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Caras novas enfrentam a velha guarda política em um Brasil cansado de corrupção

Pedro Markun é um hacker que vai se candidatar nas eleições - Gabriela Portilho/The New York Times
Pedro Markun é um hacker que vai se candidatar nas eleições Imagem: Gabriela Portilho/The New York Times

Shasta Darlington

Em São Paulo

05/06/2018 02h00

Pedro Markun já pensou que hackear o sistema político do Brasil era a melhor forma de mudá-lo.

Ao longo da última década, o programador de computadores de 32 anos perturbou o establishment político com intrusões digitais, como clonar o blog presidencial para permitir comentários.

Agora, ele quer fazer mais do que apenas irritar o establishment. Ele deseja derrotá-lo nas urnas, em uma candidatura a uma cadeira no Congresso.

Com um cavanhaque desalinhado e uma queda por camisetas com estampas coloridas, Markun faz parte de uma onda sem precedente de novos candidatos concorrendo a cargos eletivos no Brasil tanto na esfera local quanto nacional.

Esses novatos políticos (ativistas, economistas, empreendedores, executivos e advogados) foram levados à ação pelo enorme escândalo de propina e corrupção que envolveu todos os principais partidos do país e derrubou políticos poderosos.

O presidente Michel Temer, o líder conservador do Brasil, está envolvido na investigação de corrupção que já dura anos conhecida como Operação Lava Jato, centrada no desvio de dinheiro da empresa de petróleo Petrobras, que é controlada pelo Estado. O ex-presidente de esquerda Luiz Inácio Lula da Silva começou a cumprir uma pena de prisão de 12 anos ligada ao caso em abril.

Mais da metade dos senadores do país e um terço dos deputados da Câmara estão sendo investigados por crimes. Mas a grande maioria pretende concorrer à reeleição em outubro, quando o Brasil também escolherá seu próximo presidente.

Segundo as pesquisas, a corrupção é a maior preocupação dos eleitores, enquanto a confiança nos partidos políticos tradicionais se encontra no ponto mais baixo.

Pessoas de fora esperam aproveitar o descontentamento nacional para invadir o establishment político, que há muito é fechado para novas vozes disruptivas.

"Ao longo dos meus anos hackeando, percebi que o problema não era tanto a política, mas sim os políticos", disse Markun em uma entrevista no LabHacker, um laboratório digital que ele abriu em São Paulo. "E a única forma de aproximar a política das pessoas é fazer com que pessoas comuns ingressem na política."

Especialistas dizem que é improvável que ocorra uma grande mudança na paisagem política em outubro, mas os novos candidatos podem estabelecer as fundações para um maior sucesso em futuras eleições.

"É uma escalada muito íngreme", disse Monica de Bolle, uma especialista em Brasil do Instituto Peterson para Economia Internacional. "Há uma boa possibilidade de que um pequeno grupo de candidatos consiga. Se mantiverem a mensagem, haverá uma maior chance de renovação no futuro."

Michelle Guimarães é uma novata que vai concorrer a uma vaga na Cãmara - Gabriela Portilho/The New York Times - Gabriela Portilho/The New York Times
Michelle Guimarães é uma novata que vai concorrer a uma vaga na Cãmara
Imagem: Gabriela Portilho/The New York Times

Outra candidata novata, Michelle Guimarães, uma ex-executiva da Johnson & Johnson, disse que foi atraída pela política devidos aos péssimos serviços de saúde em seu Estado natal, o Amazonas, e pela baixo percentual de mulheres em cargos eletivos no Brasil.

"Decidi que era hora dos políticos que estiveram no poder nos últimos 30 anos se aposentarem", disse Guimarães, que está concorrendo a deputada federal em uma Câmara dos Deputados onde menos de 10% das cadeiras são ocupadas por mulheres. "E isso significa que pessoas como eu precisam se envolver."

Ela pode se beneficiar com uma recente decisão do Tribunal Superior Eleitoral ordenando que os partidos destinem pelo menos 30% dos fundos públicos de campanha e de seu tempo de propaganda em rádio e televisão às candidatas.

Camila Godinho é uma iniciante política que se prepara para o Congresso - Gabriela Portilho/The New York Times - Gabriela Portilho/The New York Times
Camila Godinho é uma iniciante política que se prepara para o Congresso
Imagem: Gabriela Portilho/The New York Times

Para Camila Godinho, uma ambientalista e assistente social do Estado nordestino da Bahia, a decisão dela de concorrer ao Congresso foi movida em parte pelo desejo de expandir as opções dos eleitores além das famílias políticas tradicionais, que mantêm cadeiras por gerações.

"Temos que mostrar à população que há opções", disse Godinho.

Apesar de todo seu entusiasmo, essas caras novas (algumas poucas centenas concorrendo a cadeiras nos Legislativos estaduais e no Congresso nacional) enfrentam obstáculos desencorajadores em suas candidaturas.

Segundo as regras eleitorais do Brasil, os candidatos não podem concorrer como independentes e os líderes dos dezenas de partidos que costumam disputar as eleições brasileiras tendem a favorecer membros leais em vez de novatos políticos promissores na alocação de recursos de campanha.

Os ocupantes de cadeiras tem outra grande vantagem. Pela lei, os candidatos só podem começar a fazer campanha em agosto. Mas aqueles que já ocupam cargos eletivos usam seus deveres oficiais, e verbas, para cortejar os eleitores antecipadamente.

Em resposta ao escândalo Lava Jato, a Supremo Tribunal Federal proibiu contribuições corporativas às campanhas e o Congresso aprovou posteriormente um fundo público de financiamento de campanha. Mas esse dinheiro, junto com o altamente cobiçado tempo gratuito de propaganda em rádio e televisão, está sendo alocado aos partidos de forma proporcional, com base em sua atual representação no Congresso. Isso deixa os partidos políticos pequenos e menos estabelecidos, que geralmente são mais abertos a candidatos novos, em uma desvantagem significativa.

Buscando equilibrar o campo de jogo, um punhado de brasileiros influentes criou iniciativas não partidárias para treinar novos políticos antes do período de campanha.

O guru espiritual Sri Prem Baba dá uma palestra em um evento do RenovaBR  - Gabriela Portilho/The New York Times - Gabriela Portilho/The New York Times
O guru espiritual Sri Prem Baba dá uma palestra em um evento do RenovaBR
Imagem: Gabriela Portilho/The New York Times

O RenovaBR, uma organização com um orçamento de US$ 3 milhões financiado por empreendedores, fornece ajuda a 133 brasileiros de todo o espectro político que planejam concorrer ao Congresso. O dinheiro cobre o custo de vida enquanto os participantes realizam cursos intensivos em lei eleitoral e constitucional, procedimentos legislativos, financiamento de campanha e marketing.

Muitos novos candidatos também estão sendo auxiliados pelo Agora, um grupo criado em 2016 para fazer com que o público se envolva mais em questões políticas como reforma da previdência e redução da criminalidade.

O não partidário Agora também está encorajando uma nova geração a concorrer e chegou a um acordo com dois partidos pequenos, o PPS e a Rede, para fornecimento de uma plataforma para candidatos não afiliados, mas sem qualquer promessa de apoio financeiro ou logístico.

As eleições de outubro estão caminhando para serem as mais imprevisíveis e divididas desde o retorno da democracia ao Brasil no final dos anos 80.

Apesar do desafio em acessar financiamento público de campanha e tempo em rádio e televisão dificultar para candidatos que estão fora do Congresso, aqueles que fazem uso inteligente das redes sociais podem se sair bem nos centros urbanos, especialmente entre os eleitores jovens, segundo analistas.

Mesmo se muitos novos candidatos não conseguirem se eleger, os apoiadores do esforço para injetar sangue novo na política brasileira dizem que o esforço em 2018 é apenas o início.

A campanha deste ano "é apenas o início da renovação política, não o fim", disse Ilona Szabó, uma acadêmica e cofundadora do Agora. "Haverá mais de um ciclo eleitoral."

Com quase 30% dos brasileiros dizendo que votarão em branco na eleição em outubro, o momento seria propício para novatos políticos também na disputa presidencial. Mas até o momento, ninguém se apresentou. Dois candidatos potenciais, o primeiro ministro negro do Supremo Tribunal Federal, Joaquim Barbosa, e uma celebridade da televisão, Luciano Huck, se retiraram da disputa antes da campanha de fato começar.

Jovens adultos conversam na praça Roosevelt, em São Paulo - Gabriela Portilho/The New York Times - Gabriela Portilho/The New York Times
Jovens adultos conversam na praça Roosevelt, em São Paulo
Imagem: Gabriela Portilho/The New York Times

Os dois principais partidos que disputaram a eleição presidencial nas últimas três décadas, o PT e o PSDB, estão ambos debilitados pelo escândalo de corrupção.

Isso deixou um candidato da extrema-direita, Jair Bolsonaro, um ex-capitão do Exército acusado de incitar ódio racial, como candidato com maior apoio nas pesquisas. Mas ele também é o que possui um dos maiores índices de rejeição entre os políticos brasileiros.

Segundo Szabó, um dos maiores dissuasores a candidatos de fora à presidência são os acordos tradicionalmente empregados pelos candidatos para formação de alianças entre os grandes partidos. Esses acordos historicamente alimentam a cultura de corrupção sistêmica do Brasil.

"Não seria possível concorrer à presidência sem ficar vulnerável a ser cooptado", disse Szabó.

Os eleitores comuns estão começando a prestar atenção àqueles que estão concorrendo sem quaisquer laços com a política do passado. Filipe Nogueira Consoline, 33 anos, um produtor musical em São Paulo, disse estar inclinado a votar em novos candidatos.

"Eu os acompanho pela internet, especialmente para comparar o que eles têm a dizer com o que dizem os políticos na TV", ele disse. "É uma questão de deixar a corrupção para trás, mas também procurar por algo novo, não os mesmos velhos homens brancos de sempre."