Opinião: Por que Merkel poderia ser a próxima a liderar a ONU

Mark Seddon*

Em Londres

  • EFE/Wolfgang Kumm

A emergência da chanceler como preeminente líder da União Europeia a torna uma forte candidata para a sucessão de Ban Ki-moon

Arquivada nos fundos de um escritório na sede das Nações Unidas em Turtle Bay, em Nova York, está uma pequena coleção de cartas amareladas contendo pedidos do primeiro secretário-geral da organização, um ex-ministro norueguês chamado Trygve Lie, para ser autorizado a deixar seu cargo. Até hoje, sua motivação permanece incerta: estaria ele desesperado para escapar do fardo do alto escalão? Ou será que ele acreditava em sua própria indispensabilidade e queria provocar apelos dos Estados-membros para que ele ficasse?

Na verdade, ele logo teve seu pedido atendido: seu segundo mandato terminou prematuramente, em 1952, quando o país que havia promovido com tanto vigor sua candidatura original, a União Soviética, ajudou a planejar sua saída. (Quando trabalhei na ONU, colegas me garantiram que a saída de Lie não tinha nenhuma ligação com temores de uma controvérsia caso se tornasse público que ele costumava adotar o improvável pseudônimo de "Rodney Witherspoon" quando acompanhava sua amante em Genebra, onde a ONU herdou sua sede da Liga das Nações).

No último dia deste ano, o atual e oitavo secretário-geral da organização, Ban Ki-moon, deixará aquilo que Lie descrevia como "o trabalho mais impossível do mundo". Algumas semanas atrás, a busca por seu sucessor começou com uma abordagem nova: uma carta conjunta do presidente da Assembleia Geral, Mogens Lykketoft, e da presidente do Conselho de Segurança na época, a embaixadora americana Samantha Power, solicitava candidaturas de membros da assembleia.

Outra novidade será o fato de que Estados-membros de fato entrevistarão os candidatos, no lugar de um processo tradicionalmente tão obscuro que faz com que a eleição papal pareça transparente. Esse procedimento deve terminar em tempo para a Assembleia Geral em setembro.

Aqueles que estão pressionando por um processo seletivo mais transparente esperam que o Conselho de Segurança possa oferecer mais do que um candidato para a Assembleia Geral, embora a Assembleia Geral nunca tenha tido a audácia de recusar um candidato apresentado pelo conselho. A ex-presidente irlandesa Mary Robinson faz parte do The Elders, o grupo de líderes mundiais fundado por Nelson Mandela que defende uma reforma.

"No mundo de hoje", disse ela recentemente, "é moralmente inaceitável permitir que o processo seletivo para secretário-geral permaneça como está."

Quando Ban Ki-moon se tornou secretário-geral nove anos atrás, o conflito em Darfur era o maior problema com o qual ele precisava lidar. Mas, à medida em que os anos foram passando, o número de conflitos cresceu, culminando no possivelmente mais sério e intratável de todos: a guerra civil na Síria. Apesar de todos os esforços de Ban Ki-moon, a comunidade internacional não conseguiu encontrar um meio de acabar com uma conflagração que é claramente uma ameaça à paz e à segurança geral.

A ONU costuma ser apontada como culpada por esse fracasso, mas na verdade a responsabilidade é dos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança e dos transgressores na região. Os cinco têm a oportunidade de ajudar a escolher um líder que possa ser capaz de mudar essa dinâmica e restaurar a relevância da ONU.

Então quem seriam os favoritos?

Portugal propôs seu ex-premiê António Guterres, que cumpriu dois mandatos como chefe do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados e foi notícia ano passado quando alertou que as agências humanitárias estavam em um "ponto crítico" por causa da escalada da crise mundial dos refugiados.

No entanto, há uma pressão para que esta seja a vez do grupo de países do Leste Europeu. Um ímpeto crescente para que a ONU indique uma mulher como secretária-geral pela primeira vez também explica por que o Leste Europeu está oferecendo uma forte escalação de mulheres, incluindo as búlgaras Irina Bokova, diretora-geral da Unesco, e Kristalina Georgieva, uma comissária da União Europeia. Outras mulheres que podem despontar como candidatas incluem a ex-primeira-ministra da Nova Zelândia, Helen Clark, e a nova ministra das Relações Exteriores da Argentina, Susana Malcorra.

No entanto, pessoas de dentro da ONU falam em uma mulher bem mais estabelecida no palco mundial: a chanceler Angela Merkel, da Alemanha. No ano passado houve especulação entre a mídia alemã sobre uma possível candidatura sua, ainda que o assunto tenha esmorecido e desde então ela esteja sobrecarregada, com a Alemanha recebendo um grande fluxo de refugiados.

Com eleições previstas para a Alemanha no ano que vem, o "Der Spiegel" citou colegas de Merkel dizendo que ela não deseja um quarto mandato. Com a crise migratória da Europa incitando resistência à sua política de portas abertas, fala-se em uma "saída elegante" para a chanceler.

Nenhum candidato conseguirá restaurar magicamente o prestígio da ONU, mas existe uma lógica persuasiva a favor de uma candidatura de Merkel. Ela tanto é mulher quanto alguém que cresceu no Leste Europeu, na antiga República Democrática Alemã. Mais importante ainda, ela possui uma compreensão intuitiva do presidente da Rússia, Vladimir Putin, que trabalhava como oficial da KGB em Dresden quando o Muro de Berlim veio abaixo. Embora a anexação da Crimeia por parte da Rússia tenha testado profundamente a paciência de Merkel, ela continuou a trocar telefonemas regularmente com Putin. Ela poderia, portanto, contribuir com uma habilidade singular na mediação entre Rússia e Estados Unidos.

A notável resposta da Alemanha sob sua liderança à crise dos refugiados na Europa também ressaltou as credenciais humanitárias de Merkel. No auge da onda migratória do ano passado, a disposição de Merkel em aceitar as centenas de milhares de desesperados candidatos ao asilo contrastava com a parcimoniosa resposta do premiê britânico, David Cameron, bem como com a crescente xenofobia entre alguns dos líderes do Leste Europeu.

Ao mesmo tempo, a chanceler enfrentou uma ameaça existencial à zona do euro quando a economia da Grécia mais uma vez começou a colapsar no ano passado. Merkel passou habilmente por entre uma enfurecida opinião pública grega e aqueles em sua própria administração, incluindo seu próprio ministro das Finanças, Wolfgang Schauble, que estavam prontos para expulsar a Grécia.

A tarefa que aguarda o sucessor de Ban Ki-moon é desencorajadora. Apesar das reformas que ele defendeu, a ONU permanece intimidada, desconfortável com a ideia de mudanças e desconfiada de forasteiros. Esse mundo novo e multipolar onde conflitos transcendem fronteiras nacionais é muito difícil de navegar, mas a chanceler da Alemanha poderia ser a pessoa à altura desse desafio.

*Mark Seddon foi assistente de comunicações para o secretário-geral da ONU de 2014 a 2016
 

Tradutor: UOL

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