Votos de brancos da classe trabalhadora foram determinantes para vitória de Trump

Nate Cohn

  • Jim Watson/ AFP

    9.nov.2016 - Donald Trump faz discurso como presidente eleito dos EUA, em Nova York

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Donald Trump ganhou a Presidência surfando uma enorme onda de apoio dos eleitores brancos da classe trabalhadora.

Essa sempre foi uma possibilidade, mas parecia extremamente improvável. Hillary Clinton liderou em quase todas as pesquisas nacionais --e em outras pesquisas nos Estados que valem os 270 votos eleitorais necessários.

A visão tradicional das últimas eleições americanas dava ainda mais motivos para se pensar que Hillary estivesse segura. Pesquisas de boca de urna nacionais sugerem que o presidente Barack Obama ganhou a eleição presidencial de 2012 apesar de ter-se saído pior entre os eleitores brancos do que qualquer outro democrata desde Walter Mondale. As pesquisas mostraram que os eleitores brancos sem diploma eram agora apenas um terço do eleitorado.

A verdade é que os democratas eram muito mais dependentes dos eleitores da classe branca trabalhadora do que muitos acreditavam.

Afinal, os bastiões da força democrática da era industrial entre eleitores brancos da classe trabalhadora ficaram para Trump. Assim como muitas áreas onde Obama se saiu melhor em 2008 e 2012. No final, o esteio da coalizão vitoriosa de Obama se partiu para os republicanos.

O vale do rio Wyoming na Pensilvânia --que inclui Scranton e Wilkes-Barre-- votou em Trump. Tinha votado em Obama por uma diferença de 2 dígitos.

Youngstown, em Ohio, onde Obama ganhou por mais de 20 pontos em 2012, foi basicamente um empate. Trump varreu a série de antigas cidades industriais, tradicionalmente democráticas, ao longo do lago Erie. Condados que apoiaram Obama em 2012 votaram em Trump por margens de 20 pontos.

A área rural do norte virou majoritariamente para Trump. A mais óbvia foi Iowa, onde Obama venceu facilmente em 2012, mas Trump prevaleceu com facilidade. Esses ganhos se estenderam para leste, através de Wisconsin e Michigan, até a Nova Inglaterra. Trump venceu no Segundo Distrito Congressional do Maine por 12 pontos; Obama o havia ganhado por 8.

Esses ganhos foram muito além do que muitas pessoas consideravam possível. Mas Obama foi forte entre os nortistas da classe trabalhadora, e isso significou que havia muito espaço para um democrata cair.

Esse fato foi obscurecido por pesquisas de boca de urna nacionais que mostravam Obama se saindo muito pior entre os eleitores brancos do que qualquer nomeado democrata desde 1984. Mas Obama teve mau desempenho só entre os eleitores brancos do sul. Ele saiu bem à frente de Hillary em praticamente tudo o mais.

As pesquisas de boca de urna também subestimaram sistematicamente a importância desse eleitores brancos da classe trabalhadora para os democratas. Em geral, eles incluíam um grande número de eleitores não brancos com instrução superior.

O resultado foi que muitos analistas após a eleição subestimaram em cerca de 10 milhões o número de eleitores brancos da classe trabalhadora com mais de 45 anos.

Apesar disso tudo, Hillary ainda era considerada uma clara favorita ao se aproximar a eleição. As pesquisas a mostravam liderando confortavelmente em todo o país, por cerca de 4 pontos. Ela estava à frente em virtualmente todas as pesquisas nos Estados do Meio-Oeste que causaram sua derrota.

Mas a liderança de Hillary não era inatingível. O modelo da pesquisa Upshot deu a Trump uma probabilidade de 15% de ganhar a eleição.

As probabilidades de Hillary eram mais ou menos as mesmas de se marcar um gol estando no lado oposto do campo de futebol. Para alguns, isso não parecerá um reconhecimento adequado da incerteza. Mas o ponto é que os artilheiros frequentemente erram gols tentados da outra metade do campo. Também não é especialmente raro que as pesquisas errem uma disputa por 3 a 4 pontos.

E não é como se os pesquisadores não tivessem errado em muito tempo. As pesquisas subestimaram os republicanos nas eleições de meio de mandato em 2014; elas subestimaram os democratas em 2012; e no exterior elas erraram por uma quantidade modesta, mas comparável, sobre a votação no Brexit.

Nesta eleição específica, as pesquisas em nível nacional acabaram não muito longe do acerto. Na verdade, Hillary Clinton quase certamente obterá o voto popular --por pelo menos 1 ponto percentual. As pesquisas nacionais deram a Hillary uma vantagem de 4 pontos na reta final; a última pesquisa New York Times/CBS News deu Hillary com 3 pontos à frente.

Somando tudo, Hillary provavelmente ganhou os eleitores hispânicos por uma grande margem, como previam as pesquisas pré-eleitorais. Ela provavelmente fez grandes ganhos entre eleitores brancos com diploma superior, mas não está claro se ganhou entre eles.

Mas as pesquisas erraram em uma grande coisa: a margem de Hillary em Estados como Wisconsin, Michigan e Pensilvânia.

O mecanismo exato do erro não está claro. Talvez eleitores indecisos tenham preferido Trump; talvez houvesse eleitores realmente "silenciosos" a seu favor. Talvez tenha sido muito difícil abrir caminho para Trump: talvez os eleitores republicanos tenham voltado para casa no último fim de semana em subúrbios com alta instrução, enquanto os eleitores brancos da classe trabalhadora indecisos tenderam para Trump.

Mas o que está claro é que o erro não foi simplesmente sobre as pesquisas públicas. A campanha de Hillary estava convencida de estar no rumo da vitória. Ela quase não veiculou anúncios em Wisconsin, Minnesota e Michigan.

No final, muitos fatores que faziam Hillary parecer a preferida para ganhar nesses Estados simplesmente não existiam. Ela também não venceu em condados fortemente hispânicos na Flórida pelas amplas margens que muitos esperavam --superando Obama apenas ligeiramente em Miami-Dade e na área de Orlando-Kissimmee, mesmo que o tenha superado no Texas e na Califórnia. E ela não superou na área de Filadélfia, mesmo que tenha tido enormes margens na área de Chicago e em Seattle.

Sejam quais forem seus ganhos entre eleitores instruídos e hispânicos em todo o país, ou não ocorreram na mesma medida nos Estados decisivos ou foram superados pelo enorme apelo de Trump aos eleitores brancos sem diploma.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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