Obama aproveita viagens presidenciais para realizar desejos como turista

Michael D. Shear

Em Washington (EUA)

  • Doug Mills/The New York Times

    Obama visita as ruínas de Petra, na Jordânia, após quatro dias de negociações de paz no Oriente Médio, em março de 2013

    Obama visita as ruínas de Petra, na Jordânia, após quatro dias de negociações de paz no Oriente Médio, em março de 2013

Mergulhar com snorkel nas águas cristalinas do Pacífico além de Midway. Feito. Caminhar pelas enigmáticas colunas de Stonehenge. Feito. Visitar o Museu Bob Marley na Jamaica, as pirâmides no Egito e a Grande Muralha da China. Pode riscar os três da lista.

Viajar pelo mundo no Força Aérea Um ajuda muito a riscar os itens de sua lista de lugares que deseja visitar antes de morrer.

O presidente Barack Obama passou a maior parte de seu tempo de viagem nos últimos oito anos cumprindo deveres oficiais: inúmeros eventos para arrecadação de fundos, visitas de Estado a capitais estrangeiras, discursos para as tropas americanas, anúncios de políticas e intermináveis encontros de cúpula em salões de hotéis por todo o mundo.

Mas talvez mais do que qualquer um de seus antecessores, Obama também aproveitou a oportunidade para se tornar o turista supremo, dedicando metodicamente tempo para se maravilhar com as vistas mais espetaculares do mundo, aparentemente aproveitando cada experiência. (Quer prova? Assista ao episódio de "Celebridades à Prova de Tudo", no qual o presidente se junta ao apresentador Bear Grylls comendo salmão já mastigado por um urso.)

"É um impulso jeffersoniano. Ele é intelectualmente curioso", disse Jon Meacham, um historiador presidencial, que comparou a inclinação turística de Obama às viagens de Thomas Jefferson pela França de 1784 a 1789, apesar de isso ter ocorrido antes de Jefferson se tornar presidente.

Doug Mills/The New York Times
Obama faz turismo no Parque Nacional dos Fiordes de Kenai, no Alasca

"Ele está tentando fazer algo incrivelmente difícil", disse Meacham sobre Obama. "Ele está tentando renovar seu capital intelectual em um cargo que realmente exige um gasto desse recurso."

Nem todos os presidentes são ávidos turistas. O presidente George W. Bush era impaciente quando se tratava de turismo. Em 2002, Bush passou apenas 30 minutos na Grande Muralha da China. Foi o mesmo tempo que passou visitando os Arquivos Nacionais do Canadá, onde viu os retratos de Winston Churchill e Franklin D. Roosevelt. Um assessor da Casa Branca disse a um repórter em 2004 que Bush gostava de uma agenda rígida e enxuta.

O presidente Bill Clinton, segundo todos os relatos, era mais aberto a paradas turísticas, mesmo se isso significasse visitas tarde da noite antes de partidas logo cedo. Em uma visita a Madri, Clinton visitou o Prado, o museu de arte nacional da Espanha, às 23h.

O presidente George Bush viajou muito no cargo, mas era menos turista do que Obama, disse Meacham, que recentemente concluiu uma biografia de Bush pai. Quando tinha algum tempo livre, "ele marcava um jogo de 'wallyball' (uma espécie de vôlei onde a bola pode ricochetear nas paredes) em Camp David", disse Meacham. "Ele também promovia torneios não planejados de jogo da ferradura."

Os assessores de Obama dizem que ele é inflexível na exigência de que agendem paradas em locais que lhe permitam a chance de fazer algum turismo. Em Roma para conhecer o novo papa em 2014, Obama também realizou uma visita privada com guia pelo Coliseu.

Doug Mills/The New York Times
Obama visita o Coliseu acompanhado de Barbara Nazzaro, diretora técnica e arquiteta

Após quatro dias de negociações de paz no Oriente Médio em 2013, o presidente foi turista em Petra, na Jordânia, visitando as ruínas de 2.000 anos entalhadas nos rochedos de arenito.

E em 2014, ao final de uma viagem de três dias à Estônia e um encontro de cúpula da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte, uma aliança militar ocidental), Obama seguiu de carro até Stonehenge, onde caminhou sem pressa. Ele considerou o local "espetacular" e "especial" antes de dizer aos repórteres: "Riscado da lista!"

As viagens de Obama, juntamente com suas frequentes escapulidas para jogar golfe e as visitas de verão a Martha's Vineyard, geraram algumas críticas, especialmente de republicanos que questionam o valor das viagens e o custo para os contribuintes.

O Judicial Watch, um grupo de fiscalização conservador, tem usado pedidos e processos com base na Lei de Liberdade de Informação para tentar levantar o custo das viagens presidenciais. O grupo alega que as viagens de Obama, oficiais e pessoais, custaram aos contribuintes cerca de US$ 80 milhões.

É claro, não se sabe o custo exato do turismo presidencial, por ele estar misturado aos esforços gerais exigidos para proteção e apoio ao líder americano onde quer que esteja no globo. A infraestrutura da presidência moderna sempre acompanha o ocupante do Escritório Oval, esteja ele ou ela em deveres oficiais ou em férias.

Os assessores do presidente apontam que presidentes anteriores sempre viajaram com a mesma segurança e necessidades administrativas. E insistem que grande parte do turismo pessoal de Obama atende a importantes propósitos diplomáticos. Comer em um restaurante de macarrão noodle no Vietnã com Anthony Bourdain, para o programa deste na "CNN", eles disseram, contribuiu para o esforço do presidente de relações mais profundas entre os povos das duas nações. E o jantar do casal Obama em um restaurante em Cuba ajudou a cimentar a imagem de um novo relacionamento entre Washington e Havana, dois adversários de longa data.

Stephen Crowley/The New York Times
Em 2009, Obama caminhou pela Grande Muralha da China

"Esses momentos permitem ao presidente acentuar questões com as quais se importa as vivenciando pessoalmente", disse Liz Allen, vice-diretora de comunicações da Casa Branca. "Ver uma geleira derretendo no Alasca ou caminhar por trilhas de nossos parques nacionais realmente transmite às pessoas o impacto da mudança climática e a importância de conservar nossas terras e águas."

"E em viagens ao exterior", ela acrescentou, "sair fora do caminho batido para visitar um marco cultural aprofunda ainda mais os laços com aquele país".

Às vezes as exigências da presidência atrapalham o turismo de Obama. O presidente teve que descartar uma parada planejada no Taj Mahal após a morte do rei Abdullah da Arábia Saudita, no início de 2015, tê-lo forçado a encurtar sua visita à Índia. Apesar de ter feito várias viagens ao Sudeste Asiático, Obama nunca conseguiu persuadir seu pessoal a levá-lo a Angkor Wat, um complexo de templos magníficos no Camboja.

"O presidente ficou decepcionado por não ter tido uma oportunidade de visitar o Taj Mahal em sua última visita à Índia", disse Josh Earnest, o secretário de imprensa da Casa Branca, após a mudança de agenda na Índia. "Quem dera eu pudesse prometer, acho que o presidente gostaria que eu pudesse prometer, que ele teria uma oportunidade de visitar o Taj Mahal antes do final de sua presidência, mas não sei ao certo se terá."

Um dos maiores itens de sua lista de turismo que provavelmente não será riscado durante o restante de sua presidência: percorrer a tundra congelada da Antártida, em uma moto de neve que poderia ser chamada de Força de Neve Um. Importantes assessores disseram que ele ficou esperando por anos uma visita, mas não há nenhuma viagem para lá na agenda.

Mesmo assim, não há dúvida de que a presidência deu a Obama acesso extraordinário a povos, locais e experiências que a maioria das pessoas não tem.

"Jefferson tinha esse incrível senso de curiosidade. Ele queria ser uma espécie de esteira de transporte de cultura", disse Meacham. "Ele via o turismo da mesma forma que, eu suspeito, o presidente: um aumento da abertura para a experiência para aprender o máximo possível".

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Tradutor: George El Khouri Andolfato

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