Alvo de ataques, âncora da Fox News lembra briga com Trump e faz alerta a jornalistas

Jim Rutenberg

Em Nova York (EUA)

  • Jesse Dittmar/The New York Times

    Megyn Kelly, apresentadora da Fox News que foi atacada por Trump em um debate entre os pré-candidatos republicanos em agosto de 2015

    Megyn Kelly, apresentadora da Fox News que foi atacada por Trump em um debate entre os pré-candidatos republicanos em agosto de 2015

A âncora da Fox News Megyn Kelly passou a maior parte do ano passado na principal arena de gladiadores de 2016, tornando-se um alvo tanto para Donald Trump quanto para quaisquer de seus adversários e surgindo como uma figura chave na demissão forçada do presidente do canal Fox News, Roger Ailes, a quem ela acusou de assédio sexual.

Na útilma terça-feira (15), Kelly estava em seu escritório na sede da Fox News no centro de Manhattan, fazendo avaliações e preparando-se para a próxima fase --a presidência Trump-- e aconselhando colegas jornalistas a considerarem sua experiência na campanha como um potencial exemplo admonitório.

"A campanha implacável que Trump disparou contra mim e a Fox News para tentar obter cobertura da maneira que queria foi inédita e potencialmente muito perigosa", disse ela de modo casual, porém vívido, atrás de sua mesa de trabalho transparente. Se ele repetir o mesmo comportamento na Casa Branca, comentou ela, "causará calafrios em muitas repórteres".

Até esta semana, Kelly geralmente evitava entrevistas sobre sua experiência com Trump. Novos detalhes compartilhados em seu novo livro, "Settle for More" [Fazer acordo para obter mais], sobre o que descreve como tentativas de Trump de assediá-la e intimidá-la, suscitaram questionamentos de alguns críticos sobre por que ela não abriu o jogo mais cedo.

Kelly, porém, disse que os contornos gerais da campanha de Trump contra ela --que, em suas palavras, incluiu pressão sobre seus chefes para refreá-la e ameaças de morte por parte de apoiadores de Trump que a obrigaram a cercar-se de um contingente de segurança-- eram bem conhecidos e ela não queria se colocar como uma parte ainda maior da história contando os detalhes antes da eleição.

"Trump queria fazer de mim uma trama na corrida presidencial", disse ela. "Durante nove meses tentei me afastar do meio de campo e ficar nas linhas laterais, que é onde um repórter deve estar."

Chip Somodevilla/Getty Images/AFP
Donald Trump durante o debate da Fox News em que entrou em conflito com Megyn Kelly

Ela saiu disso tudo como a estrela mais cobiçada dos noticiários de televisão, recebendo ofertas de salário anual de mais de US$ 20 milhões, o que a leva a ponderar se continua na Fox News ou vai para um canal rival quando seu contrato expirar, nos próximos meses. Seu novo livro e a publicidade em torno dele reavivam sua briga com Trump justamente quando ele começa a planejar sua posse.

Hope Hicks, porta-voz de Trump, não quis comentar sobre Kelly ou seu livro.

Todavia, falando de modo geral sobre as expectativas quanto à relação de Trump presidente com a imprensa, Hicks disse que ele acataria "protocolos padrão da imprensa ora vigentes e as tradições", e que vê sua administração como "o reinício" de sua relação com a mídia noticiosa.

Durante a entrevista, Kelly disse temer que a eleição tenha enviado uma mensagem perturbadora para as mulheres.

"Houve alguns temas surgidos em 2016, e um deles é que, como mulheres, temos um longo caminho pela frente, muita coisa a conquistar", disse-me ela. Enfatizando que não assume "posição sobre a eleição", observou que a campanha mostrou "haver uma tolerância com um nível considerável de sexismo e em alguns rincões --quero frisar que não estou me referindo especificamente a Trump, só ao que vimos neste ano--, até misoginia".

Nessa manhã seu colega de rede e rival Bill O'Reilly apareceu criticando-a por dar novos detalhes a respeito de suas denúncias de que Ailes a assediou. Kelly escreveu no livro que Ailes lhe ofereceu "promoção profissional em troca de favores sexuais" e que uma vez ameaçou implicitamente seu emprego após ela recusar um beijo.

O livro estava "fazendo minha rede parecer ruim", disse O'Reilly no "CBS This Morning". Posteriormente, em seu próprio programa, O'Reilly sugeriu que Kelly deveria ter demonstrado "fidelidade" à Fox, apresentando suas denúncias aos "recursos humanos", o que aparentemente significa que ela não deveria tê-las divulgado.

Kelly não quis responder aos comentários de O'Reilly, que foi alvo de denúncias de assédio sexual em 2004, mas fez um acordo.

Durante nossa entrevista, ela disse a respeito de O'Reilly: "Nunca o encontro; estamos bem".

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Kelly relata em seu livro que havia se queixado sobre o assédio de Ailes a um certo supervisor, que a aconselhou a evitá-lo. Depois que a apresentadora da Fox Gretchen Carlson abriu processo por assédio contra Ailes neste ano, várias outras mulheres apresentaram queixa contra ele, mas Ailes negou todas as acusações por meio de advogados.

Em uma declaração na terça-feira, Ailes disse: "Nego categoricamente as alegações que Megyn Kelly faz a meu respeito", e acrescentou que "atuou incansavelmente para promover e adiantar a carreira dela".

"Pense no que aconteceria aqui na Fox se tivéssemos uma mulher como CEO, e era um diretor de operações que estava me importunando quando fui assediada por Roger Ailes", disse Kelly. "Acho que as coisas teriam sido bem diferentes, e talvez as mulheres não tivessem de passar por essas experiências durante 12 anos."

A rixa de Kelly com Trump começou para valer no primeiro debate republicano, quando ela fez uma pergunta mencionando comentários anteriores dele sobre mulheres em que as comparou a "porcas gordas, cachorras, piranhas".

A partir daí, ele a atacou repetidamente no Twitter e disse a um entrevistador que Kelly tinha "sangue saindo pelos olhos, sangue saindo de tudo quanto era parte dela".

Olhando em retrospecto, disse Kelly, "aquela foi uma pergunta presciente".

E acrescentou: "Se alguém lhe pergunta se você é um idiota e você sabe que se formou na Rhodes como bolsista e é membro da sociedade Mensa [de pessoas com QI altíssimo], você não se abala".

Com Trump se preparando para um recomeço, Kelly afirma que também está. "Ficarei de mente aberta para ver se Trump vira a página e talvez aja mais de acordo com um presidente."

A questão central para ela é se Trump realmente mudará ou deseja mudar.

"É difícil um homem de 70 anos mudar", disse ela. "No entanto, o passado às vezes não é um prólogo quando um fato extraordinário acontece na vida de alguém."

Mas, por segurança, disse ela, "os jornalistas precisam ficar muito atentos".

Porque, segundo Kelly, se o passado for um prólogo, eles devem levar em conta a história dela, que a colocou no lado errado de uma campanha nas mídias sociais com vazamentos para a vida real, em que ela ouviu imprecações na rua e estranhos apareceram no edifício onde ela mora.

Muitos eleitores de Trump também são espectadores fiéis da Fox News que "acham que seus valores foram diminuídos, ignorados, menosprezados ou ridicularizados por demasiado tempo". Por isso, disse Kelly, "entendo totalmente por que ele foi eleito".

Na opinião de Kelly, alguns jornalistas "se excederam" contra Trump. Porém, disse ela, "a vasta maioria da controvérsia que ele gerou, em muitos casos intencionalmente, tinha o objetivo de ganhar cobertura".

E acrescentou: "É um pouco como o garoto que mata os pais e depois implora por clemência alegando ser órfão, entende?"

Uma coisa a respeito de ser presidente é ter cobertura mesmo sem se esforçar. Mesmo que o passado não seja um prólogo, isto será interessante.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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