Quando o paciente é um "combatente inimigo": tratamento psiquiátrico em Guantánamo

Sheri Fink*

  • Bryan Denton/The New York Times

    Entrada do Unidade de Saúde Comportamental da prisão de Guantánamo, em Cuba

    Entrada do Unidade de Saúde Comportamental da prisão de Guantánamo, em Cuba

Todos os dias, quando a tenente-comandante Shay Rosecrans entrava no centro de detenção médica na baía de Guantánamo, em Cuba, ela guardava no sutiã seu anel de formatura em medicina, cobria com fita adesiva seu nome no uniforme e escondia seu colar sob a camiseta, especialmente quando usava uma cruz.

Rosecrans, que é psiquiatra da Marinha, tinha sido avisada para não falar sobre sua família ou exibir qualquer coisa pessoal, pistas que poderiam levar um suspeito de terrorismo a identificá-la.

Os pacientes a chamavam de "puta torturadora", cuspiam em suas colegas de trabalho e gritavam ameaças de morte, disse ela. Um deles atirou uma xícara com urina, fezes e outros fluidos em uma psicóloga que trabalhava com ela. Até entrevistar prisioneiros para avaliar sua saúde mental provocava recriminações e denúncias de que ela os torturava. "O que seu Jesus pensaria?", perguntavam eles.

Rosecrans, que já se aposentou da Marinha, chefiava uma das equipes de saúde mental designadas para cuidar dos detidos na prisão-ilha nos últimos 15 anos. Alguns prisioneiros tinham chegado perturbados. Outros, enfrentando o confinamento indefinido, lutavam com o desespero.

Depois havia os prisioneiros que tinham desenvolvido sintomas como alucinações, pesadelos, ansiedade ou depressão, após sofrer interrogatórios brutais por americanos que eram assessorados por outros profissionais de saúde do governo.

Em Guantánamo, surgiu uma cegueira proposital sobre as consequências disso. Os que tinham condições de diagnosticar, documentar e tratar as consequências --psiquiatras, psicólogos e equipes de saúde mental-- muitas vezes não sabiam o que havia acontecido.

Às vezes por instrução e às vezes por opção, eles geralmente não perguntavam pelo que os prisioneiros haviam passado nos interrogatórios, segundo médicos militares atuais e antigos. Isso comprometia o atendimento, segundo médicos de fora que trabalham com equipes de defesa jurídica, registros médicos antes secretos e processos de tribunais.

Dezenas de homens que sofreram tratamento doloroso em prisões secretas da CIA ou em Guantánamo ficaram com problemas psicológicos que persistiram por anos, apesar da garantia de advogados do governo de que essas práticas não constituem tortura e não causariam danos duradouros, segundo relatou "The New York Times". Alguns homens nem deveriam ter sido presos, concluíram os investigadores do governo.

Michael Spooneybarger/The New York Times
Shay Rosecrans, psiquiatra da Marinha que liderava a equipe de saúde mental em Guantánamo, em sua casa em Pensacola, na Flórida

Em entrevistas recentes, mais de duas dúzias de funcionários médicos militares que serviram ou deram consultas em Guantánamo ofereceram o relato mais detalhado até hoje dos tratamentos mentais lá praticados. Quase desde o início, a sombra do interrogatório e da suspeita mútua manchava a missão dos que tratavam os prisioneiros. Isso limitava sua eficácia pelos anos vindouros.

Psiquiatras, psicólogos, enfermeiros e técnicos receberam pouco treinamento para o serviço e, segundo eles, sentiam-se despreparados para cuidar de homens que eram considerados, segundo lhes disseram, "o pior do pior".

Os médicos sentiam-se pressionados a ultrapassar os limites éticos e eram advertidos de que seus atos, em uma instituição corroída pela resistência organizada dos detidos, poderiam ter implicações políticas e de segurança nacional.

Os rodízios duravam só de três a nove meses, dificultando a formação de relações. Em um campo que exige intimidade, os psiquiatras e suas equipes usavam pseudônimos como Major Psico, Dr. Crocodilo, Superman e Big Mama, e se referiam aos pacientes por números, e não nomes. Eles frequentemente tinham de falar através de cercas ou fendas na porta das celas, usando intérpretes que também trabalhavam com os interrogadores.

Os militares americanos defendem a qualidade do tratamento de saúde mental em Guantánamo como humano e adequado. Os detidos, grupos de direitos humanos e médicos que consultavam as equipes de defesa oferecem avaliações mais críticas, descrevendo-o como negligente ou ineficaz em muito casos.

Os que serviram na prisão, a maioria dos quais nunca havia se manifestado publicamente antes, disseram que ajudaram seus pacientes e fizeram o melhor que podiam. Dadas as circunstâncias, muitos se concentraram nos deveres mais básicos.

"Meu objetivo era manter todos vivos", disse Rosecrans.

Lexey Swall/The New York Times
A psiquiatra Elspeth Cameron Ritchie, que foi mandada para Guantánamo em 2002, em sua casa em Silver Spring, Maryland

 

Quando ela trabalhou por um breve período no hospital da Marinha em Guantánamo como jovem psiquiatra, em 1999, era uma tarefa entediante. Ela via apenas alguns pacientes por semana, e não havia pavilhão psiquiátrico na base.

Mas depois dos ataques terroristas da Al Qaeda a Nova York e ao Pentágono em 2001, e a posterior invasão do Afeganistão liderada pelos EUA, os detidos começaram a encher a ilha no início de 2001. "Víamos prisioneiros chegarem com problema mentais", disse o capitão Albert Shimkus, então oficial comandante do hospital.

Não havia protocolos definidos para tratar pacientes considerados "combatentes inimigos", disse Shimkus, que hoje está aposentado.

Mas ele decidiu oferecer um nível de tratamento equivalente ao dos militares americanos. Transformou um bloco de celas em uma unidade espartana de internação para até 20 pacientes e trouxe psiquiatras, enfermeiros e técnicos da Marinha para prestarem serviço ininterrupto.

Surgiram conflitos entre os profissionais de saúde que ajudavam os interrogadores e os que tentavam dar tratamento de saúde. Psicólogos do Exército que trabalhavam com equipes de inteligência militar apareceram em 2002 e pediram para ser credenciados para tratar os detidos. "Eu disse não, porque eles estavam lá para interrogatórios", disse Shimkus.

Em junho daquele ano, o major Paul Burney, um psiquiatra do Exército, e o major John Leso, um psicólogo do Exército, que haviam sido destacados para Guantánamo para tratar as tropas, foram designados para criar técnicas de interrogatório. Em um memorando, eles listaram táticas de pressão cada vez mais intensas, incluindo isolamento prolongado, interrogatórios de 20 horas, posições dolorosas, gritos, manipulação da dieta, do ambiente e do sono.

Bryan Denton/The New York Times
Livros, filmes e games disponíveis a detentos dependendo da observância de regras, na Livraria da Prisão de Guantánamo

 

Mas eles também manifestaram cautela. "O dano físico e/ou emocional das técnicas acima pode surgir meses ou mesmo anos depois de sua utilização", advertiram os dois em um memorando. Eles acrescentaram que a estratégia mais eficaz de interrogatório era desenvolver um laço emocional.

Uma versão do memorando, despida das advertências, chegou ao secretário da Defesa, Donald Rumsfeld. Em dezembro de 2002 ele aprovou muitos dos métodos para Guantánamo. Alguns deles mais tarde migraram para prisões militares no Afeganistão e no Iraque, incluindo Abu Ghraib, onde se transformaram em terríveis abusos.

"Acho que foi o modo absolutamente errado como eles agiram", disse Burney, que não havia comentado publicamente o assunto, sobre as técnicas aprovadas. "Gostaria de poder voltar atrás e fazer as coisas de outro modo."

Ele e Leso criaram a Equipe de Consultoria em Ciência Comportamental (BSCT na sigla em inglês), para assessorar e às vezes conter os interrogadores militares, muitos deles jovens soldados alistados, com pouca experiência em entrevistas pessoais.

Os interrogadores submetiam alguns detidos em Guantánamo a música em alto volume, luzes estroboscópicas, baixas temperaturas, isolamento, amarração dolorosa, ameaças contra seus parentes e privação prolongada do sono, segundo o inspetor-geral do Departamento de Justiça.

Psiquiatras e psicólogos disseram que quase nunca perguntavam a um detido sobre o tratamento dado pelos interrogadores, fosse em Guantánamo ou em prisões da CIA.

Lexey Swall/The New York Times
Chris Kowalsky, capitão da Marinha aposentado que chefiou a unidade de saúde mental de Guantánamo em 2004, em sua casa em Silver Spring, Maryland

 

Mohamedou Ould Slahi, que foi libertado para voltar a seu país, a Mauritânia, em outubro, depois de 14 anos em Guantánamo, disse a um médico em sua equipe jurídica que os provedores de saúde mental militares não lhe perguntaram sobre possíveis maus tratos, segundo um relatório de tribunal obtido pelo "Times".

Slahi não deu a informação voluntariamente porque tinha medo de retaliação, escreveu ele em uma memória da prisão, "Diário de Guantánamo".

O doutor Vincent Iacopino, um médico civil que avaliou Slahi em 2007 para sua equipe de defesa, criticou os psicólogos e psiquiatras de Guantánamo por deixarem de "verificar adequadamente a evidente possibilidade de transtorno de estresse pós-traumático, ou TEPT", ligado a graves danos físicos e mentais, segundo os registros. Iacopino disse que médicos militares haviam medicado Slahi por seus sintomas, em vez de tentar tratar seu transtorno subjacente, que teve "efeitos psicológicos profundos e debilitantes em longo prazo".

Ele foi um dos quase 800 homens presos em Guantánamo ao longo dos anos e um dos vários cujas confissões foram prejudicadas por maus tratos e descartadas como provas pelos EUA.

Depois que as prisões secretas da CIA foram fechadas em 2006, Guantánamo recebeu mais de uma dúzia dos chamados detidos de alto valor, incluindo os acusados de tramar o 11 de Setembro.

Alguns médicos em Guantánamo disseram que foram instruídos, em comunicados ou por colegas, a não perguntar a esses ex-prisioneiros do "buraco negro" o que havia acontecido lá.

Joshua Lott/The New York Times
Daniel Lakemacher, ex-técnico em psiquiatria da Marinha em Guantánamo, diante de sua casa em Indian Head Park, Illinois

O brigadeiro-general Stephen N. Xenakis, um psiquiatra aposentado do Exército que deu consultoria à equipe de defesa de muitos detidos, disse: "Você não pode oferecer tratamento psicológico se não examinar o que aconteceu com eles quando foram torturados". E acrescentou: "Os psicólogos e psiquiatras em Guantánamo não estão cumprindo os padrões de tratamento dos militares ou da profissão".

Oficiais militares discordam. O capitão John Filostrat, porta-voz da força-tarefa conjunta em Guantánamo, disse: "Estamos fazendo um trabalho duro, e o fazemos bem".

Só 60 prisioneiros continuam em Guantánamo e cerca de um terço deles teve sua transferência aprovada. Dez foram acusados ou condenados por crimes pelo sistema de comissões militares.
Olhando para trás, Rosecrans disse que ela e seus colegas enfrentaram muitos obstáculos.

Para alguns prisioneiros, os mesmos instrumentos que os psiquiatras e psicólogos usam com grande frequência --fazer perguntas-- evocariam sempre os interrogatórios. E o sigilo complicava tudo.

"Sabíamos o que estava acontecendo? Ou o que poderia estar acontecendo?", perguntou Rosencrans. "Eu não sabia nada sobre interrogatórios."

Mas acrescentou: "Nós fazíamos o serviço de tratar pacientes".

Matt Apuzzo e James Risen colaboraram na reportagem; Alain Delaqueriere, Susan Beachy e Kitty Bennett, na pesquisa

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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