França discute ideias para futuro acampamento de imigrantes na região de Calais

Maryline Baumard

  • Yoan Vala/Efe

    18.out.2015 - Acampamento improvisado para refugiados em Calais, na França

    18.out.2015 - Acampamento improvisado para refugiados em Calais, na França

As discussões se arrastam entre o governo do departamento do Norte, o prefeito e a Médicos Sem Fronteiras

O governo do departamento do Norte deveria ter dado na quarta-feira (6) seu aval para a criação de um acampamento humanitário em Grande-Synthe. Após uma nova sessão de trabalho entre o prefeito da cidade e o diretor-geral da Médicos Sem Fronteiras (MSF), o sub-prefeito de Dunkerque preferiu segurar sua resposta e marcar um novo encontro para segunda-feira, 11 de janeiro. Para a espera, 230 vagas para abrigar os migrantes mais vulneráveis foram liberadas na noite de quarta-feira como parte do plano de inverno.

Contudo, há muito tempo que o Estado já deveria ter agido. Até o dia 23 de dezembro de 2015, ele ignorou os apelos desesperados de Damien Carême, o prefeito do partido Verde que queria transferir os 3 mil curdos que esperam para entrar no Reino Unido. A instalação deles em um terreno pantanoso de sua comuna de Dunkerque sob tendas quase sem forro não conseguiria resistir ao mau tempo.

Dois dias antes do Natal, Carême por fim foi recebido pelo ministro do Interior, que pediu ao governador do departamento do Norte para que "colocasse em prática uma solução muito rápida que traga uma resposta humanitária às necessidades elementares dos migrantes". Quatorze dias depois, o aval do governador continua sendo esperado e deverá chegar na segunda-feira, ou seja, 19 dias após o encontro.

Na quarta-feira, o diretor-geral da MSF, Stéphane Roques, que veio especialmente para a reunião, se dizia "confiante, mas vigilante", assim como o prefeito de Grande-Synthe. Outros, mais críticos, se espantavam com o fato de que o Estado estivesse manifestando exigências de segurança rígidas sendo que mulheres e crianças vinham vivendo na lama há meses em um acampamento extraoficial, com um único ponto de água e sem eletricidade... Além dessa mudança brusca de atitude, o episódio na verdade coloca em oposição três abordagens de ajuda humanitária. 

Risco de hipotermia

Desde o outono, uma equipe médica da MSF vem oferecendo consultas junto com a Médicos do Mundo, enquanto uma dezena de especialistas em logística trabalham na mudança dos imigrantes. "Estamos prontos e esperando o aval", lembra Laurent Sury, coordenador de programas emergenciais da MSF Paris, que já tem sua lista de empresas prontas para começar e as 500 tendas aquecíveis que permitem abrigar 2.500 pessoas.

Os médicos têm alertado continuamente que a cada dia que passa aumenta o risco de hipotermia entre as crianças pequenas, em grande número no local, e o de complicações pulmonares entre os adultos que ficam expostos ao frio e à chuva.

Já o governo departamental está esperando receber respostas por escrito a todas suas questões sobre segurança. "Na quarta-feira, nós explicamos a eles como íamos proteger o acampamento da estrada vizinha e da linha de trem", lembra o prefeito. A MSF, por sua vez, respondeu sobre a disposição das tendas, para evitar a propagação de fogo, mas também sobre as vias de evacuação. Ambos deveriam submeter suas respostas por escrito até quinta-feira à noite para que o governo departamental as estudasse na sexta-feira e respondesse na segunda-feira. 

Entre esses dois relatórios emergenciais aparece um terceiro: o do prefeito. Fundador da rede de prefeitos hospitaleiros em sua região, Damien Carême já instalou em vários invernos tendas aquecidas para as famílias que desde 2006 fazem uma parada em sua comuna, antes de chegar à Inglaterra. Foi por iniciativa sua que se instalaram sanitários e duchas no atual acampamento improvisado. Foi ele também que pediu à MSF que projetasse um acampamento digno, uma vez que o Estado não lhe respondia.

No outono de 2014, ele havia elaborado um plano de "casa de imigrantes" que não conseguiu colocar em prática em 2015 pois o fluxo de imigrantes havia aumentado muito, tornando seu projeto obsoleto. De fato, desde que o Estado desmantelou um acampamento vizinho e o controle policial de Calais se intensificou, o número de curdos disparou para quase 3 mil nessa comuna que está acostumada com uma centena.

Damien Carême, portanto, se encontra entre um Estado hesitante, cidadãos preocupados com o número de imigrantes e a MSF, sua parceira, que talvez não vá manter por muito tempo a mesma abordagem que ele sobre o tema. A ONG lembra que ela não será o braço armado da política de repressão francesa, nem em matéria de combate aos coiotes, muito presentes em Grande-Synthe, aonde muitos chegam tendo pago a viagem até o Reino Unido, nem em matéria de controle dos imigrantes dentro do acampamento.

Tradutor: UOL

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