Moradores revoltados recebem imigrantes retirados do acampamento de Calais

Adam Nossiter

Em Croisilles (França)*

  • Philippe Wojazer/ Reuters

    Imigrantes observam incêndio de barracas no acampamento de Calais, na França

    Imigrantes observam incêndio de barracas no acampamento de Calais, na França

Os protestos começaram antes de os imigrantes chegarem.

"Não os queremos!", gritavam os manifestantes na aldeia de 1.900 habitantes a 128 km de Calais, para onde os imigrantes foram levados em ônibus de um acampamento conhecido como a Selva na segunda-feira (24).

"Esta é a nossa casa!", gritavam outros diante da construção escura, um lar de aposentados abandonado, onde os imigrantes eram abrigados. No interior do prédio, um jovem sudanês pressionou o rosto contra a janela e olhou atônito para a multidão furiosa.

Em toda a França, pequenas comunidades como esta, situadas nos antigos campos de batalha no norte do país, estão sendo obrigadas a lidar em primeira mão com a crise dos imigrantes na Europa.

Não tem sido fácil. O esforço para realocar muitas das cerca de 6.000 pessoas que haviam feito da Selva seu lar colocou em destaque a opinião dividida da França.

Na terça-feira (25), as autoridades começaram a demolir a Selva para valer. Equipes de limpeza usando coletes laranja fluorescentes e capacetes brancos chegaram com pequenas escavadeiras. Avançaram aos poucos, jogando em um grande contêiner cobertores e colchões sujos, móveis descartados e lonas.

Foi o segundo dia de uma operação muito esperada para limpar a Selva e transferir centenas de imigrantes para abrigos temporários em todo o país. As autoridades disseram que cerca de 4.000 imigrantes, incluindo 772 menores, foram "abrigados" até agora.

Nem todos os moradores dessa aldeia foram contrários à chegada dos cerca de 30 imigrantes na manhã de segunda-feira. Dentro do lar de aposentados, havia sorrisos dos voluntários que vieram receber os jovens sudaneses.

Mas lá fora, na calçada, o clima era sombrio. "Sem imigrantes em Croisilles!", dizia uma faixa que mais de cem pessoas --homens, mulheres e crianças-- carregavam ao redor. Meia dúzia de policiais, destoantes na tranquila cidade rural, observavam preocupados.

"Não somos racistas!", gritou um homem que disse à multidão que pertencia à Frente Nacional, partido de extrema-direita. "Estamos aqui para defender a identidade francesa."

Conforme a demonstração se deslocou para a escadaria da Prefeitura, várias pessoas murmuravam sobre a possibilidade de haver estupradores e batedores de carteira entre os recém-chegados.

"Somos contra espalhar imigrantes por toda a França", gritou o manifestante da Frente Nacional, sob aplausos. "É uma bomba-relógio!"

Dentro do lar de aposentados, um voluntário sorridente estava sentado a uma mesa, cercado de imigrantes.

"Temos de vir vê-los regularmente, para garantir que eles comam bem", disse o voluntário, aconselhando os imigrantes a não deixar o prédio por enquanto.

Incêndios no acampamento de Calais

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Cenas semelhantes se desenrolaram em toda a França, conforme o governo distribui os imigrantes para mais de 450 locais de abrigo temporário em aldeias, cidades e subúrbios, desde pequenas comunidades na montanha aos arredores de cidades pujantes como Lyon.

A solução é estritamente temporária: os migrantes ficarão por três a seis meses enquanto cuidam dos pedidos de asilo. Alguns deles serão rejeitados.

Algumas comunidades cerraram os dentes e aceitaram os imigrantes sem confusão. Outras discutiram o número e pediram que fosse reduzido, como em Saint-Bauzille-de-Putois, na região montanhosa de Cévennes.

Em outros locais, os moradores, prevendo a chegada dos imigrantes, atiraram pedras contra os abrigos ou os incendiaram, como em Loubeyrat, no Departamento de Puy-de-Dôme.

Em Pierrefeu-du-Var, no sul do país, grupos pró e contra os imigrantes realizaram manifestações concorrentes.

A França relutou profundamente a participar do plano inspirado pela Alemanha de distribuir o fluxo de imigrantes por toda a Europa. Mas foi obrigada a enfrentar a crise do mesmo modo, conforme um pequeno fluxo de estrangeiros continua chegando ao país, principalmente vindos da Itália.

Com o desmonte do acampamento em Calais, o resto da França despertou para o fato de que também precisa escolher um lado.

As divisões ficaram extremamente claras nesta semana nesta aldeia de tijolos claros, que já foi um centro agrícola. Ela foi arrasada pelos alemães durante a Primeira Guerra Mundial, depois reconstruída, e hoje é basicamente uma cidade-dormitório para a capital regional próxima, Arras.

O prefeito socialista de Croisilles, Gérard Dué, recebeu calmamente os imigrantes na segunda-feira, enquanto os manifestantes gritavam lá fora.

"'Liberdade, igualdade, fraternidade' é a inscrição na fachada de toda Prefeitura", disse ele em uma entrevista em seu escritório. "Isso é a República."

Os oponentes aos imigrantes, segundo ele, são "no máximo 5%" da cidade. Mas ele também narrou sua surpresa quando 250 pessoas se declararam contra os migrantes em um conselho de moradores. Os manifestantes atiraram ovos contra sua casa há alguns dias.

Mas ele disse que não teme as consequências políticas de sua decisão de receber os migrantes. "A República pede que você faça alguma coisa, e você deve fazê-la", disse ele.

Mas foi difícil.

"Isto aqui está um inferno", disse Raphaëlle Maggiotto, membro do conselho de moradores e aliada do prefeito. Ela não dorme há dias. "Há manifestações todos os dias. Eles foram até a minha casa e gritaram meu nome."

Na manhã de terça-feira, a praça central, com seu monumento aos mortos na Primeira Guerra e sua Prefeitura de 1920 em estilo art déco, estava calma depois da manifestação ruidosa da tarde anterior.

"A aldeia está dividida", disse Sébastien Okoniewski, dono do café na praça.

A seu redor, os clientes resmungavam sobre os recém-chegados, mas seu próprio nome era um testemunho da migração que moldou a região --um influxo de poloneses no início do século 20, juntamente com italianos e portugueses.

"Eles chegaram da Selva de calças brancas! Sem um arranhão", disse Christian Saillot, preparando-se para tomar meio litro de cerveja. "E nem foram revistados", acrescentou, irado.

"Eles não têm nossa mentalidade", disse Alain Debas, um marinheiro aposentado.

Nenhum dos clientes de Okoniewski manifestou apoio aos migrantes na manhã de terça-feira. "Há ódio em Croisilles", disse uma voluntária no lar de aposentados, Guislaine Poutrain. "Nunca vi isso antes. Não reconheço mais Croisilles. Estou realmente decepcionada."

Dentro do lar, entretanto, os recém-chegados eram só sorrisos --algo raramente visto na Selva.

Sua nova casa é limpa, aquecida e bem iluminada. Eles estavam longe do frio, da sujeira, da miséria e da fome da Selva, e estavam felizes.

"Todo mundo nos recebeu bem aqui", disse Abdullah Ahmed, 24, da região de Darfur no Sudão, pouco depois de chegar na segunda-feira à tarde. "Aqui temos camas para dormir. E chuveiros."

*Aurelien Breeden colaborou com reportagem de Calais, França

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Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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