados por dinheiro do contribuinte e investimentos privados, que vão melhorar a vida dos moradores da cidade.

Quase 150 km de pistas expressas de ônibus reduziram o tempo de viagem para milhares de trabalhadores pobres. Quatro túneis foram construídos e um sistema de trem leve de 27 quilômetros foi inaugurado em junho. Uma nova linha de metrô, a primeira grande expansão do sistema em décadas, começou a operar quatro dias antes da cerimônia de abertura dos Jogos.

A Prefeitura disse que acelerou a construção de mais de 400 escolas e centros de saúde nos bairros pobres, como parte do que o prefeito chamou de revitalização promovida pela Olimpíada.

Mas os críticos dizem que os Jogos produziram benefícios desiguais, favorecendo áreas ricas como a Barra da Tijuca, onde fica a Vila Olímpica, enquanto ignorou centenas de comunidades pobres cujos moradores vivem em casas improvisadas, sem saneamento básico.

A Olimpíada causou deslocamento, gentrificação e negócios escusos para as imobiliárias e construtoras" Theresa Williamson, diretora-executiva das Comunidades Católicas, um grupo de defensoria das favelas da cidade

Embora reconheçam a difícil situação das finanças públicas do Rio --escolas e hospitais sem verbas, salários atrasados do funcionalismo público e a miséria inclemente nas favelas nos morros--, alguns especialistas dizem que a Olimpíada produzirá benefícios por vários anos.

"É inegável que a infraestrutura construída para os Jogos vai beneficiar a população quando a Olimpíada terminar", disse Barbara Mattos, uma analista da agência de classificação de crédito Moody's.

Eduardo Paes, o determinado prefeito do Rio, que tem aspirações a cargos maiores, rapidamente descarta as críticas aos Jogos, chamando o evento de uma oportunidade única nesta geração de atrair investimentos para uma cidade cujas fortunas encolheram nas quase seis décadas desde que a capital do país foi transferida para Brasília.

"Ninguém disse que a Olimpíada iria solucionar todos os problemas da cidade", disse Paes em uma entrevista. "Mas nós usamos os Jogos como uma boa desculpa para realizar muitas coisas que eram o sonho de prefeitos há 50 anos."

Lalo de Almeida/The New York Times
3.ago.2016 - Policiais acompanham passagem da tocha olímpica no Rio de Janeiro

Ele comentou que o orçamento de US$ 12 bilhões (R$ 38,4 bilhões) da Olimpíada foi significativamente menor que as despesas de outras cidades-sedes recentes --os cerca de US$ 15 bilhões gastos nos Jogos de Londres e US$ 51 bilhões que a Rússia esbanjou na Olimpíada de Inverno em Sochi em 2014.

Mais importante, disse Paes, grande parte do dinheiro veio de empresas privadas que construíram a Vila Olímpica e o campo de golfe, assim como as que renovaram o porto da cidade, projeto que inclui um passeio à beira-mar de 3 km e dois novos museus.

Ao todo, disse ele, a cidade construiu 75 mil unidades habitacionais de preço acessível desde 2009, embora algumas estimativas sugiram que quase o mesmo número de pessoas, na maioria pobres, perdeu suas casas para projetos ligados à Olimpíada.

Os críticos contestam alguns números dados por Paes, indicando que os estouros de orçamentos provavelmente elevarão o custo final dos Jogos a US$ 20 bilhões (cerca de R$ 64 bilhões). Outros comentam que os 3.600 apartamentos que formam a Vila Olímpica acabarão abrigando famílias ricas, e que o campo de golfe, que exigiu aterrar pântanos protegidos, só servirão aos ricos.

"Sim, a Vila Olímpica será algo para os ricos", disse Paes. "Mas isso não é vergonha."

A quantia perdida com desperdícios e corrupção talvez nunca seja conhecida. Sérgio Cabral, ex-governador que ajudou a conseguir a vinda dos Jogos, foi acusado de pedir milhões em propinas. Também não está claro se as 12 instalações olímpicas destinadas a se tornar escolas ou centros esportivos comunitários acabarão sendo elefantes brancos.

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Mas autoridades municipais dizem que os Jogos ajudaram a avançar em planos de infraestrutura que estavam parados havia anos.

Em alguns bairros pobres, a Olimpíada serviu para acelerar a reforma de clínicas públicas que eram assoladas por longas filas de espera e mau atendimento. Em uma delas, na problemática favela Cidade de Deus, hoje um software agiliza o processo de triagem, um ombudsman simpático recebe queixas e um novo aplicativo permite que os supervisores acompanhem quanto tempo os médicos passam com cada paciente --ou se tiram pausas longas demais para o almoço.

"Mudou da água para o vinho", disse Elizabeth Rezende, 61, uma empregada aposentada que esperava o resultado de um eletrocardiograma depois de sentir dor no peito. "Os outros hospitais de emergência estão um caos."

Depois há o Meu Porto Maravilha, a área histórica à beira-mar que há décadas foi isolada do centro do Rio por uma enorme pista elevada para carros. Seus armazéns do século 19 estavam mofando. Os planos de reabilitação do porto, primeiramente apresentados nos anos 1980, há muito foram encostados devido à de dinheiro e de vontade política.

A reabilitação de US$ 2,5 bilhões, na maior parte financiados pela venda de direitos de construção em propriedades adjacentes e incentivos fiscais aos desenvolvedores, incluiu a demolição do elevado e a canalização do tráfego por um novo túnel de quase 5 km.

Na próxima década, os desenvolvedores planejam construir 500 apartamentos que, segundo eles, serão acessíveis aos moradores de uma favela próxima. Muitos destes são descendentes dos 500 mil escravos africanos que chegaram ao Brasil no cais de Valongo, cujas fundações, recentemente escavadas, deverão fazer parte de um museu que incluirá um cemitério de escravos esquecido.

"Se não tivéssemos os Jogos, não sei se isso teria acontecido em nossa vida", disse Alberto Silva, encarregado do projeto.

* Paula Moura colaborou na reportagem

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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