Facebook entra na briga para apagar incêndios online no conflito israelo-palestino

Peter Baker

Em Jerusalém

  • Jack Guez/AFP

    24.nov.2016 - Israelenses passam por incêndio na cidade de Haifa, no norte de Israel

    24.nov.2016 - Israelenses passam por incêndio na cidade de Haifa, no norte de Israel

Quando os incêndios tomaram conta de Israel no mês passado, Anas Abudaabes se pôs a digitar em seu laptop. O que resultou disso o colocou atrás das grades e deu início a um debate sobre se ele havia tentado atiçar as chamas do ódio, literalmente nesse caso.

Em sua página do Facebook, Abudaabes escreveu que "deveríamos chamar nossos bandidos para fazer o que é necessário", observando que "a grama seca queima mais rápido". Os árabes deveriam rezar por raios e ventos fortes, ele escreveu, ao passo que aqueles em Jerusalém e Haifa, onde as labaredas eram mais intensas, deveriam "jogar gasolina" naquilo que estava sendo chamado de "intifada do fogo."

Abudaabes, um empresário de 29 anos, insistiu que era sarcasmo e foi solto depois de quase quatro dias. Mas ele está longe de ter sido o primeiro a ser preso em Israel por aparentemente incitar o caos no Facebook, e nem será o último. O Facebook se tornou campo de batalha em uma luta global entre liberdade de expressão e incitação, e há poucos lugares onde isso seja mais pronunciado do que em Israel, na Cisjordânia e em Gaza.

O Facebook e outras empresas de mídias sociais anunciaram esta semana que eles se juntariam para rastrear de forma mais eficiente e reduzir propagandas terroristas online. Mas os líderes europeus não ficaram satisfeitos, argumentando que as empresas têm demorado para analisar e excluir postagens de ódio, e pressionaram por uma ação mais incisiva.

Nessa parte do mundo, o debate não é só teórico. O terrorismo é uma realidade diária, e o papel que o Facebook e outros sites de mídias sociais podem ter em inspirá-lo mexe profundamente com as pessoas. Israel fez pressão para combater provocações online que ele associa a chacinas. Os palestinos acreditam que repressão contra postagens no Facebook é só mais uma ferramenta usada por uma potência de ocupação.

"Nós temos conversas parecidas no mundo inteiro a respeito do problema do discurso de ódio online", diz Simon Milner, diretor de políticas do Facebook para o Reino Unido, o Oriente Médio e a África. "Mas nós vemos em Israel e no território palestino que essa é uma das questões centrais na sociedade, até mais nesta região do que em qualquer outro lugar."

Para o Facebook, que é a plataforma de mídia social dominante nesta região, a questão ganhou mais urgência nos 14 meses que se seguiram desde o início de uma onda de esfaqueamentos e ataques com veículos por parte de palestinos contra israelenses. Uma empresa proficiente em tecnologia está se vendo sujeita a forças da história que desafiaram líderes políticos, diplomáticos e religiosos muito antes de Mark Zuckerberg, presidente do Facebook, nascer.

Não importa o que faça, o Facebook invariavelmente parece ofender um lado ou outro. Se Israel se queixa de incitação ao ódio, o Facebook exclui postagens. Se jornalistas palestinos reclamam de serem amordaçados, o Facebook cancela a suspensão de suas contas.

"Percebemos que temos muito o que aprender", disse Milner, "e aprendemos muito nos últimos anos."

Não é difícil encontrar postagens provocadoras que beiram ou até ultrapassam a linha da pregação da violência.

Uma postagem feita pouco depois que teve início o mais recente episódio de violência mostrava um soldado israelense ferido e um militante segurando uma faca contendo uma mensagem em árabe: "Todos os meios são permitidos na jihad contanto que tragam a vitória para a religião. Espada ou explosão ou bala; e que eles desafiem a faca."

Outra mensagem postada no mesmo dia por um líder do Hamas, o grupo palestino considerado como organização terrorista por Israel e pelos Estados Unidos, glorificava os ataques a faca.

"Esfaqueie —não há lugar na sua terra para um forasteiro"

"Esfaqueie —e seja forte, não submisso"

"Esfaqueie —e erga sua cabeça como uma palmeira"

"Esfaqueie —em Jerusalém e em Hebron"

Outra postagem ainda mostrava o vídeo de um homem barbudo olhando tristemente para a foto de outro homem, supostamente morto na luta contra Israel, enquanto tocava uma música: "Meu sangue ferve de raiva e se mescla com seu sangue."

Então, em uma encenação, o homem constrói uma bomba, coloca-a dentro de uma sacola, grava a si mesmo em vídeo dando uma declaração, embarca em um ônibus e o explode junto com seus passageiros.

Nicole Bengiveno/The New York Times
Nitsana Darshan-Leitner, fundadora do Shurat HaDin Israel Law Center, em Nova York

"O Facebook precisa assumir sua responsabilidade", diz Nitsana Darshan-Leitner, fundadora da Shurat HaDin Israel Law Center, que coletou esses exemplos e outros. "Eles não podem se sentar em sua torre de marfim em Palo Alto e deixar o sangue derramar aqui nas ruas de Jerusalém."

Darshan-Leitner entrou com uma ação no valor de US$ 1 bilhão contra o Facebook no tribunal federal de Nova York este outono, alegando que ele fornece auxílio material para o Hamas.

A ação combinava uma queixa anterior em nome de 20 mil israelenses que culpavam o Facebook por incitação ao episódio recente de violência com outra queixa de parentes de diversos americanos mortos em ataques terroristas em Israel.

O Facebook diz que ele barra o Hamas e outros grupos considerados terroristas. No mês passado, ele pediu ao tribunal que indeferisse a ação, citando uma lei federal de 1996 que protege empresas de internet da responsabilidade pelo discurso de usuários de seus serviços. Além disso, ele argumentou que Darshan-Leitner não poderia provar que as postagens ofensivas haviam causado diretamente atos específicos de violência.

"O Facebook tem tolerância zero em relação ao terrorismo", disse a empresa em uma nota. "Ele condena ações terroristas, proíbe conteúdo terrorista no Facebook e remove rapidamente qualquer conteúdo terrorista denunciado."

Israel pressionou o Facebook a ser mais proativo. Quando os esfaqueamentos começaram em outubro de 2015, o primeiro-ministro Binyamin Netanyahu disse: "Foi uma mistura de Osama Bin Laden com Mark Zuckerberg."

Depois que Israel ameaçou processar, o Facebook enviou altos executivos, incluindo Joel Kaplan, ex-chefe de gabinete do presidente George W. Bush, para se encontrarem com oficiais israelenses em setembro, e eles concordaram em melhorar o trabalho de coordenação.

Agências de segurança israelenses monitoram o Facebook e enviam à empresa postagens que elas consideram como incitação. O Facebook respondeu removendo a maior parte delas. Ayelet Shaked, ministra da Justiça de Israel, disse que a empresa havia se tornado mais cooperativa nos últimos meses, embora preferisse que o Facebook tomasse a iniciativa em vez de esperar pelas reclamações.

"Pessoalmente, realmente acredito em liberdade de expressão", disse Shaked em uma entrevista. "Mas quando você está fazendo um apelo para que se mate alguém ou por ataques terroristas, isso é violência. Não vou tentar remover as palavras 'Liberte a Palestina'. Mas se estiverem mostrando como esfaquear judeus, isso deve ser removido."

Uriel Sinai/The New York Times
Ayelet Shaked, ministra da Justiça israelense

A algumas semanas de se encontrar com oficiais israelenses, o Facebook suspendeu os perfis de sete jornalistas de duas agências de notícias palestinas que supostamente teriam ligações extremistas. Os jornalistas disseram que foram reprimidos por criticarem Israel, que está ocupando a Cisjordânia, construindo assentamentos em uma terra que os palestinos consideram deles e demolindo as casas daqueles associados a terroristas.

Jornalistas palestinos começaram um protesto online com a hashtag #FBcensorsPalestine (O Facebook censura a Palestina). A empresa voltou atrás e reativou os perfis dos jornalistas.

"Surpreendentemente, tivemos um retorno imediato dos executivos do Facebook, que pediram desculpas por suspenderem nossas contas e disseram que foi um erro técnico da parte deles", disse Hussam al-Zaygh, editor-chefe da Shehab News Agency. "A suspensão de nossos perfis foi removida e não tivemos nenhuma reação do Facebook desde esse último incidente."

Milner, o diretor de políticas do Facebook, admitiu o erro: "Às vezes cometemos erros, e é lamentável que nas últimas semanas eles tenham envolvido algumas contas de jornalistas palestinos. Nós pedimos desculpas aos indivíduos envolvidos."

Outro executivo do Facebook viajou até a Cisjordânia na semana passada para garantir a jornalistas palestinos o compromisso da empresa com a liberdade de expressão.

"Estamos dizendo que queremos um espaço livre para falar sobre nossas questões aqui na Palestina e que deveríamos ter liberdade como todo mundo", disse Iyad al-Refaie, editor-chefe da Al Quds News Network. "Todo usuário do Facebook do mundo inteiro tem liberdade sobre o que publica ou não."

Israel não depende somente do Facebook para reprimir provocações. As autoridades têm prendido cada vez mais usuários que postam itens inflamatórios, e veículos de notícias árabes calculam que centenas tenham sido acusados.

Abudaabes disse em uma entrevista que ele ficou surpreso de se tornar um deles. O proprietário de uma pequena escola de fotografia e de uma empresa de marketing em Rahat, cidade de grande população beduína no deserto do Neguev, disse que usou o Facebook por nove anos sem problemas.

Quando começaram os incêndios recentemente, alguns palestinos comemoraram nas mídias sociais dizendo que eles seriam o castigo divino contra Israel. Abudaabes disse que ele achava errado alegrar-se com o sofrimento dos outros e que ele se pôs a zombar de tais sentimentos com sua postagem no Facebook.

"Quando postei aquilo, foi totalmente contra as pessoas que comemoram os incêndios, que acham que esses incêndios são melhores para nós", ele disse. "Quando postei aquilo, não pensei nem por um segundo que isso me encrencaria com o governo israelense."

Mas ele conta que em menos de uma hora a polícia chegou à sua casa. "Meu comentário foi: 'Sabe de uma coisa? É engraçado que vocês não entendam o meu post. É justamente o contrário'", ele lembra. "Eles não queriam entender."

Ele foi solto após o pagamento de uma fiança de quase US$ 4 mil. As autoridades retiveram com seu celular e laptop, e ordenaram que ele ficasse em casa por cinco dias e permanecesse fora do Facebook por 15 dias.

Os promotores anunciaram no domingo que não o processariam por "falta de culpa". Para Abudaabes, postar no Facebook foi quase como brincar com fogo.

*Com contribuição de Rami Nazzal em Ramallah, Cisjordânia, e de Myra Noveck, Irit Pazner Garshowitz e Diaa Hadid em Jerusalém

Tradutor: UOL

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